quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Souto Dourado fala do pai em seu centenário

ORAÇÃO PROFERIDA POR LUIZ SOUTO DOURADO NA CÂMARA MUNICIPAL DE GARANHUNS EM 29 DE NOVEMBRO 1983

De uma das três vezes onde ele ocupou o cargo de Prefeito, saiu justamente da Presidência do antigo Conselho Municipal. Depois como vereador eleito em várias legislaturas, voltou a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal. Identificado e participante dos dois Poderes, os quais exerceu com eficiência, zelo e probidade, esta homenagem - se ele fosse vivo haveria, estou certo, de tocá-lo de forma mais profunda. Foi aqui que ele começou o seu aprendizado, o seu caminho, a sua meta; aqui começou a sentir os primeiros sinais, as primeiras manifestações, o seu noviciado de dedicação quase religiosa aos problemas da sua terra.

Em artigo publicado no DIÁRIO DE PERNAMBUCO, a respeito do Centenário de Euclides Dourado, assim nos expressamos:

"O menino vira o seu pai - que se vivo fosse completaria 100 anos agora a 26 de novembro - sair da sua casa para entregar aos revolucionários de 30 as chaves da Prefeitura de Garanhuns, que ocupava pela terceira vez; vira também no dia seguinte, ele  sair normalmente, tranquilo e sereno, a visitar amigos e parentes. Tinha certamente adversários (aquela revolução empolgava todo mundo), mas inimigos, não. Deixara uma obra administrativa que ainda hoje - depois de 53 anos - é reconhecida e louvada (e esta homenagem da Câmara dos Vereadores, é um reconhecimento que muito honra a sua memória). Dela têm falado jornalistas (como José Francisco de Souza, Humberto de Morais, Ulisses Peixoto Pinto), cronistas do seu tempo, como Alfredo Vieira, e historiadores de Garanhuns, como João de Deus de Oliveira Dias e Alfredo Leite Cavalcanti.

Diz este último, no volume II da sua "História de Garanhuns" que "o Prefeito Euclides Dourado fez tornar transitáveis por veículos - automóveis - as estradas que ligavam a cidade às vilas e municípios próximos; que construíra a primeira avenida; que fizera "o primeiro jardim público" e "um parque Municipal"; que  com ele "foi fundado o bairro do Arraial (hoje Heliópolis) ficando abertas as avenidas e ruas; que doou terrenos para as construções mais importantes do novo bairro: o Colégio 15 de Novembro e o Sanatório Tavares Correia; que "foi construída a Praça Dom Moura", que "realizou a primeira exposição de café"; que fez chegar "o primeiro avião" que desceu no interior do Estado de Pernambuco; que atraiu a primeira empresa de transporte coletivo, "já com a denominação de Empresa Auto Viação Garanhuns"; que "foi construído o Cemitério São Miguel", que construiu o Matadouro", conseguindo ainda com o Governo Estadual o Patronato de Menores e a Estação Experimental de Café - estas duas realizações citadas no livro de Alfredo Vieira, "Garanhuns do meu tempo".

Mas não obstante tantas obras, a Revolução de 30 fizera do meu pai um exilado no seu próprio País e Estado, forçando-o, pelo ambiente  que se  criou, a transferir-se para Recife com a família numerosa (nove filhos, alguns menores ainda); onde residimos dois anos, a princípio, num casarão alugado à família Barreto Campelo, na Praça da Torre, depois da Rua da União, por trás da Assembleia Legislativa, numa casa já demolida.

O "exílio" começava a alongar-se, a saudade começava a doer. Meu pai sempre dizia e escreveu numa carta que "a cidade, com as suas montanhas e o seu céu, não tinha culpa de nada". Foi quando voltamos. E a cidade, como a desculpar-se, recebeu o antigo Prefeito - que nela havia nascido quando a cidade tinha apenas 8 anos, sendo quase coincidentes os seus centenários - com respeito, carinho e novas missões.

Fez dele então Presidente da Associação Comercial de cuja administração resultou o prédio próprio da entidade; Presidente do Esporte Clube, quando realizou importante Feira de Amostras com o pai hoje publicitário Carlos Leite Maia; Presidente da Sociedade Cultural Musical, recebendo a cidade nomes nacionais, como Carmem Gomes e Reis e Silva; voltou à Câmara dos Vereadores, que antes já presidira. Se teve mágoas da cidade nunca demonstrou, deixando marcas em cada nova missão que lhe era confiada.

Em 1937, na instauração do Estado Novo, meu Pai foi chamado ao Recife, correndo célere a notícia que fora nomeado prefeito. Do telegrama que passou à família aquela palavra estranha - peremptório - ficou na minha lembrança, vagando, sem sentido, sem significado. Boa coisa não era . O que eu não soubera ler no telegrama, estava escrito na tristeza do rosto do meu Pai. É verdade que muitos amigos foram recebê-lo na entrada da cidade. Mas aquela alegria aparente dos amigos não enganava a sensibilidade do menino: meu Pai voltara derrotado, sem o cargo de Prefeito; o Interventor Federal cancelara o Ato. Dera-lhe um cargo melhor em vencimentos - o de Presidente do Instituto de Café de Pernambuco. Mas não era o cargo que ele desejava: não sei mesmo qual trocaria para ser  novamente Prefeito da sua terra. Acho que nenhum mesmo.

Nunca andou armado; nunca levantou a mão ou a voz para ninguém. Foi sempre humilde, mesmo no poder. Popular, nunca foi visto sem paletó ou gravata. Mantinha a mesma postura, tanto nas solenidades como nos carnavais, sempre junto à banda de música que criara. Cavalheiro e educado até nos momentos finais. Na verdade foi mais um administrador no melhor sentido de hoje, do que um coronel (como aliás era chamado) à moda antiga.

Anos depois (1969), já tendo sido deputado várias vezes e Secretário de Estado, resolvi disputar a Prefeitura de Garanhuns. Na opinião de uns, eu iria andar para trás; para outros, iria descer. Somente eu sabia o que queria além do desejo de servir, queria ser não o Prefeito que meu Pai fora: para tanto julgava-me incapaz, mas o Prefeito que ele não fora em 1937; queria trocar pelo voto popular o ato de nomeação, tornado sem efeito. Só a alegria que senti poderia resgatar a tristeza que vi no rosto do meu Pai. Agora, posso imaginá-lo sorrindo a entrar no seu Centenário.

Foto: Euclides Dourado.

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