domingo, 16 de janeiro de 2022

Nossos tipos, nossa gente

Depois que o Delegado Valtaso, irritadíssimo, sentou-se à sua escrivaninha, o cabo Simão penetrou imediatamente no recinto segurando um pobre rapaz pelo cinto.

- Então, disse o Delegado fulo de raiva, é esse o patife que vocês deixaram escapar?

Ninguém respondeu.

Quando o soldado Benedito quis tentar justificar a fuga do prisioneiro, o Delegado bateu violentamente na mesa e num estertor de raiva vociferou:

Cale-se seu banana! Procure, a partir de hoje, honrar mais a sua farda, não permitindo jamais que  um mero palhaço desse tipo escape de suas mãos.

O pobre rapaz manteve-se cabisbaixo sem sequer olhar para o Delegado, enquanto o soldado, em posição de sentido, ouvia claramente os insultos do seu  superior.

O sargento Verruga, como era conhecido, disse qualquer coisa ao ouvido do Delegado, tendo este, logo depois, ordenado ao Cabo Simão que soltasse o prisioneiro.

- Eu bem que gostaria, disse o delegado, de saber como esse patife conseguiu fazer vocês de bobo, e encarando o prisioneiro ordenou-lhe que contasse sua história; antes, porém, enunciasse o seu nome.

A HISTÓRIA 

Nhô sim, Dotô Delegado;

Eu me chamo Zé Mané

Mas todos por apelido

Só me chamam Capilé;

Moro lá no Riachão

Com meu pai e dois irmão

Cinco fio e a mulé.


Sempre fui home dereito

E nunca tive uma intriga;

Pra dizer mais a verdade

Eu nunca provoquei briga

Mesmo fora de furdunço

Eu nunca temi jagunço;

Os santos do Céu que diga.


Entonce o que se passou

Foi caso inté engraçado;

Eu tava comendo jaca

Num cantinho acocorado;

Veja o fute cuma é!

Pois um diabo de mulé

Fez um baburim danado.


Aquela mardita

Num caroço escorregou;

Inté mesmo nem dei fé

Daquilo que se passou;

Assim, Dotô Delegado,

Olhando um pouco de lado

Vi que a mulher se assentou.


Inté fiquei espantado

Quando vi o arvoroço,

Tive um susto tão danado

Que engoli um caroço;

Quando levantei do chão

Recebi um bofetão

Neste lado do pescoço.


Quando a raiva me cegou,

Todo meu sangue ferveu;

Vendo a mulher maltratando

Dizendo que dava neu,

Eu fiquei todo doidão;

Bati com ela no chão

E a polícia me prendeu.


Assim mesmo eu reagi:

Dei pontapé, cabeçada,

Pulava feito cabrito

Prá não leva borrachada;

De pancada fiquei rôxo,

Mas provei que não sou frôxo

E não fugi da parada.


Assim, Dotô Delegado, 

Aquela mulher matraca

Além de curpá a mim

Curpô também minha jaca;

O sordado Benedito

Na hora que ouviu o grito

Tomou logo minha faca.


E começou o zum zum;

Dei coice pra todo lado;

Quem tivesse à minha frente, 

Fosse sirvi ou sordado.

E naquele barburim

Eu notei que atrás de mim

Tinha um fuzil apontado.


Vendo aquilo me entreguei;

Que havera de fazer?

Ma bater com três sordado

Era na certa morrer;

Foi quando o cabo Simão

Segurou meu cinturão

Pra eu não poder correr.


Já na rua caminhando

Meu desejo era fugir

Pensei diversas maneira

De poder escapulir;

Cada passo farseado,

Um empurrão do sordado

E um grito tinha que ouvir.


Cuma sou caba de peia,

Tive uma boa noção;

Afrouxei logo a fivela,

Fiz finca-pé com ação;

E num arranco bendito

O sordado Benedito

Ficou com meu cinturão.


Não Tive ajuda da sorte

Logo adiante tropecei

Naquela mardita pedra

Que bem na frente topei;

Fui preso na ocasião

sem nenhuma reação

Quando então me comportei.


Assim, Dotô Delegado,

Faça o que deve fazer;

Me bote até no xadrez

Se de fato eu merecer.

O que sou não é segredo;

De ninguém eu tenho medo,

Suceda o que assuceder.

*Maviael Medeiros / Escritor, cronista e historiador / Garanhuns, 5 de Junho de 1982.

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