domingo, 9 de janeiro de 2022

O pavão misterioso


Volto o pensamento para meus dias de menino e vejo-me na feira de Garanhuns, em frente a um cantador de Literatura de Cordel. O homem em seu cantarolar desengonçado, discorre as maravilhosas aventuras dos grandes heróis dos Sertões e dos Agrestes e de vários mundos de personagens irreais. Tudo aflorando da incomensurável criatividade de um punhado inteligente de pessoas simples. São aqueles autores que por essa literatura, dita popular, impressionante e bela, enquanto rica em autenticidade e ingenuidade, nos brindam com histórias inverossímeis. Com fértil imaginação, eles descrevem figuras de animais alados, dragões, "besta-fera" e ou pessoas comuns, ou príncipes de "Terras Encantadas", princesas, mulheres, coisas banais, o pitoresco, e o picaresco, ou fatos execráveis em contraste com a beleza da narrativa. São sempre episódios fantásticos, enredados e mentirosos, levando todos a mundos irreais, resultado de fertilíssima imaginação. Ouço ainda o cantarolar de poemas como aquele: "A Peleja do  Cego Aderaldo e Zé Pretinho", ou "As Lambanças de Lampião", ou lembrando o que mais gostava: "Juvenal e o Dragão".

Mas dentre tantos, nenhum folheto de cordel pode ser mais lembrado, do que "O Pavão Misterioso", seja pela beleza da composição poética, pela invencionice excepcional do seu autor, ou seja, pela universalidade de tema e da trama da história narrada. Das linhas do cordel, o pavão ganhou os espaços, ou melhor: literalmente ganhou as alturas da Literatura Popular, desde quando em 1985 o cantor Ednardo gravava o disco com a música do mesmo nome. Tão famosa ficou a música com oputra  letra inventada, que foi usada como trilha sonora da novela global "Saramandaia", que tinha um personagem que expelia formiga pelo nariz. A letra é bonita: "O pavão misterioso / Pássaro formoso / Tudo é mistério / Nesse seu voar / Ah! se eu fosse assim / Tanta coisa teria pra constar." Posteriormente Antonio Madureira, Antonio Nóbrega e Erickson Luna fizeram um CD com 12 músicas, sendo "O Pavão", a principal. E mais "O Pavão", nos seus voos, chegou ao teatro e com mais força do que palavras, com gestos levam a tanto para um "mundo mágico". Foi o teatrólogo José Mario Austregésilo, e seus  colaboradores: Alberto Vinicius e Paulo Góes, que encenaram "O Pavão Misterioso". No cordel, o Nordeste e o Oriente se confundem; a Grécia e a Turquia, parecem ser as "Terras de Simôa Gomes" e Canhotinho. Assim o pavão rasga os céus com João Evangelista - o grande herói - em busca de Creusa a sua amada aprisionada numa torre.

Os autores do folheto: José Campelo de Melo e João Melquíades Ferreira da Silva (se vivos fossem) ficariam maravilhados vendo o que foi possível fazer com a ideia original, cujo enredo é o amor arrebatado de João Evangelista, que abandona a casa, a terra e o irmão, e vai numa grande viagem levado pelo pavão misterioso, em busca da amada: uma princesa do oriente chamada Creusa.

Não se sabe ao certo onde nasceram os autores, quando a história foi escrita, quantas edições já foram feitas desse texto. Mas é provável que centenas e que milhares e milhares de livrinhos, tenham passado pelos olhos de muitos milhares de leitores que se deliciaram com a narrativa. Uma quase epopeia direcionada para um forte conteúdo social da luta do capitalismo, representado pelo personagem Evangelista (um turco abastado dono de uma fábrica) e o Feudalismo, representado pelo Conde, o Grego, pai de Creusa, a amada de João. Por fim, vê-se que a "luta" da filha contra o pai possessivo, dita princesa, aprisionada em uma torre, à espera da libertação, representa de certa forma a vida real, especialmente de algumas mulheres à espera de "príncipes encantados."

Eu gosto muito de pavões. tenho vários, que são criados no meu quintal. Talvez assim se explique a minha paixão pelo "Pavão Misterioso". O do cordel.

*Marcílio Reinaux / Escritor, poeta, pintor e desenhista /Recife, 15 de maio de 2010. 

Foto: Garanhuns, PE - Feira livre na Avenida Santo Antônio, década de 1950. Créditos da Foto: Massillon Falcão.

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