domingo, 16 de janeiro de 2022

Tardes em Garanhuns


João Marques | Garanhuns

A tarde vem de cima. Primeiro, nas nuvens que vão ficando mais longe, ela vai ensaiando a passagem. O sol caindo (como notamos mais os sol, quando cai!), vai baixando a grande pálpebra azul num enlevo de calma. Como umas grandes asas que, vagarosas, vão caindo, caindo até o pouso, fechando-se no recolhimento do pequeno passarinho. As copas das árvores mais frondosas, antes iluminadas, vão se tornando pálidas e, amigas da tarde, anoitecem logo, quando cá fora ainda é dia. É festejada pelo piado das aves e, no painel do crepúsculo, pelas tintas da despedida.

A tarde - uma passagem, melhor definido a vida - traz a lassidão, o encaminhamento ao sonho (noite). Uma ponte ligando dois países distintos: a manhã, no que os homens e os pássaros partem em direção ao sol, a noite, no que os pássaros e os homens esperam a visita das estrelas. Na tarde, os campos florescem pétalas (penas e dedos) voltados para o chão.

A tarde é real, possível e, inevitável, a sua passagem. Ela vem de cima e atinge todas as coisas: os edifícios, as árvores, os velhos, que, por seus olhos de grandes ruas, vem se deformando a silhueta do que ficou distante. O azul, que era fixo no céu e no horizonte, começa a se espalhar por toda parte, chegando mais perto, até na roupa do transeunte que, apressado, queria fugir da noite. As ruínas de uma antiga casa de alegria, na tarde, parecem ser mais velhas. Uma criança que brincasse entre elas pareceria mais uma miragem, uma renovação do velho, um entardecer mais moço.

Na realidade, a tarde é sempre a tarde. No verão ou no inverno, ela sempre tem a mesma filosofia. Muda de lugar ou de tempo, contudo, é sempre a mesma coisa. O sentimento não muda. todos nós ficamos cheios da tarde e, entardecendo, todo dia fazemos como as árvores. Anoitecemos antes mesmo que a noite chegue, dominante, escondendo o rosto da paisagem.

É contagiante. Originalmente, temos todos os três tempos em nossa alma: a manhã, a tarde e a noite. São contíguas como, em nosso corpo, a parte baixa, média e alta. As manhãs estão para nossas pernas andantes, as tardes para comoção do peito e as noites para a iluminação da inteligência. Tudo na tarde é mais sensível. Tudo tem sombra. As pedras esmaecem, enquanto as janelas são abertas para o lado do poente, deixando que a luz fraca da tarde delineie figuras de coisas que envelhecem. É a estação do amadurecimento. As participações nas manhãs, não raro, são as experiências da tarde e, depois, as compreensões da noite.

Tarde boa e bonita. Sem falar na poesia-do-por-sol que faz Garanhuns mais vesperal. Garanhuns-Tarde, para falar de uma tarde que desce, ainda, pelas ladeiras e vai anoitecer as fontes. A tarde vem de cima...

*João Marques é poeta, escritor, redator/diretor do jornal O Século, autor do Hino de Garanhuns e ex-presidente da Academia de Letras de Garanhuns - ALG.

Foto: Parque Euclides Dourado. Créditos da Imagem: Viagem e Turismo - Abril.com

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