quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O Vagão


Ailton Guerra*

Apenas os paralelos  trilhos que serviram de caminhos por essas terras de Deus, guardam meus segredos.

Belo e forte como um cavaleiro, caminhei sobre a milimetrada bitola, cortando o  vento de peito aberto, levando nas minhas entranhas, o progresso do meu tempo. Nos rumos de meu caminho muitas saudades deixei e aprendi ao longo dos anos a  ver, ouvir e calar, como uma testemunha muda, mera  observadora das transformações psicossociais dos meus contemporâneos passageiros.

O sino da estação, o apito, o estoicismo dos pioneiros, a liberdade dos campos, a lágrima da partida e o sorriso da chegada me ajudaram a entender os aspectos contraditórios na natureza humana, feita, segundo Pascal de grandezas e de miséria.

Na rota Agreste-Mata e Mata-Agreste, muitos eventos justificaram minha existência. tempos  heroicos. Reminiscências.

Hoje, em retalhos, habito sobre o Centro de Cultura da Cidade das Flores. Sou chamado de "O Vagão - Restaurante". A sorte não foi  tão ingrata, muitos de meus irmãos já se transformaram em pó.

A mudança de trilhos paralelos para um Centro de  Cultura, mesmo sendo em retalhos, deve ter sido um sonho acalentado por muitos "Vagões" de minha época.

Mesmo que quisesse e que  pudesse não teria escolhido outro fim, senão este, para testemunhar os tempos modernos. Recebendo o oxigênio das minhas frondosas árvores vizinhas, posso hoje, passado tantos anos, afirmar que um velho Vagão não poderia ter tido de Deus melhor esmola ecológica.

Aqui, costumo receber passageiros como antes. Tornei-me, não resta dúvida, um confidente mais eclético. As "falas" de agora giram em  torno de petróleo, política, teatro do absurdo, música universal, guerras frias e quentes, hodiernas preocupações que afligem meus passageiros presentes.

No aspecto físico, modernas caixas acústicas vieram contrastar com os meus velhos bancos de saudosas recordações. Às vezes a saudade me pega de surpresa e no espelho posto à minha disposição, vejo meu passado brilhante através das  ilusórias imagens.

A culpa é daquele casal que sob a luz do velho lampião pendurando saudades, fala coisas de amor ou daquele seresteiro boêmio que desligando o "estéreo" toma de seu pinho e espalha pelo as canções de outrora.

Momentos que me são caros e plagiando o poeta Ascenço Ferreira relembro baixinho o poema de todos os trens:

Vou danado pra Catende

Vou danado pra Garanhuns

Vou danado pra Catende

Vou danado pra Garanhuns

com vontade de chegar.

Enquanto minhas lágrimas se misturam com os reprimidos desejos e a trepidante alegria dos meus contraditórios passageiros.

*Jornalista e historiador / Garanhuns, 23 de Abril de 1977.

Foto: Década de 1980 - Garanhuns - Bar "O Vagão", 1º andar do Centro Cultural Alfredo Leite Cavalcanti. 

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