sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Reminiscências do Colégio Quinze de Novembro de Garanhuns

Noemi Gueiros Vieira*

Quando Miss Reed veio para o Brasil, no colégio Quinze era diretora Dona Cecília Rodrigues. (Depois do casamento, a dileta professora adotou o nome do marido, Siqueira). A missão resolveu ativar o colégio convidando o Reverendo Jerônimo Gueiros (foto), pastor da Igreja Presbiteriana de Natal e Dona Cecília Rodrigues para realizarem juntos o trabalho de soerguimento. Vale lembrar que ambos tinham sido alunos do ilustre reverendo Martinho de Oliveira, o fundador do Educandário. Talvez poucos saibam que o nome era "Escola Paroquial Presbiteriana". Ao ser organizada num segundo estágio, a escola tomou o nome atual em homenagem à República recém-proclamada.

Após a morte do reverendo Martinho de Oliveira, sua esposa dona Maria e o Seminarista Antônio Almeida, continuaram a dar aulas até que terminando o curso ministerial, foi este enviado para dirigir a Igreja Presbiteriana do Recife. Dona Cecília tinha sido uma das mais inteligentes e promissoras alunas de Miss Eliza Moore Reed no então Colégio Evangélico do Recife, o hoje Agnes Arskine. Em Garanhuns, auxiliada pelos Henderlites e pelos Thompsons ela continuaria o seu fecundo trabalho. Quando ela era a diretora, nós (os três filhos mais velhos) do Reverendo Antônio Gueiros, recém chegados do Pará, ingressamos no Quinze. Foi o começo de uma grande e interminável bênção espiritual, moral e intelectual que Deus nos deu. Jamais agradecerei o suficiente a Deus, por este privilégio que nos concedeu. Dona Cecília sempre foi - no meu entender - a mais enérgica professora do Quinze. Não hesitava em aplicar a tabela nos que se  comportavam mal. Naquela época ainda existia o castigo corporal e por isso  ninguém estranhava umas poucas tabicadas, aplicadas oportunamente nos alunos desordeiros. Vale lembrar que a esse tempo, todas as professoras e de todas as escolas, mantiam uma palmatória em cima da mesa, destinada aos alunos que não sabiam da lição bem "decorada". Dona Cecília primava em executar e diligenciava para que  os métodos de Miss Reed fossem cumpridos. Era jovem, mas muitíssimo respeitada por nós, pequenos, tanto moças e rapazes das classes mais adiantadas.

Cecília Rodrigues era cultora das letras. Falava o inglês com perfeição gramatical, sendo também poetisa, deixando que  muitas vezes os seus versos fossem recitados, especialmente nas sessões da "Sociedade Literária 15 de Novembro", ou nas festividades de fim de ano. Casando com o Reverendo Cícero Siqueira, foi residir em  Canhotinho, onde os dois juntos fundaram e dirigiram o Colégio Evangélico daquela cidade, nos mesmos moldes do Quinze. Retirando-se assim, dona Cecília, teve de ser substituída pelo Reverendo Dr. Thompson, de quem já falamos nestas nossas Reminiscências.

Depois dos Thompsons, vieram os Taylors. Talentoso jovem, Reverendo Dr. George Washington Taylor e sua esposa D. Julie Pratt Taylor, foi uma dupla inesquecível do Colégio Quinze. Dr. Taylor, ao chegar a Garanhuns, vendo as precárias acomodações onde as aulas eram dadas e onde funcionava o internato, resolveu edificar um prédio condigno, num terreno amplo, onde fosse possível desenvolver-se um programa educacional e de esportes e com espaços para construções futuras, face as necessidades dos cursos que deveriam surgir. Homem de visão Dr. Taylor. Inegavelmente ele projetou seu olhar no futuro, percebendo que a cidade se estendia para o leste. Resolveu então, edificar o prédio que  idealizou entre a parte antiga da cidade e a nova que surgiu e que ele antevia como promissora.

Assim pensando, comprou um imenso terreno, bem maior do que hoje existe no Quinze. Lembro-me bem dos seus limites. A Rua Dr. José Mariano terminava nas imediações da Casa de Ferreira Costa, bem próximo à Igreja Batista atual. Um pouco adiante desse local começava um  terreno cercado de arame farpado, que nas imediações do portão principal do Quinze, chamado "Portão Susah Cockrell", fazia quase um angulo reto, indo até a calçada da Praça que se denominou "Praça Colégio Quinze de Novembro", cujo nome (não seu porque) foi trocado para Praça Souto Filho. Dali se estendia até um pouco além do atual Posto Atlantic, onde termina fazendo ângulo reto seguia pela estrada que ladeia hoje o muro da Igreja de São José, onde funcionou um Seminário Católico, até encontrar o extremo do terreno, ao Sul.

Quando o prefeito Euclides Dourado idealizou abrir uma grande avenida desde à Rua Dr. José Mariano até o Monte Sinai, hoje (da praça em diante) chamada Avenida Rui Barbosa, pediu à direção do  Colégio que lhe cedesse o terreno para tal fim, seccionando-o em muitos metros. O terreno foi - de bom grado - doado pelo Colégio à Prefeitura, compreendendo o alcance do progresso com a nova avenida. Mas uma grande parte também foi pedida para que funcionasse como logradouro público, ou para uma instituição de utilidade pública... Cala-te boca! Tempos depois, outro Prefeito, parece-me que Dr. Celso Galvão, desapropriou outro trecho entre o São José e o muro do Colégio Quinze, desta vez perdendo o Colégio mais 10 metros de terreno em toda a sua extensão naquele lado. Mais adiante o mesmo Prefeito (ou outro?) quis subir a Avenida Agamenon Magalhães e mais uma grande trecho foi perdido, recebendo (?) o Colégio uma  Nêsga de terra, mas ninguém sabe onde...

Pode-se imaginar por estes cortes as  dimensões do terreno do Quinze. A ideia do Dr. Taylor era fazer campos, quadras para diversos esportes, prédios etc, o que  de fato veio a fazer em parte.

Texto transcrito do Jornal O Monitor de 5 de Outubro de 1985.

Créditos da foto: Portal mackenzie.com.br

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