quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Simôa Gomes de Azevedo

Em dezembro de 1693 nascia Simôa Gomes de Azevedo, filha do Cabo Miguel Coelho Gomes com uma índia cariri (Unhanhú). Este fato era muito comum no Brasil daquelas épocas, como país primitivo, em começo de colonização, repetia-se com frequência, de norte a sul, mormente quando na fase de povoamento dos sertões longínquos faltaram quase por completo mulheres de raça branca, encontrando os pioneiros embrutecidos nas selvícolas perfeita correspondência ao seu desejo matrimonial.

A história não registrou o nome da indígena cariri, (Unhanhú), mãe de Simôa Gomes, embora conste da tradição o acontecimento social, pois é evidente que o fato se realizou à luz meridiana dos trópicos "na praia deserta do riacho Paratagi dos campos dos Unhanhú", onde Miguel Coelho Gomes fixou a sua residência, e tomou, mais tarde, o nome patronímico de "Brejo do Coelho".

O monte ao lado esquerdo do riacho afluente do rio Mundaú, tomou também, o nome de Monte do Miguel, e segundo Alfredo Leite Cavalcanti, pesquisador dos arquivos de Garanhuns, o local onde nasceu Simôa Gomes deve ter ficado no sopé do dito monte, hoje denominado Morro da Boa Vista.

No aprazível "Brejo do Coelho", atual "Brejo das Flores", ficou situado o primeiro curral de gado, núcleo provável daquela primeira fazenda de criação de Garanhuns, que se denominou "Garcia", em memória póstuma, talvez de Garcia d'Ávila, ou em homenagem provavelmente a Garcia Rodrigues Pais, filho do grande bandeirante Fernão Dias Pais Leme, o qual, de 1674 a 1681, varou os sertões de Minas e da Bahia, em procura das esmeraldas descobertas pelo pai e, deixando as cabeceiras do rio das Velhas, em 1960, tomou o rumo norte, atingindo do rio São Francisco, como fizeram antes os sertanistas Domingos Jorge Velho e Matias Cardoso de Almeida.

Simôa Gomes evoca um misto de lenda e de história na paisagem histórica e social da Terra dos Garanhuns. 

Descendente de velho tronco dos bandeirantes, ela sendo neta do Mestre de Campo Domingos Jorge Velho, digno êmulo de Fernão Dias Pais  Leme e Matias Cardoso de Almeida.

Herdeira, em linhagem direta, das características atávicas dos seus ancestrais: do gênio dos íncolas e caráter aventureiro dos sertanistas e de índios, Simôa Gomes encarna o protótipo de mulher pioneira, aliando a coragem e a bravura às qualidades de jovem sonhadora e idealista. Unindo, paradoxalmente, à bondade do coração, a energia e a altivez. Inteligente, não obstante ser analfabeta e ignorante.

A criança brejeira, filha do Cabo Miguel Coelho Gomes, em conúbio com uma indígena cariri, "na praia deserta dos campos dos Unhanhú, transformou-se, do dia para a noite, na dama de alto porte, destemida e impávida, que cavalgava varonilmente fogosos corcéis (cavalos) de seu pai ou dos colonos de sua fazenda Garcia, de pistolas nos coldres à cinta, à moda brasílica setecentista.

E é este mesmo sentimento confuso, estuante em sua alma, que a suscita, ora a dominar os selvícolas de sua própria raça, como autêntica mameluca no começo da colonização; ora a liberar escravos pretos, mediante alvarás, como aquele de 1726, compulsado por Alfredo Leite Cavalcanti nos arquivos dos Cartórios de Garanhuns, sendo já viúva em plena florescência de sua vida; ora a doar parte do seu patrimônio à Irmandade das Almas, da sua Paróquia de Santo Antônio do Ararobá, num gesto acendrado de misticismo, em 15 de maio de 1756.

Nascida no fim do século XVII, em dezembro de 1693, no desabrochar de sua adolescência, era já mãe de Valério Ferreira de Azevedo e Bertoleza Ferreira, filhos legítimos do Coronel Manuel Ferreira de Azevedo, a ela unido matrimonialmente, segundo consta do inventário dos seus bens, logo após o seu falecimento, em 1726, e da escritura de doação feita pela mesma, de parte da fazenda Garcia, em 1756.

Simôa Gomes herdou sua parte de terra, ao falecer seu marido, Manoel Ferreira de Azevedo, em 1729.  Em 1756, Simôa Gomes já viúva, através de Escritura Pública doou uma parte de terra da Fazenda do Garcia à Confraria das Almas da Igreja Matriz da Freguesia de Santo Antônio do Ararobá, a atual igreja Matriz de Garanhuns. 

A igreja foi erguida sob a égide de Santo Antônio, possivelmente em homenagem ao fundador da Fazenda, Antônio Garcia. 

As Confrarias eram grupos de pessoas que se associavam para promover a devoção e o culto a um santo. Às vezes erigiam um altar em algum lugar, e às vezes já havia uma capela dedicada ao santo e a função da Confraria era cuidar e zelar pela capela. 

Além disso, os membros da Confraria se ajudavam mutuamente, promoviam sepultamentos, oravam pelas almas dos falecidos, cuidavam das viúvas e dos órfãos etc. Havia, também, pessoas que designavam a sua própria alma como herdeira de seus bens. Assim, doavam seus bens à Confraria, e, depois de sua morte, a Confraria administrava aqueles bens e orava pela alma da pessoa que doou. Desta forma, o doador, garantia a realização de missas pela sua alma, para que ela se salvasse no juízo final.

Em 10 de março de 1811 o Povoado de Santo Antônio dos Garanhuns passa à Vila (Município). Segundo o historiador Alfredo Leite Cavalcanti, a esta altura já havia um povoado com 156 prédios na propriedade da Confraria, que desde 1813 já se chamava Vila de Santo Antônio de Garanhuns. Mas, ao que parece, depois da morte de Simôa Gomes, os membros da Confraria esqueceram o combinado. O deputado Austerlino Correa de Castro contou ao seu neto, o vereador Fausto Souto Maior e este mandou escrever, o seguinte fato: "Em 1855, o Juiz de Direito Dr. José Bandeira de Melo, verificando o estado de abandono do patrimônio doado por Simôa Gomes, instaurou um processo que determinou o sequestro e a incorporação dos bens ao Patrimônio Nacional, a sentença saiu em 26 de Julho de 1855". 

Em 1872, o Juiz de Direito, Antônio Manoel de Medeiros Furtado, regularizou a cobrança do foro e os pagamentos das missas para as almas, supondo-se que tenha sido anulada a sentença do sequestro do patrimônio da Confraria das Almas, mas tudo indica que em nada resultou porque não existem documentos que comprovem essa anulação.

A última notícia que se possui da pioneira é desta data, parecendo provável que não chegou a presenciar as núpcias do seu filho varão com Águeda Maria e, muito menos, estreitar ao colo os seus netos: Francisca, Antônio, Maria da Luz e Manuel Ferreira de Azevedo. É justamente deste último, casado com sua prima legítima Maria de Jesus da Silva, que procede  Luiz Ferreira de Azevedo, pró-homem de Garanhuns, grande patriarca com uma prole de dezoito filhos, troncos de inúmeras famílias antigas do município. 

O primogênito Agostinho Ferreira de Azevedo, residiu na casa de taipa e telhas, que existiu na antiga Praça Rio Branco, segundo afirmou Sales Vila Nova. Simôa Gomes de Azevedo faleceu em 1763.

Fonte: Livro História de Garanhuns / Alfredo Leite Cavalcanti / 1968.

Foto: Busto de Simôa Gomes de Azevedo.

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