sábado, 15 de janeiro de 2022

O gavião (conto)

Clovis de Barros Filho*

São Paulo (SP) - Era um sítio pequeno mais muito aprazível e seguro. Meus avós nasceram e lá viveram, até a morte, já bem velhinhos. Passei um bom tempo da minha infância com eles desfrutando da natureza pródiga do lugar. A casa era bem simples com uma ótima varanda na frente. Era lá que meu avô descansava tranquilamente após o almoço até chegada a hora de voltar para cuidar do cafezal. Um dia à tarde quando o mesmo já voltara para limpar a roça, minha avó e minha tia foram alertadas por Fox um vira-latas da presença de alguém à porta. Saíram para ver quem era. Caído em frente à varanda havia um homem bem jovem ainda não aparentando mais que 17 anos apesar da sua altura elevada contrastando com os padrões dos nativos do lugar. Parecia fraco e cansado. Minha tia lhe serviu água fresca. Passados alguns minutos o jovem homem começou a se mexer e logo tratou de se sentar. Olhou agradecido para minha tia porém sem pronunciar uma palavra. Levantou-se em seguida e foi ai que as duas repararam o seu corpanzil  com omoplatas extremamente largas  e o corpo arqueado. Sua cabeça era pequena exibindo um cabelo preto, olhos pequeníssimos, nariz que mais parecia o bico de uma ave de rapina, boca pequena exibindo estranhos dentes finos parecendo que eram todos iguais. Suas mão eram  enormes e suas pernas muito compridas. Após se espreguiçar um pouco o estranho voltou a sentar. Tentou balbuciar algumas palavras mais seu esforço foi em vão só conseguindo emitir um estranho ruído da sua pequena boca. Minha avó e minha tia dele se compadeceram e o levaram para descansar na varanda onde permaneceu quieto até a chegada do meu avô. Após ouvir a narrativa da minha tia meu avô foi logo dizendo que se ele quisesse poderia ficar no sítio para ajudá-lo nas tarefas diárias. E foi o que acabou acontecendo. O estranho foi acomodado numa edícula próxima à casa principal. Quem não pareceu gostar muito da presença dele foi o vira-latas Fox. Pela atitude do homem a  reação foi a mesma do cão. Os dias foram passando, e diferentemente do que pensara meu avô o estranho não se adaptou ao trabalho mais pesado. Limitava-se a ir há fazer pequenas tarefas caseiras  como ir à Vila próxima comprar alguns mantimentos sempre claro levando uma lista com o que deveria ser adquirido já que não falava nada. Passados mais alguns dias meu avô resolveu batizá-lo com o nome de Gavião nome segundo ele derivado da sua aparência com a ave de rapina. Gavião pareceu entender o seu novo nome se é que ele já havia tido algum. Bastava que qualquer um da casa chamasse pelo seu nome e ele vinha de imediato. Com o tempo meus avós foram percebendo outras atitudes estranhas em Gavião. Ele nunca permanecia dentro da sua casinha. Preferia ficar nas partes mais altas do sítio como que vigiando a chegada de algum estranho próximo a residência dos meus avós. Dono de uma força fora do normal para sua idade, às vezes carregava toras de madeira e cortava com um machado sem muito esforço. Era raro ele fazer isso porém às vezes fazia pois percebia que o trabalho era por demais pesado para o meu avô. Gavião diferente da ave que lhe deu nome não se alimentava de carne. Preferia comer feijão, arroz, macaxeira ou outro vegetal qualquer. Nunca comia um pedaço de carne. Gavião se mostrava muito cuidadoso na minha presença sentia que me protegia com todo cuidado era ainda uma crianças de 5 anos. Nenhum estranho mesmo que primos e tios podiam se aproximar de mim até ele ter certeza de quem eles realmente eram.

Gavião foi criando raízes, os anos passaram-se e passou literalmente a fazer parte da família mantendo todo esses anos o mesmo ritual de sempre.

Certo dia após o almoço com meu avô já na roça sob um sol a pino e um calor fortíssimo aproximaram-se da casa dois homens estranhos e que não eram do lugar. Chegaram sorrateiramente sem fazer qualquer ruído, estudaram o lugar e resolveram sem avisar subir até a varanda. Como viram a porta de entrada fechada resolveram bater à porta. Fox foi o primeiro a dar o sinal de alerta latindo sem parar. Minha tia saiu para ver o que acontecia. Os dois homens já se encontravam bem em frente à porta de entrada e sem dirigir-lhe uma palavra os dois seguraram ela pelos braços e adentraram à casa ameaçando-a com enorme faca peixeira. Os crimes na região eram muito raros porém quando ocorriam eram sempre a golpe de facas e extremamente violentos. Na maioria das vezes os criminosos roubavam as vítimas, cometiam estrupo e ainda as matavam esfaqueadas. E com certeza o que ambos planejavam era aquilo mesmo. Levaram minha tia para a cozinha onde ameaçaram também a minha avó. Começaram então a pedir dinheiro e joias sempre esfregando a afiada faca no pescoço das duas. Nesse momento a porta dos fundos que dava para cozinha foi aberta com enorme violência. Era Gavião, que com enorme rapidez e força imobilizou os dois de uma só vez pelos pescoços. Gavião tomou a faca de um deles. Derrubando um deles ao chão o imobilizou pisando no seu corpo. O outro ficou tentando se soltar em vão dos braços e da força descomunal de Gavião. O que aconteceu a seguir foi rápido e pavoroso. Gavião prendeu as mão do homem na mesa de madeira e com um golpe certeiro decepou quatro dedos do estranho que emitiu um terrível grito de dor. Gavião o soltou-o o qual desapareceu urrando de dor em desabalada carreira. O outro não teve sorte diferente da do primeiro perdeu seus quatro dedos com golpe certeiro da faca peixeira que portavam e gritando  sumiu estrada afora. Minha avó e tia estavam literalmente em choque assustadas com a cena, tanto pela ameaça que sofreram dos estranhos quanto pela reação violenta de Gavião. Porém, com o passar dos minutos entenderam que se não fora a presença dele ali as duas àquela altura já poderiam estar mortas. Gavião não parou por ai, providenciou um balde de água e sem que ninguém solicitasse lavou todo sangue deixando a cozinha sem nenhum vestígio do que ali ocorrera. A surpresa mesmo ficou por conta dos oito dedos dos assaltantes. Com enorme cuidado Gavião os colocou em uma toalha limpa deu um nó e levou o macabro embrulho para fora de casa não se sabe para onde. Não tardou e meu avô apareceu perguntando o que tinha acontecido pois Fox latira o tempo todo. Minha tia  e minha avó assustadíssimas contaram o ocorrido deixando o velho muito nervoso. Foi até a casinha de Gavião. Sentado na sua cama feitas com varas de bambu e cobertas por um colchão revestido de capim seco não esboçou qualquer reação ou sinalizou estar preocupado com algo tão terrível que acabara de acontecer. Meu avó voltou então para casa e os três ficaram curiosos com o que ele tinha feito com os dedos dos estranhos. Certamente disse minha avó ele deve os ter enterrado em algum lugar Porém, passadas algumas horas aquilo que nunca tinha acontecido, aconteceu. Repentinamente começaram a sentir um cheiro de carne queimada vindo da casinha de Gavião. Meu avô foi lá dar uma olhada. E para sua surpresa e estarrecimento Gavião saboreava na maior tranquilidade os dedos assados dos dois bandidos. Meu avô entrou em casa assustado com o que viu e contou a minha avó que ficou mais desesperada ainda. Os três mais minha tinha resolveram ficar calados e fazer que não viram nada. Passaram-se alguns dias. Quando tudo parecia ter terminado, minha avó e sua filha começaram a sentir falta das galinhas que criavam soltas no quintal. Já ressabiadas descobriram que Gavião adquirira o hábito por comer carne vermelha e o cheiro de galinha assada passou a ser mais frequente para os lados de onde morava o Gavião. A preocupação só aumentou. Até que o pior aconteceu. Uma tarde meu avô sentiu falta do velho Fox pelo qual Gavião não nutria a menor simpatia. Meu avô gritou, assobiou e nada do Fox aparecer. O que apareceu mais uma vez sentiram foi um cheiro de carne queimada e uma fumaça forte vinda da casinha do Gavião. Meu avô foi lá ver para conferir do que se tratava. E para seu espanto Gavião sentado no chão devorava parte do Fox sem a menor cerimônia. Nem a presença dele ali fez ele parar de saborear o velho cão. Aquilo foi a gota d'água. Após contar o ocorrido em casa, no dia seguinte foi à Vila e contou tudo para o policial de plantão. Eles concluíram então que o Gavião era um caso perdido e com certeza teria um desvio psiquiátrico forte sendo então um perigo para eles que o davam abrigo e para os habitantes da Vila. Ficou decidido então que na manhã seguinte eles iriam prender provisoriamente Gavião até que o mesmo fosse transferido para uma colônia penal para pessoas com doenças mentais. E foi o que fizeram sem antes recrutar mais um soldado para ajudá-los. Não foi tarefa difícil. Gavião veio tranquilo pois não tinha a menor ideia do que seria uma prisão. A cadeia da Vila era muito pequena. Na realidade uma garagem improvisada pois pouquíssimas pessoas cometiam algum delito para serem lá trancafiadas. Foi para que levaram Gavião provisoriamente.  Abriram a porta e pediram para ele entrar. Gavião entrou numa boa. O ambiente era meio escuro mais o suficiente para Gavião com seu olhar sempre aguçado enxergar tudo à sua volta. E de repente fez uma coisa que jamais tinha feito antes. Sorriu. Um sorriso largo e assustador, mais sorriu. O que será que teria levado Gavião a fazer aquele gesto incomum? Sentados no fundo da sala tremendo de medo encontravam-se nada mais nada menos aqueles dois que emprestaram seus oito dedos para o seu batismo com carne vermelha e humana. O guarda fechou a porta da sela. No dia seguinte descobriram que Gavião tinha batido asas e sumido não se sabe para onde. O que restou foram dois cadáveres mutilados faltando-lhes partes dos corpos.

*Clovis de Barros filho nasceu na Serra da Prata (Iatecá). Estudou no Colégio Diocesano de Garanhuns do Admissão ao Científico onde concluiu em 1968. Reside em São Paulo desde 1970. É Licenciado e Bacharel em Química Industrial pela Universidade de Guarulhos e Químico Industrial Superior pelas faculdades Osvaldo Cruz- SP.

Créditos da foto: www.nicholas-wade.com 

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