quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Os Combatentes da Liberdade


Discurso de Luiz Souto Dourado no lançamento do Livro 'Os Combatentes da Liberdade'.

Minhas Senhoras

Meus Senhores

Já foi dito e repetido que ninguém se perde no caminho da volta. Mas confesso que me teria perdido se não tivesse ouvido a voz de Ivonita Guerra - clara, inteligente e generosa - tão minha conhecida de outros eventos e sempre em defesa desta cidade.

Teria me perdido porque a Associação Comercial do meu tempo e que ficou na minha memória foi aquela que vi menino ainda, meu Pai construir na Avenida  Santo Antônio, quando ocupou a  presidência da entidade. Foi ali - também sede da Justiça - que juntamente com o deputado Sérgio Murilo fomos recebidos pelas emendas que apresentamos visando à elevação da nossa Comarca, foi ali que recebi das mãos do Juiz Nildo Nery o diploma de Prefeito de Garanhuns; foi ali que por várias vezes compareci às sessões do "Grêmio Literário Ruber van der Linden".

Que homem admirável foi esse  Ruber van der Linden! Homem singular e múltiplo ao mesmo tempo. Homem que  sabia das coisas e sabia fazer coisas; tanto fazia um motor como construía um  jardim. Engenheiro e professor de muitas matérias, deixou a marca do seu talento em tudo. Na História de Garanhuns, de Alfredo Leite Cavalcanti, de João de Deus Oliveira Dias  e de Alfredo Vieira, nota-se a grande influência que exerceu nos problemas da sua época. Com a colaboração do livreiro Félix Rui Pereira, publicou Ruber, em 1936 e 1937, o Almanaque de Garanhuns. Quando ainda não  se falava em Marketing, já ele pensava em promover a cidade, vendendo a sua hospitalidade. Foi, sem dúvida, um homem antes do seu tempo, o patrono desse Grêmio, onde sou recebido com tanto apreço e fidalguia.

Mas se a sede da Associação Comercial já não é a mesma, na mesma rua, como ficou na minha lembrança, não importa. Ela mudou para melhor, como devem mudar tanto as instituições como as pessoas. Temos de conviver com  as mudanças. Desprezá-las seria uma incoerência ou um despropósito, muito embora sejamos fiéis ao nosso tempo, sem deixar de reconhecer a existência de um novo tempo.

Confesso, por exemplo, que fiquei comovido quando alguns dos meus amigos escolheram entre os melhores artigos desse novo livro, justamente aquele denominado "O tempo e o padre", no  qual escrevemos:

"Era outubro e éramos moços. A viagem, por isso mesmo, estava decidida. No dia 12 de outubro os alunos do curso pré-jurídico do Colégio Oswaldo Cruz iriam  visitar o Ginásio de Garanhuns, hoje Colégio Diocesano, que comemorava o seu  jubileu. Viajamos de trem".

"Quase quarenta anos, volto mais uma vez ao Ginásio. Ao subir as suas escadas, imagino ver Horácio Siqueira retocando a imagem de São José. Encontro Padre Adelmar, de cabelos quase brancos, trabalhando, como a posar, sem sentir, para uma nova imagem. Tem razão o poeta maior: "Tudo é produto do tempo e no tempo se converte".

"Na saída, passamos pelo corredor tão nosso conhecido, ouvindo vozes. Não olho para nenhuma sala. Tenho medo de me encontrar".

"Há quarenta anos, o padre nos levou à porta do Ginásio e voltou para o seu gabinete. Deixamos o Colégio, eu e  os meus colegas de turma e seguimos os nossos caminhos. Só o padre ficou, fazendo diariamente o mesmo caminho".

Agora, depois de quarenta e quatro anos, volto e, não fora a voz de Ivonita Guerra, quase me perdia no caminho da volta, procurando sem encontrar a nova Associação Comercial, tão diferente daquela que ficou na minha imaginação. Se não trago tantos troféus da luta que empreendi, trago para lançar na minha cidade mais um livro, que talvez tenha começado a escrever no jornalzinho "O Ginásio", no Paládio, continuando no O Monitor e no Diário de Garanhuns e, por fim concluído no Diário de Pernambuco, com o honroso prefácio de Barbosa Lima Sobrinho.

Esse prefácio veio revelar um fato talvez inédito da história política de Pernambuco. Como era notório, não eram boas as relações entre o Governador Barbosa Lima Sobrinho e o jornalista Aníbal Fernandes. Respeitavam-se pelo talento e temiam-se pela inteligência. Quase todos os dias lá estavam Aníbal no DIÁRIO, com aquela ironia aperfeiçoada leitura dos clássicos franceses, a comentar fatos do Governo, taxando sempre o governador como um homem frio, cético e distante. Mas para surpresa de todos os seus leitores, no último dia daquele governo, aparece Aníbal o memorável artigo "Dr. Barbosa, aqui está o seu chapéu", no qual diz que "na história de Pernambuco é sempre honroso sair assim de fronte erguida, de chapéu na cabeça, sem ter quem lhe diga entre os dentes: os diabos te levem".

Desde então, entre os dois se fez um profundo silêncio. Dr. Barbosa voltou a ser jornalista no Jornal do Brasil; Aníbal continuou a ser jornalista no Diário de Pernambuco, fazendo ambos um jornalismo da maior categoria neste País.

No prefácio, que engrandeceu o meu  livro, revela Dr. Barbosa que se dando uma vaga na Escola de Filosofia que criara no seu governo, pedira ao Secretário da Educação, Sílvio Rabelo, para  convidar o professor Aníbal Fernandes, pois o julgava o mais capacitado no Estado de ocupar aquela cadeira. Demonstra esse gesto que ambos eram dignos um do outro, possuindo a mesma linhagem de cultura e inteligência que só faz honrar a nossa gente. Dei-me por  satisfeito, por haver centralizado em Aníbal Fernandes o meu livro, e haver convidado Barbosa Lima Sobrinho para prefaciá-lo.

Além de Aníbal Fernandes e Barbosa Lima Sobrinho, inclui o livro textos sobre o Presidente Juscelino Kubitschek, Sobral Pinto, Alceu do Amoroso Lima, João Paulo II, Dom Helder, Teotônio Vilela, que se consagraram como os Combatentes da Liberdade - que é o anseio maior do povo brasileiro.

Mas voltando à minha cidade, ao meu mundo, ao universo dos valores humanos de Garanhuns, além do Padre Adelmar Valença, duas outras figuras de  ex-alunos do Ginásio aparecem também meu livro: Alfredo Vieira e Waldimir Maia Leite. O primeiro pela publicação do seu livro "Garanhuns do meu tempo", a cujo lançamento no Centro Cultural Alfredo Leite, tive a honra de comparecer: o outro, pelo seu ingresso na Academia Pernambucana de Letras.

Alfredo, com o seu livro, marcou o reencontro da cidade com ele mesmo, porque a Garanhuns do seu tempo já não existe mais, como não existe a Itabira de Carlos Drummond de Andrade. É inútil procurá-la. Sem sentir e aos poucos a gente vai se transformando no "avô de nós mesmos" e passamos a contar histórias do nosso tempo. Vale a pena quando a história pode ser contada com a correção, a honestidade e uma certa poesia, como a que contou Alfredo Vieira para o seu público ou talvez um pouco para ele próprio, para o menino silencioso do gabinete de seu pai...

Com a posse de Waldimir na Academia, um mundo de lembranças me ocorreu. É que somos desta mesma cidade, onde nossos avôs foram Prefeitos, os nossos pais foram compadres, estudamos no mesmo Colégio e começamos a escrever no mesmo jornalzinho.

Tivemos a mesma paisagem e talvez a mesma vocação para as letras, nele mais continuada e com maior brilho. Ele nasceu poeta ou, quem sabe, talvez tenha herdado - se é que se herda esse talento, esse dom, essa graça ou  esse destino de ser poeta - do seu tio Artur Maia, que não conheci mas cuja poesia me ensinaram a admirar desde os bancos escolares.

Ente tantos amigos que foram abraçar o poeta na Academia, naquela noite memorável, imagino ver o seu avô, o velho Tomás da Silva maia, alto e magro, calado mas no fundo comovido e orgulhoso, fazendo da vitória do seu neto - agora acadêmico, com a sua poesia traduzida em alemão e gravada em disco - uma vitória da terra que governou o soube amar.

Pretendi demonstrar tanto no livro anterior - a que dei o nome de "Garanhuns - Ano 100" - como neste agora - "Os Combatentes da Liberdade " - que em mim permanece viva essa força telúrica, que atrai, entusiasma e remoça, não permitindo nunca que a gente mude de amizade e troque de cidade, ou melhor, que venha a se perder no caminho da volta.

Estou muito grato a todos que aqui compareceram.

*Luiz Souto Dourado / Jornalista, escritor, ex-prefeito de Garanhuns e deputado estadual / Garanhuns, 2 de Junho de 1984.

Foto: Da esquerda para a direita: Professor Erasmo Bernardino Vilela, Luiz Souto Dourado e Ivo Tinô do Amaral.

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