sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

O ressurgente


Encontramo-nos com Waldimir Maia Leite, o conterrâneo e confrade, amigo de longa data. Fala-nos a propósito do poema de sua autoria, intitulado "O RESSURGENTE". E na conversa, muito boa e agradável - porque juntos desfrutamos de lauto banquete oferecido pela Rádio Clube de Pernambuco, no Centro de Convenções - ficamos a saber do porquê do poema  com esse título.

Garanhuense como nós, Maia Leite tem profundas raízes na "Terra das Sete Colinas", onde passamos os primeiros anos da nossa infância. Ele morando na Praça João Pessoa e nós, no prolongamento desta, na então chamada Rua do recife. Ele de família numerosa, filho do Português José da Costa Leite, "pras" bandas da Terra do Poeta Fernando Pessoa que o próprio Waldimir tanto admira e cultua. Nasceu numa Vilazinha, em Trás os Montes. De lá saiu ainda menino aos 14 anos, em demanda do Brasil, aportando no Recife e se deslocando para Garanhuns. Na Terra de Simoa Gomes firmou as suas estacas, armou a sua tenda e esticou as amarras da sua vida. Como forasteiro foi audacioso e intrépido pois casou com uma das moças mais importantes da sociedade local. Lalu, ou Eulália, era nada menos do que uma das filhas do então Prefeito Thomas Maia, uma das mais destacadas figuras, de Garanhuns que desenvolveu uma administração que ficou na história.

Em viagem feita a Portugal, procurou fazer as vezes do velho "Seu Leite", como todos nós conhecíamos, VADÔ (assim Waldimir era e foi conhecido por todos os conterrâneos de Garanhuns), dentre outras coisas, gravou o marulhar da água caindo em cascata no pequeno Riacho de Trás os Montes, onde o "Seu Leite", nasceu. De regresso à Garanhuns, o velho ouvindo aquele som, tão familiar da sua infância, deixou cair sem querer, uma lágrima perdida no canto do olho, expressão maior da sua imorredoura saudade de sua terra d'além mar.

No meio da Praça João Pessoa sempre existiu um pequeno tanque que tinha no centro um pedestal sobre o qual sempre trouxe a figura de uma menininha esculpida em pedra.

A figura, cujo autor é desconhecido, (sem que isso lhe tome o mérito de exímio escultor), tornou-se uma espécie de mascote de Garanhuns, fixa naquele canto da paisagem citadina. Ali, possivelmente por mais de setenta anos (ninguém sabe a data exata da construção da praça e da colocação da escultura), a figura continua intrépida, vencendo o frio ano a ano; vencendo até a eventual depredação de parcos vândalos noturnos. Quem perambula pelas noites frias de Garanhuns pode até cometer outros desatinos, mas na menininha da Praça ninguém toca. Tem sido posta a salvo por ela mesmo em função do seu olhar cândido e terno que contagia todas as pessoas. Adultos de várias gerações contemplam  hoje a figurinha dos saudosos da infância em Garanhuns. Ela tem feito, não apenas parte de paisagem, mas é parte integrante e incorporada à vida das pessoas. Junto dela fomos fotografados através da câmera da nossa irmã Bety, a qual solicitou de um musculoso carregador que nos levasse atravessando o tanque, para junto da singela menininha. Lá nos postamos numa pose. Hoje ao olhar o retrato a cena nos traz uma profunda saudade dos nosso dias de menino em Garanhuns, marcando o episódio, momento inusitado telúrico da nossa vida.

Em recente visita à Garanhuns, o ilustre confrade Waldimir conseguiu persuadir o atual Prefeito a refazer e restaurar aquele logradouro em especial o monumento. Este terá um pedestal de dois metros de altura, com cerâmicas do artista plástico Francisco Brennand doado ao Município. Sobre a cerâmica será gravado "O RESSURGENTE" de Waldimir Leite significando a volta do menino para a sua companheirinha de infância. A pequena escultura está sendo restaurada por essa figura humana sensacional que é Maurilo Matos, um misto de excelente profissional (dentista) e artista de grande sensibilidade estética (escultor). Tudo ficará pronto para que o monumento seja inaugurado no dia 12 de outubro próximo. Dia da Criança e dia do aniversário do Ginásio Diocesano. Estaremos na festa para desfrutar, como muitos conterrâneos, a beleza da menininha do monumento da Praça João Pessoa e sobretudo ter a emoção de ler e sentir a alma pulsando de Garanhuns no poema "O RESSURGENTE", enebriado pelas flores da  "Terra das Colinas Verdejantes".

O RESSURGENTE

Waldimir Maia Leite

Ressurgente homem,

Para protegê-la.

Os cabelos brancos

Interpretam nela

Os ego dele,

Vagos e acrescidos

Com o tempo que

Os separa em vales.


Dois braços fugitivos

Envolvendo o (vago)

E úmido corpo

Da estatuazinha nua,

Mineiro alumbramento

Do menino que foi.

Os braços do homem

Feito e instantes (feito)

dos caminhos do mundo.


A praça a de nome

João Pessoa, cidade

De Garanhuns, 

Agreste Pernambucano,

Mil crianças outras, diferentes em imagens,

Famintas e carentes.


O banco ao fundo,

À espera de duas pessoas:

O menino e a menina,

(a estatuazinha nua)

Que vida separou.


A perna direita

Do agora homem,

Escondendo o sexo

Juvenil da

Estatuazinha,

Que o tempo

não desvirginou


A perna direita

do homem: a imagem

redescoberta agora,

da estatuazinha nua.

Ela, ainda menina,

Ele, entretanto, adulto.

*Marcílio Lins Reinaux / Escritor, poeta, historiador e jornalista / Garanhuns, 25 de Agosto de 1984.

Foto: Praça João Pessoa, Garanhuns.

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