sábado, 1 de janeiro de 2022

Teodora Cabocla - A Primeira Evangélica em Garanhuns


Essa fervorosa e dedicada trabalhadora da Igreja Presbiteriana de Garanhuns, a índia Teodora "Cabocla" é desconhecida dos evangélicos. Da tribo caeté, era pessoa simples e analfabeta. No entanto foi a primeira pessoa a se converter ao Evangelho, em Garanhuns, tendo vivido uma experiência espiritual tão profunda, que merece ser recontada, e registrada.

Pela descrição feita pelos missionários Henry J. MacCall, Eliza Reed, e alguém com as iniciais L.D.H., Teodora sobrevivia do pouco que plantava ao redor de sua choça, e das galinhas que criava. Fazia também trabalhos manuais, tecendo esteiras de palha e cestos de vime, ou carregando água, e especialmente socando café em um pilão, para as pessoas da cidade. Antes de se converter, fora uma inveterada cachaceira e arruaceira, que andava vestida em  andrajos sujos.

Os caetés foram os índios antropófagos que devoraram o Bispo D. Fernando Sardinha e seu séquito, quando este, a caminho de Portugal, naufragara na costa da Bahia. Zangados com essa falta de respeito dos caetés à Igreja e ao seu prelado, os portugueses pediram permissão ao Papa para lhes fazer uma "guerra santa". Dada a devida permissão, a guerra foi conduzida, visando o total extermínio deles. Os que sobreviveram à chacina fugiram para o interior, alguns indo se refugiar no Amazonas, a milhares de quilômetros de distância. Outros se contentaram a fugir para a Serra da Borborema, que se estende pelo interior do Nordeste, da Bahia até o Ceará.

Durante a invasão holandesa, muitos índios nordestinos se tornaram aliados dos batavos. Alguns abraçaram o calvinismo, tendo um pequeno número deles ido à Holanda, para estudar teologia, como Caraopeba, primo de Felipe Camarão, de quem era rival pela chefia da tribo. Caraopeba se tornou predicante (pastor) da Igreja Reformada Holandesa no Brasil. Entre esses índios, amigos dos holandeses, encontravam-se os caetés.

Com a expulsão dos holandeses, mais uma vez os caetés foram vítimas da sanha portuguesa, pela sua "traição". Em face dessa nova perseguição, mais uma vez fugiram para os sertões. No entanto, conta-nos o Padre Serafim Leite, em sua História dos Jesuítas no Brasil, que os índios convertidos ao calvinismo pelos holandeses, por um longo tempo mantiveram uma visão protoprotestante e  "cristocêntrico" da religião, causando grandes dores de cabeça aos  missionários jesuítas, que os tentavam recatequizar.

Os índios caetés guardaram, por séculos, grande ressentimento contra os portugueses, pela guerra de extermínio que lhes fora feita. Deduz-se isso de seus cânticos a tradição oral. O pastor Antônio Gueiros, em suas andanças pelo sertão nordestino - na década de  1910/1920 - aprendeu um "coco", em verso de pé-quebrado, cantando e dançado pelos caetés na Serra do Teixeira, na Paraíba, que dizia:

Tomara não ir pro Céu

Pra São Clemente não ver.

Dele não quero saber,

Nem quero sua amizade.

A interpretação desse "coco" era evidente, afirmava o pastor Antônio Gueiros. "São Clemente" era o Papa Clemente VI, que, quatro séculos antes, permitira o extermínio dos caetés. Por isso, estes não queriam jamais conhecê-lo, ainda que fosse no Céu, para onde se recusavam ir, caso este Papa lá se encontrasse.

Perto de Garanhuns havia um grande número de caetés, estabelecidos em uma espécie de reserva. Esta se transformou na cidade de Caetés, hoje famosa, por ter sido o lugar onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nasceu.

A missionária Eliza Reed, em artigo publicado em 1902, contou a história da índia Teodora "Cabocla". Esta afirmou que a Teodora fugira de sua tribo após uma rebelião, que fora "pacificada" pelas autoridades. O termo "pacificar" era um eufemismo, que na realidade queria dizer exterminar.

Lembrava Antônio Gueiros que Teodora morava em uma tapera, e mantinha um roçado perto da estação ferroviária, ao lado da antiga "Rotunda", edifício em forma de uma meia esfera, onde eram guardadas as locomotivas. A choça era localizada mais ou menos onde hoje é o Mosteiro de São Bento. A cidade de Garanhuns era o final da linha da Ferrovia Sul de Pernambuco, também conhecida como a "Great Western".

Há quatro versões sobre a conversão de Teodora Cabocla, todas elas muito parecidas. A primeira contada pelo pastor Antônio Gueiros, seu contemporâneo, está relacionada à visita de um colportor "estrangeiro" - talvez o português Manuel José da Silva Vianna - a Garanhuns. Este tentara vender Bíblias, Novos Testamentos e literatura evangélica na feira semanal. Foi expulso de lá a pedradas.

Teodora apiedada do estrangeiro dera-lhe abrigo em sua tapera, até que ele pudesse fugir no trem do dia seguinte. A estação ferroviária ficava fora da cidade, que na época contava com apenas 17 ruas. Antes de ir embora, Vianna teria dado à sua protetora um Novo Testamento. Teodora passara então a pedir às pessoas que lessem o livrinho para ela, tendo se tornado, dai em diante, "uma devota de Jesus Cristo".

Henry J. McCall, o primeiro missionário evangélico em Garanhuns - chegando em maio de 1894 - lembrava-se bem dela. Teodora fora a pessoa que levava um presente de ovos, quando ele e o casal que o acompanhava, David Law e senhora, tinham se trancado no local de cultos, para se protegerem da multidão que os queria expulsar da cidade.

Teodora chegara ao local levando de presente uma pequena cesta de ovos, e dizendo: "essas pessoas são meu povo". Isso causara grande hilaridade entre os circunstantes. Como podiam aqueles estrangeiros ser parentes daquela índia maltrapilha? Não sabiam tais pessoas que aquela índia há nove anos orava a Deus, que  mandasse alguém para lhe explicar os segredos do livrinho que ela possuía. E ali estavam eles.

A conversão de Teodora, como contada por Eliza Reed e o autor  não identificado L.D.H., envolvera um filho de Teodora, chamado Miguel. Esse rapaz, soldado da polícia militar, se tornara membro da  igreja do pastor John Rockwell Smith, no Recife. Quando ocorreu uma nova rebelião dos índios caetés, ele fora enviado com o destacamento militar, encarregado de "pacificar" sua própria tribo. Este confidenciara a Rockwell Smith que aproveitaria a oportunidade para evangelizar sua mãe Teodora.

De acordo com a versão de Eliza Reed, Miguel trouxera consigo um Novo Testamento, que passara a ler para Teodora, e a pregar-lhe o Evangelho. Ao ir embora, Teodora suplicara que ele lhe desse aquele livrinho, que ela passara a "ler", através de pessoas alfabetizadas. Estas liam o livro para ela, em troca de seus serviços domésticos.

Teodora, como todos os índios, antes de se converter praticava uma espécie de espiritismo primitivo, que envolvia "baixar" os espíritos dos ancestrais. Miguel ensinara-a chamar apenas pelo espírito de Jesus Cristo, em vez dos espíritos dos mortos. E assim ela passou a fazer, sempre orando a Cristo e pedindo sua presença. Rogando também que Ele mandasse alguém para lhe ensinar o Evangelho. Isso ele fez por nove anos. De modo que, em maio de 1894, quando ouviu McCall ler do mesmo livro que ela tinha, e explicando o Evangelho, teve certeza de que Jesus tinha respondido suas orações, e  que aquele era seu povo, da mesma fé que ela nutria em Cristo, mesmo sem entendê-la completamente.

McCall ficara apenas por alguns meses em Garanhuns. Foi logo substituído, em 1895, pelo Dr. William George Butler e esposa. Com a chegada desse casal missionário, Teodora compreendeu, ou imaginou que agora tinha uma família; que aquelas pessoas eram as que ela tanto pedira a Deus. Resolveu então defender os Butlers da  sanha da população de Garanhuns, levando-lhes produtos de sua roça, e sentando-se à porta deles, para servir de barreira aos que  jogavam pedras e insultavam os missionários.

Essa ligação com os Butlers causou-lhe grandes problemas, pois  estava tomando a defesa de um casal odiado pelos antiprotestantes da cidade. Sempre pregando o Evangelho a todos, e distribuindo panfletos, ela foi um dia esbofeteada por um indivíduo, que se sentiu melindrado por suas pregações em público. Urrando de ódio, assim contava Antônio Gueiros, ela buscou o Dr. Butler, que a aconselhou: "Perdoa, Teodora, Jesus manda perdoar os inimigos. Coloque  isso na mãos de Deus".

Tempos depois, Dr. Butler foi chamado com urgência para atender aquela mesma pessoa que esbofeteara Teodora. A pessoa morreu, e Dr. Butler então afirmou: "Sabe Teodora, cometemos um grande erro. Deveríamos ter ido à polícia, ou tomado alguma providência contra aquele homem. Nós colocamos tudo nas mãos de Deus, mas a mão Dele é por demais pesada".

Eventualmente os Butlers convidaram Teodora para morar com eles - já que ela tinha se colocado permanentemente à porta dos  mesmos. Ela então se aboletou na sala principal da casa - que era utilizada para os cultos - onde passou a dormir. Do ponto de vista daquela índia caeté, aquele era o povo que Jesus mandara para ensinar-lhe o Evangelho. Aprendeu o suficiente para pregar aos outros índios na cidade, tendo trazido três deles para o seio da igreja. Mais ainda, quando a igreja foi normalmente estabelecida, em 1900, Teodora professou a fé, e foi membro do primeiro grupo de fiéis aceitos na comunhão da mesma. A modificação de sua  vida fora completa: abandonara o vicio da cachaça, deixara de praguejar e brigar com as pessoas, e passara a vestir roupas limpas e bem apresentadas. Tornara-se outra criatura.

Cinquenta anos depois, em 1947, em correspondência com Antônio Gueiros, henry J. McCall perguntou o que teria acontecido com Teodora Cabocla. Antônio Gueiros respondeu que ela passara a viver uma vida dedicada à igreja, e que fora um grande exemplo para todos, até mesmo na hora de sua morte. Antes de morrer, contou o pastor Antônio Gueiros, Teodora tivera uma visão da presença de anjos que a teriam ido buscar. Sorridente, ela levantara-se da cama e dissera: "Esperam, eu vou com os senhores", tendo então morrido. Uma serva fervorosa merece ser lembrada nos Anais da Igreja Presbiteriana de Garanhuns.

Fonte: Trajetória de Uma Família - A História de Família Gueiros / David Gueiros Vieira / Primeira Edição Julho de 2008. Acervo: Memorial Ulisses Viana de Barros Neto.

Foto: Presbitério de Pernambuco, 1909 Rev. Antônio Gueiros primeiro da esquerda na última fila. Rev. Jerônimo Gueiros primeiro da esquerda na segunda fila. Dr. George Butler primeiro da esquerda sentado. Dr. William Thompson quarto da esquerda sentado.

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