segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Sociografia de Garanhuns


Nação Kariri, entre os povos vizinhos (Tupis ao norte e nascente, e Gês, ao sul e poente), era o grupo estatal que apresentava uma melhor organização social.

A família ou clã era o grupo básico da sociedade primitiva, a célula social, o fundamento das tribos desta valente nação de  "homens soturnos", na expressão de Pereira da Costa.

Dominava um regime patriarcal monogâmico, patrilocal, patrilinear, por excelência. O "Kari" era o chefe natural a quem toda a tribo prestava obediência. Depois do "Kari", apenas os "prai-á" eram respeitados e venerados, como sacerdotes, nos ritos sagrados do culto do "Urikuri".

Herbert Baldus, nos seus "Ensaios de Etnologia Brasileira", diz que, em geral, entre os povos primitivos  com instituições patrilocais e patrilineares, o matrimônio tem regras mais fixas do que entre os povos com instituições matrilocais e matrilineares.

Dai a predominância e sobrevivência nos sertões dos povos de raça "Kariri".

A divisão do trabalho, entre os mesmos, era fielmente observada. Os maridos, encarregando-se dos serviços externos da subsistência do lar por intermédio da caça, ainda cuidavam dos imperiosos deveres da guerra, isto é, além da defesa do clã, a da integridade da tribo, contra os outros povos vizinhos, tapuias e túpicos.

Escorraçados pelos colonos lusitanos, lutaram contra eles, aliando-se aos bátavos invasores, no meiado do século XVII, conforme atesta Johan Nieuhof, no seu livro "Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil".

Por isso, escreveu o autor citado, "era hábito dos cariris fazerem uma ou duas incursões anuais nessa Capitania, principalmente, durante a seca que os privava de água fresca, mantendo-se, assim, viva a animosidade entre portugueses e nativos".

Os misteres do ménage e da lavoura repousavam sobre os ombros das esposas; eram inerentes às mulheres, segundo Karl von den Steinen.

O preparo da comida, a criação dos filhos, o trabalho nos roçados, a fabricação dos vinhos - "cotchá", a pequena indústria caseira: cerâmica e trançados de palhas de carnaúba (Copernicia cerifera Linneu), cestas de taquaras (Dendrocalamus sp),  chamadas "panacum", fiação de linhas de algodão mocó (Gossypium purpurescens Poir) e tessituras de redes de dormir e de pescar, etc., eram funções das mulheres.

Karl von den Steinen informou que "apesar de toda a caça, o alimento vegetal procurado pelas mulheres tem maior importância por ser conseguido com mais regularidade e em abundância. As mulheres buscam as raízes por intermédio de um pau despontado, trepam com grande agilidade às palmeiras, entre as quais o "oaussú" (ou babassú) (Dorbignya speciosa Martius)) e o "aricuri"" ou "uricuri") (Cocos coronata Martius) tem preferência, recolhem as nozes, cortam na copa a "couve de palmeira" (palmito), procuram as frutas do jatobá e do pequi".

É erro pensar, diz Herbert Baldus, que entre os índios exclusivamente a mulher se dedique à colheita do alimento vegetal silvestre e à agricultura. Ambos os sexos recolhem todo o comestível que podem achar, se bem que entre os povos caçadores as mulheres se ocupem de preferência da colheita de vegetais, que representam o alimento mais importante e que mais regularmente pode ser obtido, enquanto os homens se esforçam para fornecer a carne".

Por serem os cariris caçadores de alto coturno, as suas mulheres se dedicavam denodadamente à cata dos frutos silvestres e das raízes tuberosas, bem como às artes domésticas e da olaria. 

Entre os "Kariris", nenhum ritual solene era observado no matrimônio, isto, é, a nenhuma prova de iniciação matrimonial eram submetidos os noivos, o que não se verificava com os seus parentes remotos os "Karajá", que segundo Lima Figueiredo, para a conquista da noiva o vencedor seria aquele que mais rapidamente carregasse um toro de madeira pesadíssimo, e entre os tupis, os Maués introduziam as mãos do pretendente numa panela cheia de bravíssimas formigas "tocandira".

O matrimônio entre os povos de raça Kariri era realizado, dentro do clã ou fora dele (endogamia ou exogamia), pela compra da esposa por meio da caça que o futuro marido entregava ao pai da donzela ou, então, pelo sequestro da mesma, ou, ainda pelo rapto, quando entre clãs ou tribos diferentes, o que, de certo modo, era motivo de guerra para o jovem guerreiro que se sentia ufano em combater pela sua jovem noiva.

Karl von den Steinen relata o rapto das mulheres dentro da própria tribo de "Borôro", estudada por ele, pondo em destaque a iniciativa do mancebo nesses assuntos amorosos.

Neste velho tema matrimonial, os costumes dos cariris coincidem muito bem com os daquelas tribos charruas, se bem que não adotassem o regime matrilocal e sistema matrilinear.

O padre Antônio Colbacchini discorda de von den Steinen quanto à iniciativa do jovem. "Em geral, diz ele, e na maior parte dos casos, é a mulher que precede ao homem no pedido de casamento. Em certos casos, porém, confessa Colbacchini,  o homem ou somente os pais podem ser a parte pretendente".

"A moça que se sente levada a estimar um moço e que deseja unir-se a ele consulta, em particular, à mãe, se ainda vive, ou à irmã mais velha. Se tal proposta encontra bom acolhimento da mãe, esta tomará parte ativa na satisfação do desejo da filha. Procura, então, indagar entre as suas companheiras e os parentes do rapaz, se a filha seria aceita de bom grado como esposa. No caso afirmativo, a mãe com a filha preparam alguns guisados que julgam ou sabem ser do gosto do rapaz, e a mãe da pretendente ou, na falta, a irmã mais velha, sabendo que o rapaz está em casa, vai ao meio dia procurá-lo, levando em um cesto de vime as iguarias preparadas, para ao mesmo tempo fazer-lhe a proposta e pedido oficial. Entrando em casa, dirige-se ao moço que estará sentado perto do fogo, trabalhando nas  flechas e lhe fará a proposta. Se o jovem quer aceitá-la nada dirá, mas estenderá a mão para receber o presente enviado que porá ao seu lado. E com este gesto está aceito o pedido".

Entre os "Kariri", todavia, era dos jovens iniciativa do pedido de casamento, mediante a oferta à donzela de sua predileção de uma de suas flechas de caça. Com este simples ato estava selado o compromisso formal do matrimônio, cujas comemorações mais importantes eram as dos nascimentos dos filhos, assinalados com o plantio de uma palmeira de uricuri (Cocos coronata Martius), no terreiro da taba, bem como a época da puberdade  das filhas com a primeira fase catamenial, fato que as tornava adrede aptas para a sagrada maternidade, no recesso do clã.

Este fato era solenemente comemorado no seio da tribo na  aparatosa festa de iniciação da menina-moça.

O hábito da couvade não era conhecido entre os povos de raça Kariri. Alguns autores julgam ser este costume, que se  encontra entre vários grupos primitivos, um grau intermediário entre a família patriarcal e a matriarcal.

Herbert Baldus o considera como um ato simbólico do  reconhecimento público da paternidade no recem nascido, "ainda, diz ele, que provavelmente, também, algo religioso nisso coopere".

Nas sociedades primitivas, entretanto, primário era o conceito da divindade. Apesar das cerimônias do culto do Urikuri, a ideia de Deus parece não entrar na concepção religiosa dos aborígenes brasileiros, segundo assevera Couto de Magalhães, em sua obra prima "O Selvagem".

O grupo religioso, ou sobrenatural não chegou a se constituir entre os povos Kariri e até mesmo Tupi, segundo se depreende dos estudos de Alfred Métraux. Os velhos pagés encarnavam um culto embrionário, entre os tupis. Entre os cariris, os prai-á era, indistintamente, tomados entre os indivíduos de determinados clãs indígenas, na tribo.

O culto ou cerimônia do Urikuri só era comum aos homens; as mulheres e as pessoas estranhas a tribo, dele eram excluídas, totalmente, consoante afirma Max Boudin.

As mulheres, todavia, tomavam parte ativa na dança sagrada do toré ou tolé, magistralmente descrita pelo Dr. Carlos Estêvão de Oliveira.

Substituía, portanto, o espírito religioso uma arraigada crendice, uma magia e um manismo, antes mesmo do que um animismo, tal a grande supertição de que eram dotadas os cariris como povos altamente totêmicos, de civilização marginal.

As reuniões cerimoniais do Urikuri e as solenidades do Ajucá, à sombra dos joazeiros sagrados (Zizyphus joazeiro Martius), definem muito bem o espírito de magia existente.

O totemismo se manifesta pelos grupos clânicos nitidamente formados, à base de animais silvestres (aves: araras, papagaios, periquitos, da floresta: guarás, patos, garças, dos alagados; mamíferos: gatos, onças, catetos, e, também, peixes), segundo relata Max Boudin.

Entre as árvores que veneravam se encontram os joazeiros e as palmeiras que sempre as deixavam intactas, onde quer as encontrassem para as cerimônias festivas nos terreiros das tabas ou nas caatingas.

"Durante essas festas, disse Martius, é que se discute e resolve sobre desafios e expedições de guerra contra tribo vizinha, sobre caçadas em comum. Assim, durante meses e anos, o índio passa em caçadas, guerras, festas selvagens e tarefas caseiras, uma vida grosseira, sem ideal, ignorante da alta vocação a que a humanidade tende".

"As mulheres e meninos, disse Fernão Cardim, também os ajudam nestes bailes e cantos; fazem seus trocados e mudanças com tantos gatimonhos e trejeitos, que é coisa ridícula. De ordinário, não se bolem de um lugar, mas, estando quedos em roda, o fazem os meninos com o corpo, mãos e pés. Não se lhes entendem o que cantam, mas disseram-me os padres que cantavam em trova quantas façanhas e mortes tinham feito os seus antepassados".

Para as cerimônias sagradas, as árvores, como os joazeiros copados, eram escolhidos em lugares remotos da caatinga, para a prática secreta do cerimonial do "Urikuri", formalmente proibida às pessoas estranhas.

Diz Max Boudin que "antigamente, o local em que se celebrava o "urikuri" era plantado de coqueiros do mesmo nome que, erguendo-se bem alto acima da caatinga, de longe indicava o recinto sagrado. Devido a perseguições religiosas, no tempo do Império, essas palmeiras foram cortadas pelos civilizados, e o sítio do retiro religioso ficou escondido numa clareira, onde floresce o "juazeiro sagrado", símbolo da união clânica e da vitalidade do grupo. O joazeiro escolhido apresenta duas particularidades: a primeira é não ter espinhos, sendo assim, considerado como amigo e protetor do grupo, embora quase todos os  outros exemplares desta árvore salientem aquela particularidade.

A segunda coisa, estranha para os Fulni-ô, é fato de ter o "juazeiro sagrado" um tronco forte que não ultrapassa  a altura de um metro e oitenta, e de ter quatro galhos enormes na base do tronco. Estes galhos simbolizam os quatro grupos clânicos. Além disso, "o juazeiro sagrado" é o emblema da virilidade da tribo inteira, sendo proibido às mulheres e aos meninos não iniciados se aproximarem dele. Mais adiante, afirma Max H. Boudin que o culto é secreto.

"Cada membro obriga-se a respeitar estritamente os mandamentos religiosos do grupo. A entrada ou a visita ao "Urikuri" é formalmente proibida a elemento estranho e se, por ventura, um deles se infiltrasse na zona interdita, não só correria riscos pessoais mas, também, ficaria impossibilitado de aproximar-se do recinto, devido aos vigias, que logo preveniriam os seus correligionários para esconder os objetos do culto e cessar as danças".

O Padre Alfredo Pinto Dâmaso, muito benquisto dos índios "Fulni-ô", diz Boudin que, uma noite em que se celebravam os festejos, quis passar entre os mesmos, afim de estudar o seu ritual sagrado. Os selvícolas não puderam recusar a presença do Caraiba amigo, porém, lhe destinaram uma rede de algodão confortável, armada numa cabana do recinto sagrado, e aguardaram que o reverendo, cansado de esperar as cerimônias, adormecesse placidamente... Nada de sensacional ocorreu naquela noite, permanecendo assim secreto o ritual".

E Comenta Boudin: "é estranho que estes selvagens e até os que são mais civilizados nunca revelem a sua própria religião a pessoas estranhas, embora afastados da tribo".

Quando numa exposição, mineralógica e etnológica que tive a oportunidade de realizar em Garanhuns, no Congresso das Vocações Sacerdotais, em 1952, comemorativo do jubileu episcopal de D. Juvêncio Brito, no salão do Arquivo da Diocese, na Escola Profissional, conversando com o Padre Alfredo Dâmaso, mostrei-lhe uma fotografia dos índios "Pankararú" ou "Pankarú",  em trajes de cerimônia fabricados em embira ou de fibras do caroá, com que os "prai-á" dançam no ritual sagrado do "Urikuri".

O Padre Alfredo Dâmaso, então, incontinente, contou-me a revolta dos "Fulni-ô" contra os "Pankarú", quando souberam que os seus irmãos vizinhos, de Jatobá de Tacaratú, haviam revelado segredos do culto e se haviam deixado fotografar por pessoas profanas, estranhas à tribo.

É-me grato dizê-lo que foi devido às tais fotografias dos "Pankarú" em vestes talares, que consegui identificá-los com os  "Karajá", dos quais possuo, também, gravuras colhidas alhures dos "prai-á" destes selvícolas de Mato Grosso, nos seus rituais sagrados.

E como tinha em mãos o belíssimo trabalho "Durch Central Brazilian" de Karl von den Steinen, no qual o autor considera os "Karajá", descendentes dos povos primitivos do Peru, ancestrais dos Incas, tirei e ilação de que os "Kariris" descendiam dos "Karajá" e provieram sem dúvida dos Andes, da região do  lago Titicaca, pertencente àquele país de civilização marginal tão característica.

As famílias dos cariris eram numerosas, em virtude da prolificidade das mulheres.

Martius, referindo-se aos das ribeiras do São Francisco, disse que ali "a natureza cercou o homem de numerosos inimigos e parecendo querer indenizá-lo, prodigalizou-lhe o necessário para a vida simples, em toda parte, concedendo-lhe a bênção de numerosa prole. É extraordinária a fecundidade das mulheres, e o crescimento da população, neste distrito, é um dos fenômemos mais prodigiosos".

"Nesse sentido, é notável o fato de serem eles muito mais prolíficos, comparados com outros índios, calculando-se a média de seis indivíduos em cada família".

Como se depreende da asserção de Martius, em regra, as famílias  se compunham de meia dúzia de indivíduos. Os cariris, contando na generalidade centenas de famílias, chegavam a atingir milhares de selvícolas, no total da população das tabas.

Estas compunham-se de choupanas rústicas de madeira e palha, ou de taipa, construídas no terreiro limpo e aplainado. As palhoças ou ocas, grandes e retangulares, em meia água, sem compartimentos internos, destituídas de janelas, somente dispunham de uma porta de entrada, na frente, e outra de saída, nos fundos.

O Padre Cardim informou que "moravam os cariris, antes de sua conversão, em aldeias, em umas ocas ou casas mui compridas, de duzentos, trezentos, ou quatrocentos palmos, e cinquenta de largo, pouco mais ou menos, fundadas sobre grandes esteios de madeira, com as paredes de palhas ou de taipa de mão, cobertas de folhas de pindoba".

A nação Kariri, que contava com vinte e duas grandes tribos, no território nordestino, orçava em algumas dezenas de milhares de indivíduos.

Crescia, naturalmente, em população e índice demográfico, antes do advento dos tupis e dos colonos lusitanos.

Era o dinamismo horizontal e vertical da raça, resultante de sua expansão lenta e secular dentro das linhas naturais do seu território (polígono das secas), sinal evidente até então de prosperidade e de progresso.

Os choques bélicos destes povos com os vicinais tapuias e túpicos aferiram-lhe o valor étnico e linguístico, pela sobrevivência do idioma e formação de novas etnias, que caracterizaram os  Gê-Kariri, quando dos recontros com os primeiros e sequestros e  rapto de suas mulheres, como houve exemplo com as tribos lindeiras no baixo São Francisco, como os Akonan de Penedo e Karnijó do Panema, segundo Mário Melo.

Fato histórico ou social semelhantes ocorreu nas plagas amazônicas, entre Caribes e Aruak. Uma civilização marginal impondo-se a outra pela guerra e extermínio dos homens e consequente incorporação de suas mulheres que não souberam, ou não puderam manter, através dos tempos, as tradições culturais do seu povo mais culto, com a arte magnifica, de gregas helênicas, da cerâmica marajoara, como assevera Angione Costa, na sua obra "Migrações e Cultura Indígena".

Este é o quadro real da evolução cariri, antes do advento dos tupis e, portanto, antes do seu retraimento forçado do Litoral para o Sertão.

Estabelecidos os Kariri (Kariú) na Serra dos Garanhuns, os fatos correram de modo adverso, isto é, a vida decorreu-lhes de certo modo cheia de incidentes.

Acossados de um lado pelas guerras contínuas e ferozes que lhes moveram os tupis e tapuias, dentor das selvas, e, por outro, pelos efeitos causticantes das secas, nas caatingas, além do encontro nas ribeiras do São Francisco dos colonos lusitanos que  subiam o grande rio, os cariris não se advertiram de sua involução social, ou melhor, da retrogradação de sua cultura ancestral, em face das derrotas bélicas e do nomadismo constante, devido a ação nefasta dos cataclismos regionais, pela infixidez das tribos e mortandade pela guerra e pela fome, ocasionando de súbito o decréscimo dos índices demográfico e cultural - a aculturação, portanto, dos povos de lígue Kiriri, pelo decorrer dos séculos em fora.

Tal era a situação de sua decadência tribal, quando do aparecimento dos sertanistas intrépidos (portugueses e mamelucos), na sua penetração para o Oeste, galgando o vale do Alto São Francisco, no primeiro quartel do século VXII.

No seu caminhar incessante para o sertão, os colonizadores lusos, segundo Capistrano de Abreu defrontaram os selvícolas, entre os quais sobressaiam os cariris, antigos dominadores do Litoral, então acuados entre o São Francisco e a Ibiapaba. E ao contato demorado com os ádvenas, na guerra ou na paz, resultou, maior a sua aculturação, devido à miscegenação e bilinguismo, ou à escravização e extermínio quase total destes povos de características étnicas e eugênicas tão notáveis.

Os selvícolas que não se submeteram aos sertanistas foram batidos em múltiplos recontros, nas ribeiras do grande rio, e escravizados e mortos ou rechassados  mais para o interior dos  altiplanos.

Houve, então, nesta fase da marcha da civilização para o Oeste, o maior extermínio de um povo que a História do Brasil registra - os indígenas perseguidos pelos colonos se aprofundando nas caatingas, ou se encastelando nas serras, em fuga, pelo pavor que lhes causavam e de que davam tão tristes notas, no dizer de Luiz Amaral, os brancos civilizados, os "caraibas" colonizadores.

Deste modo foi iniciada a fase do pastoreio e assegurada a conquista da terra, instituindo o criatório em grande escala, que havia de dar origem ao chamado "ciclo de couro", à histórica fase dos currais, e imortalizar os senhores feudais da Casa da Torre - Garcia d'Ávila, "ad reliqua".

"Um grande sesmeiro, Garcia d'Ávila, senhor da Casa da Torre, diz Oliveira Viana, com as suas duzentas léguas de testada à margem do rio São Francisco, constitui-se na segunda metade do II século, o centro de um prodigioso movimento de expansão pastoril na direção do Nordeste. Os engenhos e currais não se assentam em terra pacífica e amiga. Os brancos peninsulares encontram, não uma terra deserta, como os Açores, mas uma terra povoada, desde os litorais até o mais profundo dos  sertões, de numerosas tribos selvagens. Com estas tribos, quase todas de temperamento guerreiro, os colonos brancos são obrigados a abrir luta, ou para apropriarem-se das suas terras,  ou para apoderarem-se das suas mulheres, ou para escravizarem os seus elementos válidos"..

Fonte: Terra dos Garanhuns / Professor, escritor e historiador / João de Deus de Oliveira Dias / Garanhuns, Janeiro de 1954. Foi mantida a grafia da época.

Foto: Tipo de Casa Kariri /Lula Samuel

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