quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Othoniel Gueiros - Meu Tipo Inesquecível


Conheci o Dr. Othoniel Gueiros desde os meus tempos de solteiro, quando para Garanhuns vinha passar as férias. Não rara vezes frequentava a sua casa e conversávamos longamente. Ficávamos encolhidos cada um numa cadeira, sendo que ele - colocava cobertas sobre as pernas, as vezes, para abrandar um pouco o gostoso frio da terra. Não havia televisão. Por isso tínhamos tempo para longas conversas, interrompidas apenas pelo cafezinho, ou chavena servidos por Dona Francisquinha. Da conversa participava - entre um cochilo e outro - Dona Juvita, sogra de Dr. Othoniel.

As conversas com ele, invariavelmente giravam em torno de Garanhuns e de pessoas mais antigas, como meu pai, meus avós, os quais ele havia conhecido em Canhotinho. Também falávamos dos seus pais, em particular, da veneranda Dona Maroca, sua mãe, que era sobrinha da minha avó Felícia Reinaux, mãe de  meu pai. Na barrafunda de parentescos, via-se claramente que as famílias vinham da mesma árvores genealógica e que a geração dele estava no mesmo nível da minha, embora fosse eu mais novo que ele. Dr. Othoniel nasceu em 11 de junho de 1906 e eu em abril dos idos de 1934.

Um destaque especial das conversas nos levava para a figura, ao mesmo tempo humilde e marcante, do Reverendo Antônio Gueiros, pai do Dr. Othoniel, a quem gerações inteiras de Garanhuns, cidades e sítios dos arredores muito devem pela evangelização e pregação do Reverendo Antônio Gueiros.

É fácil agora o leitor entender porque o Dr. Othoniel foi para mim uma pessoa muito querida e muito achegada. Além de com ele eu conversar, dele tinha um apoio tácito para o meu namoro com a sua sobrinha, hoje minha esposa Gláucia Maria Gueiros Reinaux. Ele insistentemente convidava-a para férias em Garanhuns e aqui namorávamos um pouco. Este procedimento continuou quando do  noivado e até depois de casado, também frequentava a casa do Dr. Othoniel, a esse  tempo - por vezes - levando os filhos. Éramos useiros e vezeiros da sua hospitalidade.

Médico atencioso, fazendo da profissão mais que um sacerdócio, Dr. Othoniel jamais mediu sacrifícios, nem antepôs dificuldades para atender pessoas em qualquer circunstância. Mesmo aqueles que batiam à sua porta nas frias madrugadas de Garanhuns. Faça-se o registro de que ele como clínico geral e especialmente como ginecologista, tinha uma sobrecarga de trabalho. Vale lembrar que as mulheres - em sua maioria - dão à luz pela madrugada. E lá seguia o  Dr. Othoniel de carro, de Jeep, caminhonete, a pé, ou a cavalo pelos sítios e fazendas das cercanias e até fazendas distantes para fazer um parto. Com a medicina atendia políticos antagônicos ao seu pensamento e às suas posições. O exercício da profissão de médico, estava sempre acima de questões partidárias de qualquer natureza.

Lembro-me de uma ocasião, (ele contou-me) que certa vez pela madrugada, cidadão com cara de pistoleiro bateu à sua porta e solicitou seus serviços médicos: fazer um parto em um sítio afastado da cidade. De cada lado do carro, com Dr. Othoniel no meio do banco, sentaram-se pistoleiros portando cada um carabina sobre os joelhos. Na fazenda o arsenal e "o exército" era impressionante: gente armada pra todo lado. O Dr. Othoniel atendeu a esposa do fazendeiro e segurou o rebento: um varão que botou a boca no mundo, após a palmada do médico acordando-o para a realidade da vida. Depois lavando as mãos numa gamela, recebeu do dono da casa um tapinha nas costas, acompanhada de um presente. Ganhara uma novilha, além é claro de receber posteriormente o pagamento. A novilha era o "agrado" do fazendeiro.

Envolvido um pouco na política, logo a abandonaria, eis que sempre entendeu que a medicina era a sua grande vocação. Com ela não ficou rico, mas também não mendigou. Sustentou e criou honradamente a família. Apegado às coisas simples da vida interiorana tinha sempre um sítio, uma "semente" de gado, plantações, roçado...

Amava Garanhuns com todas as forças do seu sentimento. Apegado e integrado na luta pelo desenvolvimento da  sua cidade, como um bom filho da terra, procurou sempre dar a sua parcela de colaboração e o melhor de si mesmo. Crente em Cristo, protestante fiel e voltado para a Causa Evangelística, exercitou a rica herança recebida do seu pai e pastor.

Acometido de problemas de saúde, Dr. Othoniel não quis continuar tratamento nos Estados Unidos, nem no Recife. Quando percebeu que seus dias se aproximavam do fim, desejou voltar à Terra de Simôa Gomes; a cidade das Sete Colinas que o viu nascer. Deixou um raro exemplo de dignidade e de  caráter, permeando os nossos corações de imorredoura saudade. Por tudo isso  tenho em Dr. Othoniel Gueiros o meu tipo inesquecível.

*Marcílio Reinaux / Jornalista, escritor e poeta / Recife, 16 de Junho de 1984.

Foto: Dr. Othoniel e Gueiros e D. Francisquinha.

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