quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Toque do passado

João Marques | Garanhuns

Tempo é medida. Espaço e movimento. Ao espaço que vem, o futuro. Ao que move infinitamente, o tempo passado. A passado avança, estendendo-se cada vez mais. Futuro não é tempo, é espaço. Teoricamente apenas, ele existe. É projeto e pode ser ilusão. O tempo futuro não realizado será ilusão. Só o tempo passado é real. Parece feito, realizado. Concreto. E continua existindo definitivamente. O que não aconteceu, embora esperado, é abstração. Abstração, também, é o que se planeja. Não existem limites, contudo, entre essas duas razões. Das possibilidades ou das inexistências. Ser ou não ser, a velha questão. O ser é relativo, contudo. O não ser, também. O espaço sempre há. Sempre é. Uma porta aberta por onde se entra para o passado. O movimento é o que determina a existência. E eu penso que são muitos (ou infinitos) os movimentos.

O passado representa o movimento percorrido. O tempo que é. E personifica-se nas coisas. Penetra tudo e, envolvente, se expõe. A medida (tempo) se estende implacável e mede tudo. Quando mais intensa for, mais o tempo conta tempo. Velho, o tempo, para quem estipula idades. Começos e finais. A vida é principiada no "passado" e  nunca dele sai. Como se o Criador em sua obra constante cuidasse apenas do tempo passado. O "depois", não atingido, é invenção - palavra mágica. Igualzinho ao mágico que vai tirando lebres brancas da cartola vazia. É a realidade que acompanha o homem (ou o homem acompanha).  O tempo passado. Realidade. Tudo o que há-de-vir será indubitavelmente guardado nele. A eternidade - como acredito - é feita do grande passado. Sem mais futuro (inexistente este movimento). Um passado íntegro, único, em toda sua plenitude.

Assim. Escritos os dois parágrafos acima, passo à crônica propriamente. Antigas horas. O título que me parecia melhor. Mas (como foi) se deu a relevância do passado. relevado, fato das horas soadas. De um tempo real, acontecido. Marcado com toques sonoros. Como fossem anúncios de clarins da Criação, retumbantes. Sons agradáveis. De profundidades na alma, sons que me ditaram poesia. Aos ouvidos e aos olhos. Passado que  me fala agora.

Os meios-dias das doze badaladas. Movimentos que  percorriam estes espaços da avenida. Os sinos da Catedral tocavam. O relógio da Prefeitura tocava. O rádio de casa tocava as doze batidas. Um, dois... doze. O tempo do meio-tempo chegava. O passado chegando e sendo anunciado. A contagem das doze badaladas. Uma a uma, numa extensão voltada para o antes. O passado começando ou recomeçando na avenida. Ao meio-dia. Uma descida encantada. Admitindo, numa figura exclusivamente poética, que o tempo vem de cima. Do impulso dos astros. Do sol movente. Das elipses universais. Descida. Brandindo relógios, sinos e torres. Como o que vem e permanece. Fica. Misteriosamente. Porque tudo se encontra. A gente se cumprimentando na avenida. Avenida dos meios-dias e das normalistas. Estudantes deixando os colégios. Passeios às horas da anunciação. Passos e badaladas alegres. Iam e vinham. A façanha de um tempo presente e passageiro. O mais passageiro dos mortais. Era um passado, na jovialidade de todos, que ia começando. Na minha avenida. Como me  lembro de tudo isto. Tantos segredos por estes espaços floridos. Tempos passados. Foram ficando incrustados nos espaços ocupados. As badaladas. Os meios-dias antigos. Quando passo hoje, recolho essas lembranças. Estão pela avenida. Os sinos da Catedral, o relógio da torre da Prefeitura, o rádio de casa. E os jovens que passam, itinerantes do espaço. Feitos pêndulos do tempo.

*Escritor, poeta, jornalista, editor/redator do jornal O Século, autor do Hino de Garanhuns e ex-presidente da Academia de Letras de Garanhuns - ALG.

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