sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O gramofone em Garanhuns

Marcílio Reinaux*

Gramofone ou fonógrafo é um instrumento antigo, que fica na parte superior de radiolas também antigas e que serviam para ampliar ou amplificar o som. Podia ser chamado também de amplificador de som. No meu tempo de menino em Garanhuns, existia numa casa vizinha à nossa, na Rua do Recife, uma família que tinha um Gramofone. Era de uns ricaços do Recife, que para Garanhuns demandavam em época de férias. Os ocupantes eram proprietários da Casa Batista, uma funerária famosa. Na casa havia uma garotinha de cujo nome me lembro: Inalda Maria Batista Dubeux. Pois bem, a menina era pequena, mas a empregada colocava discos na vitrola e da calçada eu ouvia o gramofone transmitindo as músicas.

Gramofone também se chamava um instrumento de zinco, afunilado, com um bocal numa extremidade (a mais estreita) e um suporte para se pegar. Com ele os palhaços dos circos transmitiam seus anúncios, para a plateia, girando lentamente a cabeça ao falar. O gramofone ampliava e muito a voz do anunciante. Lembro-me do vozerio do palhaço, ao dizer no gramofone: "Respeitável Público" e prosseguia com as informações, mensagens e convites aos expectadores. "E agora, senhoras e senhores, o Mágico George", gritava o palhaço do Circo Star Light, um dos muitos que visitaram Garanhuns. Neste circo havia uma elefanta de nome Lika, que um bêbado mecânico de uma oficina de carro, sobre o animal jogou solução de bateria. Outros circos que visitaram Garanhuns na minha época de menino, traziam também em seus apetrechos o gramofone. Foram o Circo Fequéte e o Circo Nerino. Os gramofones também eram usados pelos palhaços, montados em suas pernas-de-pau, percorrendo as ruas de Garanhuns, anunciando os espetáculos e convidando a todos para irem ao circo. No gramofone gritavam: "Hoje tem espetáculo?" E a tu respondia: "Tem sim sinhô!" "As oito horas da noite?" "Tem sim sinhô", respondiam os meninos. Acompanhar o palhaço perna-de-pau, gritando a tarde toda, valia um ingresso na matinê do domingo. A presença do palhaço com a meninada pelas ruas, já era para todos nós espetáculo empolgante. Menino de família não podia acompanhar o palhaço. "Só moleque de rua é que vai...", diziam as mães.

Outra lembrança do gramofone em Garanhuns, nos deixa também profundas saudades. Era aos sábados, com o comércio regorgitando, por conta da feira na avenida Santo Antônio. Havia na Loja Atrativa, em ponto muito movimentado um homem vestido de chita bem estampada e de cores vivas, rosto pintado, chapéu de palha e gramofone na mão. Gritava o dia inteiro: "Minha gente, venha ver a barateza!" Aqui na Loja Atrativa, chita, algodão, madapulão, morim, linho e seda! Venham ver para crer! A Loja Atrativa, a melhor de Garanhuns.

E o gramofone no mundo troando as mensagens do anunciante. Os passantes passavam devagar para ouvirem as ofertas. A matutada, chegando nos carros-de-boi, ia se encostando para ouvir as novidades. Era  uma festa. Uma festa que se repetia a toda semana, cada sábado. E o gramofone ali, presente a tudo e contribuindo para noticiar o progresso e as novidades da tradicional casa de tecidos. Mas o do circo era mais empolgante: "Respeitável Público"!

*Historiador, pintor, escritor, jornalista e professor.

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