quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Retalhos de Garanhuns


Velhos retratos dos avós, dos pais, e de Miriam que habitam minhas recordações da mocidade, dos tempos de menino em Tabocas, Pirauá e Garanhuns, onde vivi felicidade, e sonhei os  sonhos sonhados próprios de toda gente!

O carnaval, a Casa Grande, cheiro de mel de engenho, a bagaceira onde brinquei folguedos com outros meninos dos já distantes, saudosos e sempiternos tempos de menino.

A casa do meu pai conjugada ao armazém, onde em Pirauá negociava secos e molhados, tecidos e miudezas! Seu escritório de rábula onde atendia  pedidos para defender no júri de Timbaúba presos pobres, desarvorados da sociedade por roubos, crimes de morte e defloramentos vis.

A primeira viagem de trem, o medo do apito que senti na velha locomotiva dos ingleses da Great Western! A chegada ao Recife, à cidade grande, capital do Estado, onde pela primeira vez encadeei-me com a profusão da luz elétrica tão diferente daquela que  os candeeiros iluminavam nossa casa!

A cheia do rio Paraíba do Norte, as feiras de São Vicente Férrer e da antiga Macapá! As visitas, nas festas  de Santana, a Bom Jardim - onde, na casa dos avós paternos, tomei meu primeiro banho de chuveiro, milagre do progresso da água encanada.

A primeira grande mudança, a grande viagem - de Pirauá para Garanhuns -, do extremo norte para o sul de Pernambuco. Da fronteira da Paraíba para a das Alagoas! Viagem de mudança, tão longa e tão grande que, menino, pensava não chegar nunca à cidade escolhida por meu entendimento de menino de 5 anos.

Em fevereiro de 1935 chegávamos enfim a Garanhuns, que pareceu-me tão monumental em relação a Pirauá (onde professor Uzzae Canuto fez seu primeiro culto evangélico); maior que ela apenas o Recife, segundo meu entendimento de menino de 5 anos.

Nossa primeira casa na rua 15 de Novembro, depois, por economia, fomos morar nos fundos da loja, na avenida Santo Antônio, prédio que meu pai alugou a Zé Gregório - os fundos davam para  a rua Santos Dumont, defronte da oficina pioneira de João Tude.

Fui crescendo em Garanhuns e lá meus irmãos foram nascendo - 8 ao todo que somando-se aos 4 vindos de Pirauá,  eu o mais velho da prole de 12 filhos, em seguida Miriam - minha primeira amiga, muito mais que apenas irmã, muito mais!

O tempo foi passando, correndo tão rapidamente que hoje, reflito, não sei porque tanta pressa... Meu pai no trabalho, prosperando, com o crescimento de Garanhuns! Em 1941 comprou ali, a primeira casa própria, residencial, bem provida cheia de calor humano - no lado de baixo da avenida Santo Antônio junto ao Fórum e da Associação Comercial, o número 485, onde Miriam deu a luz todos seus quatro filhos, aparados por Dr. Godofredo.

Retratos - retalhos de um tempo - que ficaram marcando meu espírito, retratos que acompanham-me em toda travessia existencial... 

Retratos que não foram tirados por nenhuma indissoluvelmente fixados em todas paredes sensitivas do meu pobre ser...

*Rinaldo Souto Maior / Jornalista e historiador / São Paulo, 1 de Setembro de 1984.

Foto: Em 1941 comprou ali, a primeira casa própria, residencial, bem provida cheia de calor humano, no lado de baixo da avenida Santo Antônio junto ao Fórum e da Associação Comercial, número 485, onde Miriam deu a luz a todos seus quatros filhos, aparados por Dr. Godofredo de Barros.

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