domingo, 9 de janeiro de 2022

O redemoinho (conto)


Clovis de Barros Filho*

São Paulo (SP) - Costumava quase todas as manhãs quando estava no sítio do meu avô lá por volta das 10 horas ir ao sítio de minha tia que ficava cerca de 2 km do dele. Isso era muito frequente principalmente no verão na estação das frutas. No sítio do meu avô havia muitas árvores frutíferas. Porém, o sítio da minha tia era um paraíso de cajueiros, mangueiras, goiabeiras e jaqueiras tudo em grande quantidade. Quem disse que ia na casa delas? Ficava o tempo todo no meio das fruteiras colhendo e me deliciando com as frutas mais bonitas e frescas. Costumava ir por um estreito caminho de terra batida onde era mais fácil encontrar uma raposa do que uma pessoa transitando por aquelas bandas. Naquela dia me atrasei um pouco. Quando percebi já era meio dia e com certeza minha avó já deveria estar colocado o almoço à mesa para ser mais claro uma deliciosa galinha caipira. Tomei o estreito caminho de volta nem sequer passara na casa de minha tia para dar um alô. Àquela altura o calor era insuportável e tinha que andar quase 2 km sob  sol forte. Toquei em frente. Faltando uns 500 metros para chegar em casa do meu avô parei um pouco para descansar sob a  sombra convidativa de um pequeno cajueiro à margem da estradinha. 

Sentei-me no chão e me encostei no tronco. O mormaço era tão intenso que comecei a cochilar. Nem cheguei a cerrar os olhos quando ouvi um silvo e uma forte ventania que se aproximava. Era um pequeno redemoinho normal naquela região, o qual levantava muita poeira e levava no seu vórtex muitas folhas secas e alguns pequenos galhos. Como apareceu, foi embora sem deixar rastro. Levantei-me então para ir embora. Estava faminto e certamente o pessoal me esperava para o almoço. Ao levantar-me ouvi um forte uivo e uma ventania muito mais forte ainda da que acabara de presenciar. Um grande redemoinho se aproximava arrastando consigo galhos grandes, retorcendo e derrubando pequenas árvores que encontrava à sua frente. A invés de me proteger no cajueiro, cometi o erro de correr estrada afora. Não demorou muito para ser alcançado pela força do vento. Primeiro senti o impacto dos galhos nas costas, depois um turbilhão de areia me castigou as pernas e a minha cabeça. Comecei a ficar tonto, e antes de perder os sentidos percebi que meus pés não tocavam mais o chão firme. Fui literalmente engolido pelo redemoinho. 

Quando acordei daquele pesadelo, estava estatelado no chão bem em frente a casa de vovô. Tentei me levantar. Meu corpo doía muito. Com muito esforço consegui me erguer. O estranho era que meus pés pareciam não tocar o chão firme. Parecia que ainda estava flutuando no ar. Com aquela estranha sensação me dirigi à casa que fica apenas uns 10 metros de onde tinha caído. Meu avô dormia no chão da varanda. Aquilo ele só fazia após a refeição. Conclui então que chegara atrasado para o almoço. Forçado, mais atrasado, passei próximo dele que dormia profundamente. Entrei em casa fui à sala e tomei um copo d'água. O gato da minha tia que sempre levantava a cabeça a qualquer movimento estranhamente não notou a minha presença e continuou cochilando no batente da janela. Continuava com a sensação de que flutuava no ar pois não sentia nada abaixo do solado dos pés. Me dirigi à cozinha. Minha vó e minha tia já retiravam os pratos da mesa pois pelo jeito já deveriam ter almoçado. Nem olharam para me cumprimentar. Tentei falar com elas, porém, em vão, era como se não existisse. Pela primeira vez comecei a ficar realmente assustado. Algo muito estranho tinha acontecido comigo ao ser engolfado pelo redemoinho. Tentei tocá-las mais nada, não esboçaram nenhuma reação. Sentei-me num banco de madeira que havia próximo e assustado comecei a chorar. Passaram-se alguns minutos sem que ninguém notasse a minha presença na casa, era como se estivesse invisível. Acho que decorridos mais de uma hora que adentrara à casa voltei à sala para tomar água. Dessa vez notei que  gato parece ter sentido a minha presença e ficou olhando na minha direção. Aquilo me deixou animado cheguei mais perto, porém ele continuou no seu canto quieto. 

Minha tia passou perto e continuou ignorando minha presença. Repentinamente senti uma forte sensação que estava caindo. E caí mesmo. O barulho espantou o gato. Minha tia entrou na sala correndo. Eu fazia um esforço danado para me levantar minha tia espantada perguntou o que estava sentindo e o que tinha acontecido pois meu corpo estava todo cheio de arranhões, falei para ela e disse que tinha caído de um cajueiro mais tava tudo bem. Minha avó também ficou muito assustada. Bem filho, você chegou na hora do almoço é só seu avô chegar da roça e vamos servir a galinha que lhe prometi. Meu avô não tardou a chegar. Sentamos à mesa e tive que inventar a história da queda para justificar aquele fato estranhíssimo. Se conto a verdade talvez eles nunca entenderiam e quem sabe nunca acreditariam. Estava faminto. A galinha maravilhosa. Terminado o almoço começaram a recolher os pratos enquanto meu avô foi tirar o seu cochilo costumeiro deitado sob sombra da varanda. Eu fiquei ali, calado pensativo, sem respostas para o ocorrido e assim se passaram muitos anos e até hoje não encontrei uma explicação lógica para o fato. Será que fiz uma viagem no tempo?

*Clovis de Barros filho,  nasceu na Serra da Prata (Iatecá). Estudou no Colégio Diocesano de Garanhuns do Admissão ao Científico onde concluiu em 1968. Reside em São Paulo desde 1970. É Licenciado e Bacharel em Química Industrial pela Universidade de Guarulhos e Químico Industrial Superior pelas faculdades Osvaldo Cruz - SP.

Créditos da foto: https://natureza.colorir.com/meteorologia/furacao.html

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