sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O espião que veio do frio de Garanhuns


Clovis de Barros Filho*

São Paulo (SP) - O espião que veio do frio numa tradução direta do inglês The spy who came in from the cold, foi um filme muito famoso na década de 60 que contava a história de um agente britânico enviado à Alemanha Oriental para servir como agente duplo durante a guerra fria. Pois bem, eu não sou, nunca fui e nunca tive a menor intenção em ser um espião, mesmo porque, não sei disparar um espingarda, muito menos tenho ou tive  licença para matar e muito menos ainda o charme de um 007. Mais o fato é que coisas esquisitas para dizer o mínimo, aconteceram e ainda acontecem comigo. Esse caso (e não um causo) se passou nos meados dos anos 90 quando trabalhava numa empresa multinacional na área de pesquisa e desenvolvimento. Um dia fui chamado à sala da diretoria. O presidente  me informou que havia uma fábrica concorrente  nossa em Assunção no Paraguai, muito menor que  estava propondo um negociação para que comprássemos a unidade deles lá. Ele me solicitou então que marcasse uma visita com o dono da fábrica no Paraguai para verificar o seu potencial técnico e sua capacidade de produção. Foi o que fiz. 

Passados alguns dias fui visitar a unidade fabril do concorrente. A minha primeira surpresa em terras paraguaias foi que fui recebido nada mais nada menos pelo cônsul de um país da América em Assunção. Não entendi muito bem o que ele tinha haver com aquele negócio. O cônsul de outro país me levando para visitar uma fábrica de um paraguaio. Bem, não me restou outro coisa senão embarcar no seu carrão e seguir em frente. O que me chamou à atenção no percurso do aeroporto até a fábrica que ficava distante e na periferia de Assunção, foi a presença ostensiva do exército com soldados armados em quase todo percurso. O cônsul me explicou que o país passava por sérios problemas políticos e haveria a possibilidade de um golpe de estado o que explicava tantos militares nas ruas. Ai eu já fiquei meio preocupado. Sabe como é. Sozinho num país estrangeiro, com um cônsul de outro país estrangeiro aquilo de repente poderia acabar em confusão. Mas, tudo acabou dando certo. Chegamos afinal à fábrica. Fui apresentado ao dono. Um senhor alto, moreno forte muito educado mais claramente uma pessoa autoritária. Fui conduzido logo em seguida sem muitas delongas para visitar as instalações daquilo que eles pretendiam nos vender. Assim que adentrei à linha de produção ou aquilo pelo menos que deveria ser chamada de linha de produção era um horror. Mais parecia o castelo do experiências do Frankstein de tão velha e máquinas tão ultrapassadas. Nada ali indicava que se pudesse produzir algum produto vendável. Eles de cara, perceberam o meu desencanto. A primeira reação que tiveram foi me pressionarem a fazer um relatório positivo da unidade. Queriam arrancar literalmente da minha boca um comentário positivo. Eu fiquei preocupado. Além do dono e do cônsul havia mais dois caras que eram claramente seguranças  e aquela situação me deixava na defensiva. Não tive outra alternativa senão tecer elogios àquela tecnologia avançada. Para completar, me mostraram um produto que segundo eles teria sido fabricado naquela geringonça. E o pior, o dono me fez testá-lo na sua presença mostrando para todos que estavam ali, as qualidades e as potencialidades do seu produto. Óbvio que tive que elogiar ao máximo. Depois do teste e não menos preocupado, fomos almoçar. Durante o almoço a propaganda do produto continuou, as pressões para que fizesse um relatório positivo da visita também. Finalmente, após um breve descanso fui levado de volta ao aeroporto.

Confesso que só fiquei seguro quando embarquei no avião da Varig e o mesmo decolou de volta ao Brasil. Ai me senti seguro.

Bem, chegando ao Brasil tive uma reunião com o presidente e os diretores, expliquei a furada que seria o negócio e eles me pediram que emitisse um relatório detalhando as avaliações técnicas  na visita à fábrica deles no Paraguai. Foi o que fiz.

O tempo passou. Claro que o negócio não foi concretizado. Mais de dois anos depois, quando já não me recordava da minha visita rápida ao Paraguai e muito menos da "fabrica" eis que recebo uma ligação do nosso presidente me chamando à sua sala. Lá chegando, ele me leva há um lugar reservado e na sua mão levava uma cópia de um email. Com olhar sério e ar preocupado me olhou e disparou: cara o que foi que você fez lá na fábrica dos caras lá no Paraguai? Eu fiquei com cara de espanto sem saber o que responder. Ele continuo falando e me mostrou o email. Confesso que tremi na base. O email era do big boss da nossa empresa  a nível mundial no país de origem. Ele cobrava do nosso presidente no Brasil uma explicação do por que tinha enviado um técnico da empresa ao Paraguai para ESPIONAR e mais que isso, copiar a fórmula de um  produto de sucesso que eles tinham desenvolvido. E ainda segundo o email cobravam da nossa empresa uma indenização por perdas e danos de um valor altíssimo. Quando li aquilo fiquei sem saber se ria ou chorava. O certo é que repeti tudo do jeitinho que tinha ocorrido lá no Paraguai, que nunca tinha me passado pela cabeça copiar fórmula mesmo porque não tive nenhum acesso a elas e que o produto deles não passava de um produto sem o menor valor agregado para tentar vender gato por lebre. Mais calmo, ele respondeu ao chefe e a coisa acabou dando em nada. Num fundo os caras tentaram um blefe para tirar dinheiro da nossa empresa. Então o moral da história é que eu fui para o Paraguai como um técnico de produtos e depois de passar por sérios apuros voltei como um Espião que veio do frio, de Garanhuns.

*Clovis de Barros filho nasceu na Serra da Prata (Iatecá). Estudou no Colégio Diocesano de Garanhuns do Admissão ao Científico onde concluiu em 1968. Reside em São Paulo desde 1970. É Licenciado e Bacharel em Química Industrial pela Universidade de Guarulhos e Químico Industrial Superior pelas faculdades Oswaldo Cruz - SP.

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