domingo, 30 de janeiro de 2022

Prefácio do Livro "Garanhuns do Meu Tempo"

Waldimir Maia Leite

A oralidade - e o leitor terá a sensação, bem mais do que ler, mas a de ouvir - e a fidelidade telúrica. Eis dois pontos principais que informam o discurso destas evocações de Alfredo Vieira. Ele faz uma viagem, à maneira de Xavier de Maistre, em torno de suas memórias. E retorna do ponto de gravitações - Garanhuns - com as mãos cheias de lembranças que, sendo suas, são, entretanto, universais, na medida em que interessam ou sensibilizam aquela comunidade.

Falta ainda à cidade de Garanhuns precisamente isto: levitar sua história, através de depoimentos como os agora relatados, parcialmente embora, pelo autor deste livro. Ainda há muito a dizer, sobre história  garanhuense. Isto poderia ser feito, em relatos verbais, a um museu de som. O Museu de Garanhuns, com um setor, inclusivo, de Antropologia, ideia já endossada pelo Prefeito Ivo Tinô do Amaral e a ser instalado na mansão do Capitão Tomás Maia - a Vila Maria - o Museu de Garanhuns desempenharia esse papel, reunindo-se ali objetos que reconstituíssem, no tempo, o mesmo tempo que a nossa pobre memória não consegue reter ou catalogar.

A hecatombe de 1917, a perda lamentável do Município - perda política e econômica - com a até agora, não devidamente justificada campanha de erradicação dos cafezais, são estes, entre outros, capítulos que reclamam reconstituição histórica de maior verticalidade.

Estas memórias de Alfredo Vieira, aqui levitadas em estilo leve, ordem direta e até lúdica, na forma de exprimir, só na aparência são pessoais. A abrangência de suas lembranças é de tal magnitude, que engloba a memória da própria cidade, em certo momento de ser urb e ser humano. São instantes vividos não apenas por Alfredo Vieira: pulsam neles as  acontecidas moléculas de cidade que continua a crescer, palmilhando caminhos do tempo.

Credite-se, aliás, a outro historiador, Alfredo Leite, o mérito pioneiro de reconstituir a face e o olhar do passado de Garanhuns, inertes no tempo acontecido. Não se pode esconder a importância do trabalho que, sem ajuda e até com agressiva adversidade, realizou, pesquisando para  redescobrir, em velhos registros cartoriais, o perfil da cidade.

Porém a Alfredo Vieira não se deve omitir mérito em dimensão igual à de Alfredo Leite. Aquele se enquadra, sem qualquer exagero, na  observação de Benedetto Croce. Croce fez a distinção de história a crônica. A crônica como relato que, depois será história, a partir de uma verdadeira catarse do historiador. E estas anotações de Alfredo Vieira, que  têm o nítido sabor de crônicas bastante orais, pela forma clara a agradável como estão ditas - são, também, fatos históricos, seguindo o raciocínio de Benedetto Croce. Vieira revela fatos até então escondidos nos  biombos do tempo: o de que, por exemplo, o MOBRAL nasceu em Garanhuns. Teve ali plantada sua semente experimental em trabalho pioneiro de alfabetização do País. Pioneira também, aquela cidade, em arte dramática, prelúdio do Teatro de Amadores de Pernambuco. Verdades históricas agora postas à mesa, no livro de Alfredo Vieira, para deleite dos leitores. Coma sobremesa de episódios pitorescos. Um deles: a prova de que o Sanatório de Garanhuns era, realmente, eficiente no atendimento aos clientes. O Dr. Pedro Carneiro Leão, seu diretor, colocara anúncio em jornal da cidade, informando triunfalmente, isto: "Em perto de 400 doentes operados, constam apenas de 6 óbitos".

Recife | 03 de Fevereiro de 1981. 

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