sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Prefácio do Livro "Garanhuns em Versos - Um Pouco da Sua História" de Gonzaga de Garanhuns

Manoel Neto Teixeira*

Se o termo literatura, que deriva do latim (litteratura) é "arte de compor ou escrever trabalhos em prosa e verso", logo quem elabora versos contando história e estórias, seja erudito ou popular, pode ser considerado artista. Sim, porque, na teia hierárquica, segundo o filósofo Hegel, a maior das artes é a Poesia, porque reveladora do absoluto. Assim sendo, a Poesia, que o espírito das artes plásticas ao retorno musical e ainda ao pensamento, teria que ser arte superior e  suprema, admite Ariano Suassuna, no seu livro Iniciação à Estética, Editora Universitária da UFPE, edição 1975, pg. 191.

Já disse que poeta "não se faz", já nasce poeta. É muito provável que seja assim. Pelo menos, Gonzaga de Garanhuns confirma essa  máxima, na medida em que faz poesia naturalmente, ao saber e ritmo da inspiração e da própria sensibilidade. Ele é desprovido da  mínima formação acadêmica, tem apenas o "curso primário", como já  fora denominado, hoje primeiro grau, fundamental. Não obstante, compõe versos, tendo mais de uma dezena de folhetos de cordel publicados. E o fez, até aqui, seguindo as penúrias que acometem todos os artistas que se dedicam a esse gênero literário, por essas bandas do Brasil. No seu caso, o verso rimado brota espontâneo, qual água que jorra da cascata.

Ariano, na sua obra supra, considerada a mais didática, dentre os  inúmeros títulos desse consagrado autor paraibano pernambucanizado, invoca por inteiro a definição de Hegel, quando trata da hierarquia das artes:

"A plástica é o signo do Espírito. Ela exprime a vida criadora, mas paralisada e limitada pelo tempo e espaço. A música, ao contrário, revela-nos diretamente o movimento íntimo da alma, com seus desejos e  sentimentos eternos e sua aspiração ao infinito. A poesia, finalmente, é a  música plástica; ela pinta e esculpe por meio de frases dotadas de mobilidade e por sons que se sucedem, harmoniosamente ritmados. Ela é a arte suprema e exprime o pensamento por imagens".

A poesia de Gonzaga de Garanhuns, espontânea e despretensiosa, inobstante, percorre, da dimensão popular, essas alturas.  O autor, que chega de outras caminhadas, sempre na mesma trilha, o verso rimado, portanto com sonoridade e ritmo, ao gosto do leitor simples, menos exigente, adentra agora o campo da pesquisa; e da pesquisa histórica, que requer certa metodologia, colhe os fatos já ditos e conhecidos e os repete sob forma poética, o que, não tenho dúvida, expõe-se pela redondeza, o agreste Meridional.

Daí a importância desta publicação, expondo o passado, na linguagem poética, para sintonizar as novas gerações com os fatos históricos; e que história, a de Garanhuns, que se irradia em toda região agreste, com fatos e feitos que extrapolam as fronteiras para se projetarem na própria história de Pernambuco. Esta, por exemplo, estaria incompleta sem o registro da Hecatombe de Garanhuns, o assassinato do Bispo Dom Expedito Lopes (década de 50); as pegadas dos coronéis da política; a projeção das suas fazendas de café (outrora, o melhor do Brasil); sua pecuária leiteira; dos seus tradicionais colégios (15 de Novembro, Santa Sofia e Diocesano); fontes de água mineral, clima de montanha, etc. Hoje, Garanhuns abre suas portas para abrigar vários centros de ensino universitário, pólo que vai contribuir para elevar sua história recente.

Não poderia deixar de registar, por fim, o apoio do Funcultura de Pernambuco, que não exitou em aprovar esta publicação, contribuição às artes e à cultura pernambucana, amalgamando capital e interior, respeitando virtudes e peculiaridades.

Não tenho a menor dúvida do sucesso de Garanhuns em versos (um pouco da sua história).

*Manoel Neto Teixeira é membro da Academia de Letras de Garanhuns, do Instituto Histórico de Olinda e da Academia Pernambucana de Letras Jurídicas.

Garanhuns, dezembro de 2008.

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