sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Primeiro aniversário da Academia de Letras de Garanhuns

Discurso proferido pelo Dr. Rilton Rodrigues da Silva, (foto) Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, na seção solene realizada no dia 3 de fevereiro de 1979, ao ensejo do primeiro aniversário daquela Casa de Letras e em homenagem ao Centenário de desta Cidade.

Mister se faz que lhes confesse o meu perene estado de espírito que é, ao  mesmo tempo, minha profissão de fé e filosofia de  vida:

Sou um homem profundamente orgulhoso.

Sei muito bem que uma afirmação assim tão insólita proferida num momento de augusta solenidade, calaria bem fundo nas consciências de todos que  me escutam, seja pelo arroubo da ideia, seja pelo assombro da imodéstia.

Perguntar-se talvez: que orgulho será este, se genialidade não se lhe reconhece, se beleza não a tem, se cultura vasta não se lhe proclama?

É que o meu orgulho é diferente, não se referindo a certas atitudes comportamentais que afastam o homem dos outros homens e  geram antipatias.

Eu me envaideço até o  cerne de minha alma das amizades que fiz, dos amigos que cativei e pelos quais fui cativado, como a realização maior de minha vida.


Orgulho de ter preservado todas aquelas amizades com fidelidade absoluta,  sem tergiversações, sempre as servindo. Orgulho até mesmo, embora paradoxalmente, de poder conquistar novos amigos, guardados no coração aquelas melhores intenções.

Esta exortação ao culto da amizade, como exórdio a o meu discurso, surge e refulge bem a propósito para que se possa contar a história da criação desta Casa de Letras.

Foram bons amigos como Argemiro Lima, Aurélio Muniz Freire, Antônio Gonçalves Dias, Antônio Manoel Cardoso, Edil Graciliano, Erasmo Bernardino Vilela, Enoch Burgos, Gipson Ayres, Humberto Alves de Morais, João Calado Borba, José de Abreu Santos, Manoel Hélio Monteiro, Maurilo Matos, Maviael Medeiros e Raimundo de Morais, todos eles homens de letras e cultos, que me  ajudaram a tecer com os fios coloridos dos nossos sonhos o estandarte glorioso deste ideal.

Entretanto havia um empecilho. Fenômeno constante desde os tempos imemoriais da história: "o artista sempre foi um pobre e a arte mendiga"; e por  isso clamava o nosso condoreiro Castro Alves.

"Fado cruel, mentira. Virgílio vende a lira e Homero pede pão."

Para criar-se uma Academia é necessário também algo objetivo, concreto: insumos para a construção do prédio, móveis, utensílios e dinheiro.

E outros amigos vieram ao nosso encontro trazendo, além da palavra carinhosa, o gesto grandiloquente da doação, como expressão concreta do princípio filosófico de que  a  felicidade consiste em dar, e não em receber.

Amigos como Arnaldo Arimá Filho, Valdemar José dos Santos, Guilherme Cosentino, Carlindo Barros, Ciro Ferreira Costa, Severiano Moraes, João Carlos Pessoa de Melo, H. B. Silvestre Neto, Mário Barbosa, Carlos Moraes, Luiz Moura Amorim, Nilton Ramos Bezerra, Mohamad Nuri Jisri, Ivan Gomes, Edson Dourado, Fábio Vidal e o prefeito Ivo Tinô do Amaral, vocação perfeita e acabada de homem público, todos comungando conosco as nossas ternas esperanças e irmanados na fé do desporvir de Garanhuns e desta Casa, e por isso merecedores dos títulos de sócios beneméritos com os quais os agraciamos.

Todavia, uma sociedade acadêmica precisa da algo mais, tanto que não pode prescindir do apoio, do estímulo e do encomiasmo dos homens de renomada cultura e notória inteligência, para que lhe divulguem a existência e realizações, pois que se ficar encastelada e ensimesmada em seu  próprio sodalício... fenece e morre.

E outras pessoas mais  vieram engrossar as cortes de nossas amizades, dando-nos os aplausos, as  mensagens de incentivo e a  honra de suas presenças  prestigiosas, tornando pública a vida desta nóvel casa de Cultura Literária e  proclamando os nossos feitos.

E, precisamente por isso, rolando das serras da Borborema, ecoando de quebrada em quebrada, espraiando-se pelos vales e  planícies, além das fronteiras de Pernambuco, escuta-se hoje o nome: Academia de letras de Garanhuns.

Amigos que aqui estiveram como o embaixador José Angel Savion, Carlos Bar-Manini Rios, Mamaum Kabbani, Jasin Rourisly, Manuel Blanco Cervantes, Mohamad Nuri Jisri, o adifo cultural Robert Lafon, o presidente da Academia Pernambucana de Letras, poeta e professor Mauro Mota e tantos outros. Amigos que ora se fazem presentes a esta augusta solenidade, como os insignes e  renomados mestres Gilberto Freyre e Antônio dos Santos Figueira, as grandes expressões culturais que são o Cônsul Lamartine de Holanda Júnior e o Comendador Dário Ambrósio, bem como todas estas pessoas que representam a  elite cultural, social e política de Garanhuns, como o  Dr. José Tinoco de Albuquerque, Urbano Vitalino de Melo, Osvaldo Medeiros, Hilton Vitalino e tantas outras.

Como natural consequência de tudo que foi dito, cabe, aqui e agora, uma  manifestação irretorquível: esta ACADEMIA só pode materializar-se porque teve os alicerces sagrados e  firmes dos sonhos, das esperanças e do amor.

Casa de Letras que celebra o seu primeiro aniversário, mais cujo espírito acadêmico remonta ao ano 387 antes de Cristo, quando, na helênica Atenas, fundava o grande filósofo Platão a primeira Academia.

Academia que foi por  nós criada sem qualquer outra preocupação maior senão a de divulgar a arte literária de nossa terra, de  cultuar a língua materna, chamada por Olavo Bilac de "Última flor do Lácio, inculta e bela", e à qual podemos declarar naquele rigor parnasiano:

"Amo-te assim, desconhecida e obscura, tuba de alto clamor, lira singela que tens o tron e o silvo da procela e o arrôio da saudade e da ternura".

Jamais passou pelo pensamento de qualquer um  dos Membros desta Academia a insensata ideia da imortalidade pelo simples fato de a ela pertencer, porque todos nós sabemos que um homem só consegue tornar o seu nome imortal quando a sua obra atinge a glória da perenidade.

Almejamos, isto sim, algo talvez mais valioso: servir bem e sempre, criar o belo se for possível, engrandecer a nossa amada terra se méritos e forças tivermos para tanto.

Academia que foi erguida com pedras de sonhos, com cimento e cal de crenças, coberta com as telhas de  um ideal e toda repleta de  amor.

Do amor daqueles que a  criaram e que creem firmemente no futuro promissor de Garanhuns, todos cantando unissonamente, evocando Augusto dos Anjos:

"Meu coração tem catedrais imensas, templos de priscas e longínquas datas onde um nume de amor, em serenatas, canta a aleluia virginal das crenças".

Do amor daqueles que estão umbilicalmente ligados a esta Cidade das Flores porque aqui nasceram, ou  porque são, teluricamente, a continuação dos seus ancestrais, ou porque  a escolheram atraídos a regaço de seus encantos.

E que deste rincão maravilhoso não querem sair, e repetem com o poeta Vicente de Carvalho:

"Deixa-me, deixa-me fonte!

Dizia a flor a chorar.

Eu fui nascida no monte,

não me leves para o mar".

Carícias das brisas leves que

abrem rasgões de luar...

Fonte, fonte, não me leves,

não me leves para o mar!"

Academia que é o sigma de cem anos de tradição cultural de Garanhuns, somatrio esplêndico da arte literária cultuada nestas plagas e que se perdeu nas  névoas não desvendadas do  passado; que remonta a  anos anteriores à criação do "Congresso Literário", nas vozes dos poetas anônimos, dos trovadores de  feira, dos repentistas das festas, dos cantadores de  serenatas.

Cultura literária dos Jornais: O Garanhuns, A Pátria, O Tempo, O Momento, O Gládio, O Diário de Garanhuns, O Monitor, Tempos Novos e tantos outros, do Almanaque de Garanhuns, da Revista de Garanhuns, tantos nomes que  adormeceram na noite dos  tempos e que hoje evocamos como a maior riqueza e glória de nosso passado. (Mantida a grafia da época).

Foto: Dr. Rilton Rodrigues da Silva 

Fonte: Jornal O Monitor.

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