quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Reminiscências do Colégio Quinze de Novembro de Garanhuns (II)

Noêmi Gueiros Vieira*

Dona Catarina Thompson, cujo nome mudou para Katy por não tolerar que o pronunciassem erradamente ou aportuguesado. Preferiu um nome mais conhecido e fácil de se pronunciar: KATY. Ela era uma exímia professora com um grande tirocínio antes mesmo de vir para o Brasil. A princípio eu a temia pela fama de severa que ela impôs ao seu lado e no entendimento de alguns alunos mal comportados. Com o passar do tempo, o seu modo foi se dissipando e cedendo lugar a uma grande amizade e com um profundo respeito pelas suas virtudes e pela extraordinária cultura da qual era portadora e que soube nos transmitir.

Katy era alta, esguia e vestia-se sempre de branco, com simplicidade e elegância. parecia-nos que a roupa dela nunca se amarrotava. Admirava-lhe até os cabelos precocemente embranquecidos em cachos de prata, o que lhe dava ainda mais um ar de grande respeito e seriedade.

Nas minhas anotações de memória, tantas pessoas importantes desfilam retrospectivamente, todas amigas e companheiras do querido Colégio Quinze de Novembro. Por vezes - nessas caminhadas ao passado - lágrimas de saudade nos humedecem os olhos. E nessa linha de pensamento que volto a me lembrar - por exemplo - de outra grande educadora, que muito me inspirou na vida, a quem fui profundamente grata. Miss Eliza Moore Reed (foto). Ela veio parta o Brasil como missionária no setor educacional. Foi educadora da célebre Escola Doméstica de Natal e depois também fundadora do Colégio Evangélico do Recife, hoje Colégio Evangélico Agnes Erskine. Naqueles idos, da chegada de Miss Reed ao Brasil, o Quinze estava necessitando de moças bem preparadas que se aperfeiçoassem em  pedagogia. Ninguém mais capacitado do  que Miss Reed. Por isso foi transferida do Agnes para o Quinze.

As alunas de Miss Reed tornaram-se professoras talentosas, que se dedicaram com todo o amor ao seu trabalho de instruir e educar alunos. Foram tantas. Lembro-me de algumas. Elvira Souto, minha parenta e amiga. Foi minha muito amada mestra por dois anos seguidos. Como ela tinha paciência comigo: E quanta!... Uma outra que a minha memória registra: Almerinda Alves (depois Ferreira). Muito jovem ainda, Almerinda foi minha professora no Colégio Quinze. Sei que a afligia muitas vezes com a minha inquietação. E imagine-se que ainda dizia que ela era  injusta quando me dava nota sete (7) "sofrível" no comportamento. Outras moças inteligentes e dedicadas foram discípulas de Miss Reed. Lembro ainda Donana Soares (depois Cortez), Celidônia e Darces Frias. Esta tornou-se uma ótima professora de matemática. Ambas foram - alguns anos depois - solicitadas para irem para o Colégio Batista de Maceió, que estava a cata de gente boa. O Colégio Quinze começava a "exportar". Já a esse tempo bons professores. Lá elas fizeram um trabalho muito eficiente e muito lembrado.

Luzinha Vilela outra desse tempo, foi professora, perita em alfabetização por muito anos até que a família se mudou para o Recife. Loló (D. Hipólita Rodrigues) irmã de Cecília (esta tão bem biografada no livro que leva o seu nome de autoria de Juracy Fialho Viana), ensinou muitos anos depois de terminar o curso. Veio depois que Miss Reed viajou definitivamente para o Recife. A estas moças Reed ministrava aulas de pedagogia e as ajudava a preparar as suas aulas. sob sua sábia orientação, aquelas professoras, todas jovens, tornaram-se grandes mestras do Colégio Quinze por longos anos.

As ações de Dona Eliza (nome usual entre alunos) não se restringiram apenas na preparação pedagógica das suas educandas. Sendo o Quinze um Colégio misto (havia o Ginásio Diocesano, só para rapazes, e o Santa Sofia só para moças), Dona Eliza advertia-nos para andarmos sem requebros, lembrando que devíamos sentar decentemente e com elegância. Tanto Miss Reed como Dona Catarina davam muitíssimo importância ao porte, não só por amor à distinção, como também porque sabiam, de experiência própria que o porte e a elegância nos mantinha com boa saúde e boa aparência. Não admitia que uma menina pusesse e mão no ombro de um colega que estivesse na sua frente numa fila. Muito nos ajudou, nas nossas vidas, as suas recomendações.

Mas nem por isso - isto é, com tanta recomendação - não deixava de haver namoro no Colégio. Havia sim. E por que não haveria de existir? Havia sim. Mas  discretos. Disciplinados e muitos nos surpreendiam quando os noivados eram anunciados. Grande admiradora da Natureza, Dona Eliza nos levava em passeios pela  Cidade e deslumbrada com a geografia de  Garanhuns, parava no alto das colinas e  nos mostrava a paisagem. Chamou-nos, com poucos mestres, a atenção para as nossas próprias belezas; as flores, o Magano, o Alto da Boa Vista, a vastidão do planalto, as colinas verdejantes. Dona Eliza mais que qualquer outra mestra nos ensinou - além dos ensinos didáticos - a conhecer as coisas simples da vida, desde as coisas mais importantes até aquelas aparentemente simples, como as flores silvestres.

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