sábado, 13 de agosto de 2022

O Vidro de Phimatosan

Marcílio Reinaux*

Por causa de um vidro do remédio Phimatosan, deixei de ser rico. Talvez milionário. Conto a história para os meus queridos leitores destas minhas crônicas: Faz tempo. Imagine: no final da década de 1940, precisamente no ano de  1942, quando eu tinha  oito anos de idade. A minha, Naninha, irmã de  meu pai, presenteou-me com uma bezerra mestiça-holandesa,  animal de boa procedência, diziam. A  tia era solteirona, filha do  meu avô o Coronel João Reinaux, que foi fazendeiro e político (Prefeito de  Palmeirina, 1876 -?). Por  questões políticas João Reinaux foi assassinado, deixando uma considerável herança para os filhos, incluindo vastas terras dos Engenhos Crautá, Santo Inácio e Montes Claros no Município de  Canhotinho. Muito gado junto. 

Ao longo dos anos tudo foi se dissipando. Os herdeiros ficaram pobres. À época a tia ainda possuía dois sítios: o Crautá e o "Sítio das  Cabeludas". Indo para o Recife deixou a  propriedade e o gado aos  cuidados de um casal: Seu Venâncio e Dona Palmira. A cada tempo a Tia dava uma garrota, novilha a um dos sobrinhos. Meus primos Emanuel, Cephas, David ganharam. No meu aniversário daquele ano 1942, ganhei a minha primeira vaquinha, a qual dei o nome de: "Estrelinha". De vez em quando dela tinha noticias trazidas pelo Seu Venâncio, quando vinha à Garanhuns e pousava na nossa casa. Ele a esposa Palmira, os filhos: Plácido, Jasón, José, Abidoral e única filha: Elfrida. A todos eu  perguntava: "Como vai minha vaquinha?". Respondiam que tudo ia bem. Um dia disseram que ela tinha "cruzado", assunto que não sabia do que se tratava, mas logo depois me informaram que era "casamento" e  que ela certamente iria dar uma cria. 

E de fato, passado uns tempo, tive a notícia de que Estrelinha havia sido mãe. Nascera uma bezerra. Agora eu era proprietário de duas cabeças de gado. Fiquei pensando: "eita vou ficar rico". Fazia planos, traçava projetos, perguntava o preço de  uma vaca. Sempre que via  alguém do Sítio das  Cabeludas perguntava pelas minhas vacas. Afinal eu já possuía duas cabeças de gado. Já me imaginava fazendeiro. Em férias indo à Canhotinho e ao sítio, via  as duas: mãe e filha. A filha crescendo. Logo seria vaca também. Um  golpe desolador se abateu sobre mim. Um dia de sábado indo à loja de meu pai ("Agência Reinaux"),  ele mesmo me dera a noticia triste, dizendo: "O Venâncio esteve aqui. Disse que uma cobra mordeu sua vaca". A Estrelinha? Perguntei arrasado. Inocentemente perguntei se ela havia morrido. A mão do meu pai no meu ombro confirmara. Pensei que   nem tudo estaria perdido porque restara a filha, já uma garrota. 

Mas ledo engano. O pior estaria por vir. Meses depois um dia Bety a minha irmã mais  velha informava que o  Venâncio trouxe a noticia de que o gado estava morrendo e antes de findar tudo, ele vendeu os bichos e entre eles a  minha bezerra foi no lote. Outra vez imaginei que  nem tudo estava perdido:  eu teria um dinheiro a  receber, da venda da  bezerra. Foi o que eu pensei. Uma tosse estrudilosa tomou conta de mim, bronquite, coqueluche. Fui para a  cama. Alguns dias doente, vez por outra pensava na morte da vaquinha, no dinheiro da  venda da cria... Um dia a  irmã Bety adentrou no  quarto e disse:

- "Você vai ficar bom! Fui na Farmácia do Dr. Godofredo e ele receitou um vidro de Phimatosan para você". Acrescentando: - "Do troco comprei um presentinho para você". Sentei na cama, abri o pacotinho e nele havia um  carrinho com um Mickey.

- "Mas que troco" perguntei à Bety. "Ora, respondeu ela: "do dinheiro da venda da sua  bezerra, que seu Venâncio me deu... Como você está com essa tosse eu comprei um vidro de  Phimatosan, receitado pelo médico e do troco comprei este brinquedo para você..."

Nem esperei que ela terminasse de explicar. Desabei em um choro triste, vendo e sentindo que a minha "fortuna" minha herança, todos os  meus "bens" e sonhos e  perspectivas de ser um rico fazendeiro,  terminavam mesmo ali: naquele vidro de  Phimatosan. Claro que  fiquei bom da tosse. Mas com certeza, a cada gole do remédio, a minha "herança" se foi...

*Marcílio Reinaux (foto) / Escritor, pintor, jornalista e membro da Academia de Letras de Garanhuns.

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