quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O encontro de Antônio Silvino com Elpídio Branco na Casa de Detenção em 1930

Elpídio de Noronha Branco*

Durante a Revolução de 1930, passei quarenta e cinco dias naquele presídio. Ali dei entrada no dia 19 de novembro. Do mesmo escapei à véspera do Natal. O período que ali passei foi inquietante. Os ânimos, embora um pouco mais amainados, ainda assim não eram de todo para tranquilizar a população, que ainda se encontrava sobressaltada. De  quando em quando chegavam as notícias mais aterrorizantes: - Você vai fazer, mais tarde, um passeio e Imbiribeira... (Lugar onde, diziam, eram massacrados, quando não mortos, os que tiveram a coragem de dereagir contra o que, de mão armada, assaltaram o Estado e, afinal, o País). Você vai levar, hoje, uma boa sova... E por aí afora...

Conheci, no meu ligeiro veraneio, pela Detenção, o velho Antônio Silvino que ali se encontrava, há anos. Demo-nos a conhecer. Chegamos a ser camaradas, além de colegas... Nos nossos encontros, que eram quase diários, ocorreu um fato que me espantou. Uma vez, quando à tarde, no meu cubículo, nos entreveros dos primeiros bate-papos, o velho chefe do cangaço saiu para mim com esta:


- Vejam as coisas do mundo como são, doutor, o senhor, outro dia, mandando prender e até matar e, hoje, aqui, nós ambos, na mesma humilhante condição de presos. - E continuou: - Não se arrependeram do que fizeram, o senhor e o seu chefe, o miserável do Eurico de Souza Leão?...

Eu já estava por tudo, esperando, até, que o velho prisioneiro me enforcasse, ali mesmo, e, confesso, sem qualquer acanhamento: As pernas me tremiam como varas verdes. Felizmente, porém, o meu sobrosso passou. O velho, a despeito de seu tumultuante passado, tornara-se, na prisão, um homem afável, bondoso. Era um recuperado, não havia dúvida. Confortou-me, várias vezes, reanimando-me da apatia em que me encontrava:

- Doutor, não se aperrei, a prisão de polícia e só pra inglês ver... amanhã ou depois o senhor está solto e não vai mais sofrer nem um padre-nosso... Eu é que continuarei aqui até quando Deus quiser e os homens, também... E em que condições: como facínora, como assassino de meninos e velhos e pra que? pra roubar!...

Aí o sentenciado alterou a voz e empertigou-se:

- Mentira, grande mentira essa da Justiça, em me mandar para aqui, acusando-me de assassino e de ladrão... Mentira dessa sociedade corruta que faz mais do que eu sem sofrer uma penitência...

A sineta da Detenção, felizmente, deu sinal de recolhimento...

E o velho detento se foi resmungando:

Ele, de certo, não está pagando inocente...

Por isso acabei o bate-papo com Silvino... Nunca mais...

Os anos que a gente, por acaso, tenha de passar na prisão só têm de pavoroso os seus primeiros dias, quando se chega, até, a pensar na hipótese de nunca mais ver o mundo. É uma cortina de ferro que se abate sobre o detento.

Fonte: Memórias Brancas de Elpídio Branco - 1963.

Fotos: (1) - Elpídio de Noronha Branco. (2) - Antônio Silvino deixando a Casa de Detenção no Recife em 1937. Créditos da foto: https://tokdehistoria.com.br/

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