quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Reforma do homem


Dr. Aurélio Muniz Freire*

A qualquer espiritualista, não importando sua crença, seu credo, sua  posição filosófica, seria de todo ilógico o não acolhimento de princípios superiores à legislação positiva. É a presença universal de uma lei natural, embasando os sistemas legislativos e  as condições humanas.

Muitos negam a existência deste direito natural, assentando a vigência tão apenas de um direito, cuja fonte suprema é a lei escrita. Outros juristas firmados em princípios materialistas, mesmo quando aceitando a opinião de um jus naturalismo, negam  esteja ele fundamentado em postulados transcendentais. Então, perguntamos: Onde estão baseados tais preceitos?

Aos que entendem que estas regras se inscrevem na ordem natural das coisas, na evolução do próprio homem ou do mundo, ou na consciência de cada um e, nesta posição, querendo excluir outro entendimento, enunciam somente meia verdade. Existe uma diretriz presente a todas as ordens, quer estejam estas nas coisas, na natureza, no mundo ou no homem. Há, em tudo, algo superior e invisível, como razão, esteio de  todas as visibilidades. A própria matéria se sustenta em átomos que não vemos. A luz, em partículas infinitesimais  (fótons), que se escondem aos  nossos sentidos. As células organizam os corpos vivos e para elas também somos cegos. No entanto, a ciência detecta por instrumentais de precisão esta realidade microscópica e, segundo seus ensinamentos, sabemos da  existência real de um mundo que se esconde por trás de todas as realidades.

A filosofia cartesiana, num pequeno enunciado de sabedoria, chama a atenção da criatura, para uma outra realidade mais profunda, quando erigiu o famoso axioma: cógito, ergo sum (penso, logo existo). É como se Descartes tivesse ai afirmado: se penso, não é o meu corpo que pensa, mas é algo que pensa por mim. Então, o meu cérebro nada mais é senão um instrumento de ação, utilizado por uma força, comandado por um poder energético, dirigindo meu pensamento, tangendo meus sentimentos. Esta voz de comando, motor a acionar a vida do homem, é o seu espírito. À medida em que penetramos no conhecimento espiritual da vida, mais perceberemos desta realidade visível e invisível.

Sempre se falou de uma alma ou  espírito das coisas. Com isto, quer-se traduzir um poder de evolução, de crescimento que se adentra em tudo quanto existe. Esta energia imanente e transcendente ao todo existente, demonstrando uma inteligência superior a tudo e a todos, é a razão espiritual do próprio universo. É Deus. O imenso apóstolo dos gentios (Paulo de Tarso) falava desta fonte de todas as fontes, quando afirmou que tudo e todos nos movemos em Deus. Assim, enunciou a lei de imanência e de transcendência como regra suprema e universal.

Se a Suprema Lei, Princípio Único (causa-causarum) é a presença invisível de todas as ordens, seu poder se manifesta com evidência superlativa no próprio homem. No entanto, urge a reforma individual da criatura humana, porque, se adentrados estamos todos na imanência divina, ainda rastejamos nos aspectos de sua transcendência. A superficialidade do saber reside na expressão neurocerebral que todos somos. Todavia, o real conhecimento é de natureza espiritual. Ainda parodiando o entendimento filosófico cartesiano, diríamos: o corpo é apenas um instrumento pelo qual percebe o espírito. João, o Evangelista, na sua "divina epopeia", remataria: "O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito, são espírito e são vida".

*Jurista e Escritor / Garanhuns, 27 de outubro de 1984.

Créditos da foto: Anchieta Gueiros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pesquisa mapeia situação de controle interno dos municípios brasileiros

A Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) lançou, nessa segunda-feira (27), o “Diagnóstico dos Controles Internos...