sexta-feira, 17 de junho de 2022

Pedro Sapateiro


Tipo Popular de Garanhuns - Cada um desses tipos populares possuem um motivo específico que determina a sua conduta psicológica. Há uma variedade de elementos e circunstâncias que ensejam a sua passagem pela vida. Antes do impacto sofrido vivia no meio social. O seu comportamento era de um homem honrado e digno de respeito. A triagem que fizemos apontou o seu comportamento exemplar como cidadão afeito ao trabalho.

Era sapateiro e assim vivia com dignidade na terra que lhe servira de berço. A profissão ordenara-lhe o nome: Pedro Sapateiro. Como todo ser humano um dia resolveu completar a sua vida ímpar. E contraiu matrimônio com a mulher que lhe despertara o amor. Ela era bonita de olhos pretos e cheios de esperança. Como postulante do amor buscou a felicidade. O destino lhe fora cruel. Não encontrou a felicidade. Não encontrou o amor do brilho imortal do sol que a vista ofusca e faz o musgo nascer sobre a aridez da pedra... A mulher que escolheu para sua esposa traiu a fidelidade conjugal e manchou o seu coração pelo lodo do adultério. Foi o desabar tremendo de todas as suas esperanças. A vida para ele agora, era uma agonia dolorosa. Criatura simples, sem letras, sem ilustração. Buscou refúgio para sua alma ferida e não encontrou. Ficara enfermo das faculdades mentais e como louco fora interno num hospital.

De lá voltara, tempos depois muito pior. Enlouquecera de verdade e vagava pelas nossas ruas sem destino. E, tocando num pedaço de ferro velho, que o levantava acima de sua cabeça proclamava a sua angústia. A tragédia de seu mundo íntimo por todos os recantos da sua terra, da nossa ingrata Garanhuns.

Dizem que de louco e de poeta  todos nós temos um pouco. No caso em foco, esse conceito se consolidou em toda a sua plenitude. "Pedro Sapateiro", depois de louco desenvolveu a sua vocação poética. Aqui vão alguns  versos de sua autoria que bem revelam a espontaneidade das vibrações do seu "universo em desencanto".

"Judas quando nasceu / não parecia ser gente / no queixo trazia barba / na boca trazia dente / a sina que ele trouxe / foi de um desgraçado / Matou o pai, casou com a mãe / vendeu Deus e morreu enforcado".

Nestes versos há um pouco de complexo de Édipo, na transferência comparativa da traição de que fora vítima com àquela praticada pelo Iscariote contra Cristo. 

Pedro Sapateiro aqui nascera  e viveu em tempos que se perderam no tempo presente. A sua conduta como homem foi um exemplo. Era um profissional competente e considerava-se feliz. Mas, a infidelidade da mulher dos olhos pretos e cheios de esperanças, transformou a sua vida e os instrumentos de sapateiro: num pedaço de ferro velho com que Pedro Sapateiro proclamava pelas ruas da nossa cidade a sua desventura.

A história de Pedro Sapateiro é a mesma da humanidade. O homem nasce, vive um só instante. Enlouquece de amor aqui na terra sem nem alcançar a Canaã dos seus sonhos.

*José Francisco de Souza / Jornalista, advogado e historiador / Garanhuns, 20 de setembro de 1980.

Foto: Garanhuns na década de 1950.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Festa de São João antiga em Garanhuns

Ao anoitecer apareciam as fogueiras, fogos para as crianças, fogos-de-visita, girândolas em todas as praças e folguedos diversos. Acendiam-s...