quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Um avião no céu de Garanhuns em 1927


Alfredo Vieira*

No de 1927, mês de outubro, semana de 11 à 16 de outubro, Garanhuns viveu um dos acontecimentos mais importantes de sua vida política econômica e social.

Aconteceu nos amplos salões dos Armazéns da Avenida 13 de maio, e, nos salões do Paço Municipal o seu Congresso Comemorativo do 2º Centenário do Café e, em anexo, Exposição do produto de vários procedentes do Brasil, notadamente do Estado de Pernambuco.

O Congresso organizado pela Secretaria de Agricultura, contou com o apoio da Associação dos Agrônomos do Nordeste e outras entidades ligadas à cultura do café.

Inaugurada no dia 11 de outubro com a presença do Governador do Estado, Dr. Estácio Coimbra, o Secretário de Agricultura, Dr. Samuel Hardman, autoridades estaduais e todo o mundo oficial de Garanhuns e  regiões vizinhas e também todos os plantadores de café, dos mais importantes como os irmãos Figueira, proprietários dos melhores cafezais da época, no distrito de Brejão e dos pequenos e modestos agricultores dos Sítios e outras propriedades da região que ali apresentaram seus "stands" e também realizaram negócios.

Estávamos vivendo a fase áurea do café, e Garanhuns, era o maior centro produtor de "cafés finos", sendo seguido por Vitória do Espírito Santo.

Acostumado a ouvir falar de cafezais de São Paulo, tínhamos naquela época, a impressão de que o melhor café do Brasil era o de São Paulo. Puro engano. O melhor café era o que se cultivava nas fazendas do Cel. Francisco Figueira, moradores do próspero distrito de Brejão, do município de Garanhuns.

A comitiva oficial, chegou a Garanhuns em trem especial de Great Western, à frente o Governador Estácio Coimbra, representantes de associações de classe e representantes de todos os jornais do Recife.

Visitei a exposição e ouvi alguns debates no Paço Municipal, em companhia dos meus tios Antônio Francisco da Silva Vieira, de Lagoa dos Gatos e Samuel Soares, de Canhotinho, chegados para tomar parte nas festividades. O meu pai, Alfredo da Silva Vieira, Promotor Público na época, estava doente, com uma das suas continuadas crises de "asma  cardíaca", porém recebeu em sua casa a visita do Governador Estácio Coimbra, representado pelo seu Oficial de Gabinete, o acadêmico de direito Antiógenes Chaves. Recordo-me de sua postura fidalga e maneira atenciosa com que palestrou alguns minutos com o meu pai, trazendo-lhe o abraço cordial e político do Governador.

Anos depois, já estudando no Recife, encontrei o Dr. Antiógenes Chaves, próspero e brilhante advogado no foro do Recife e diretor do  "velho" Diário de Pernambuco, com quem mantive uma sólida amizade.

A Promotoria Pública, naquele tempo, era cargo essencialmente político. Daí, a visita Governamental a meu pai. Se o acontecimento da Exposição, trazia prestígio político, econômico e social para a Região, ocorreu ainda fato importante para uma cidade interiorana com Garanhuns. Chegaria como chegou, como parte integrante das festividades, um avião, que aterrissou de mansinho no Parque de Eucaliptos, depois chamado "Euclides Dourado".

Era uma manhã radiosa de sol de outubro e toda a cidade se deslocou a pé, de automóvel (já havia automóvel em Garanhuns), do centro e  de suas ruas mais distantes para o parque, onde iria aterrissar o avião vindo do Recife. Havia no Parque uma área descampada, que servia de campo de futebol e está área recebeu tratamento especial para a aterrissagem.

Segundo os jornais da época (A Província, edição de 13 de outubro de 1927), o aviador Antônio Reynaldo Gonçalves, que usava o apelido de "Roland" estivera na semana anterior ao acontecimento em Garanhuns, na companhia de Raphael Xavier, diretor do Departamento de Estatística do Estado  e escolhera o parque para o pouso só seu avião. ele aceitara convite do prefeito Euclides Dourado para voar até Garanhuns, como parte integrante do programa oficial das festividades.

Era um domingo, cheio de sol, céu claro e sem nuvens. Cerca das 10 horas, apontava nos céus de Garanhuns, pela primeira vez um avião pequeno, monomotor, trazendo o nome de "Garoto" pintado em sua "nacelle" e pilotado por Roland, seu proprietário e aviador que após a aterrisagem, saltou de macacão branco e foi recebido com palmas pelas autoridades presentes. Para melhor indicação do local, foi acendida uma fogueira no início do campo, pois a fumaça que desprendia dos matos verdes colocados a propósito, marcava o início da pista improvisada. Foi um dia de festa para a cidade, pioneira acredito em todo o Nordeste, em receber um avião, pequeno embora, mas avião de verdade... que ficou em Garanhuns durante vários dias, fazendo passeios para os mais corajosos e que pagavam por cada passeio 20$000 (vinte mil réis). Muito dinheiro na época. Valia porém, o fato de se dizer ter "viajado" ou " passeado" de avião, numa época que ainda engatinhava a nossa aviação civil. Era "status". Garanhuns, foi assim, pioneira no acontecimento, sobretudo, porque, o "Garoto" desceu de mansinho sem qualquer atropelo no seu aprazível parque de eucaliptos, numa pista improvisada, mas preparada com todos os cuidados da época, a cargo de funcionários da Prefeitura local.

Fui testemunha do acontecimento. Estava no Parque, para onde fui no automóvel do meu tio Antônio Francisco da Silva Vieira "senhor de Engenho Pery-Pery", em Lagoa dos Gatos, na companhia também do Dr. José Vieira Rabelo, Juiz de Direito de Canhotinho, do meu tio Samuel Soares, dos tabeliãs de Canhotinho, Júlio Oliveira e João Leão de  Oliveira Lêdo, todos hóspedes do meu pai.

Fonte: Garanhuns do Meu Tempo / Alfredo Vieira / 1981.

Fotos: (1) Vista aérea de Garanhuns. (2) - O aviador Reynaldo Gonçalves - Roland - piloto de "O Garoto" em outubro de 1927.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adelmo Arcoverde lança o livro “Viola do Nordeste – Da Cantoria A Viola Progressista”

O professor pernambucano Adelmo Arcoverde lança, quinta-feira (26), às 16h, o livro “Viola do Nordeste – Da Cantoria A Viola Progressista”, ...