quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Saudosas serestas


João Marques | Garanhuns

Foram-se, também, as serestas e as noites. As estrelas brilhando no céu, a lua, a moça à janela, no sótão superior. Violões, uma canção cantada, livre, como cantam por cantar os apaixonados, os românticos, os rouxinóis nos galhos. Tudo natural como desabrocha a flor, o silêncio do azul distante, o canto breve do galo na madrugada. A noite era misteriosa, espaço da alma sensível e superior. Foram-se as serestas e as ruas. Jovem, pude ainda participar de serestas na cidade. Os postes de madeira, com pouca iluminação das lâmpadas. Cenário possível ainda para as serestas. Segundo o historiador Alfredo Leite Cavalcanti, o advento da iluminação pública veio a prejudicar a beleza das serestas ao claro da lua. Uma vez, o Grêmio Cultural Ruber van der Linden foi fazer uma seresta na cidade de Calçado. Humberto de Morais à frente de tudo. Viagem, paradas aqui e acolá do grupo de  seresteiros, apresentações dos participantes aos amigos da terra. Muitos parentes e amigos da terra. Muitos parentes e amigos de infância. E com orgulho, dizia: Eu sou daqui, de Calçado. Não faltou nada. Comida, bebida, simpatia, muito violão e cantigas. Inesquecíveis seresta, Calçado e Humberto de Morais.

Década de 20, Garanhuns se consagrou como cidade das serestas e dos saraus. Augusto Calheiros, Manoel Gouveia, Alfredo Leite Cavalcanti e outros boêmios da noite. Este último, historiador também, em seu livro História de Garanhuns, dedica 9 a 10 páginas às lembranças das serestas e os seresteiros das noites de sábado de 1910 em diante. Como participante, confessa ter sido o melhor tempo de sua vida. Ficaram famosos os saraus no casarão de Tomaz Maia, reunindo, inclusive, os funcionários da recente agência do Banco do Brasil.

Procurando resgatar a tradição, eu mantive durante quase 2 anos, na AABB desta cidade, a seresta "Seresteiros da Lua", que continua como antigamente. E lembro nomes de ótimos seresteiros, que se apresentaram: João Rocha, Jurandy, Sebastião, Daniel, Edna, Dalva Diniz, Léo do Cavaquinho, Noronha, Pedro Sampaio, Maurilinho. Mas seresta, para ser verdadeira, tem que ter violão, lua e amor em poesia. Humberto de Morais me contava, falando  das serestas de Calçado, que um seresteiro, poeta e apaixonado de lá, dizia: "Façam silêncio... a lua vem nascendo, respeitem a lua e cantem".

Garanhuns tem, também, este pioneirismo em sua história. As serestas, que encantaram. E que se registre nos anais da cultura e da música desta cidade os nomes de Manoel Sargento, exímio violinista, Manoel Teles, cantor seresteiro, e de tantos poetas notívagos, como esses que são lembrados aqui.

*Escritor, poeta, jornalista, editor/redator do jornal O Século, autor do Hino de Garanhuns e ex-presidente da Academia de Letras de Garanhuns.

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