quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Um Depoimento

Adelson Cunha, ex-aluno do Colégio Diocesano de Garanhuns

Faz muitos anos. Mas o tempo, algumas vezes, tende a abençoar fatos que nos trazem não lembranças apenas, porque lembranças podem também marcar acontecimentos nem sempre alegres. O tempo neste depoimento santifica e alicerça gestos admiráveis e perpetua uma saudade. Sim, pois nunca se ouviu dizer que exista saudade (de alguma coisa ou de alguém) que não nos purifique suavemente o espírito.

Serão registradas duas situações ocorridas e amaciadas pelo dom do humanismo e da bem-aventurança, tal um rastro de luz iluminando gerações - na doce expressão à memória da Sra. Thereza Odette de Araújo Corrêa. Faleceu jovem. Em março de 2001 seria glorificada com o centenário de nascimento. É que "Mão Divina tinha pressa em coroá-la no Céu".

E neste ano de 2008, se ainda na Terra estivesse, Monsenhor Adelmar da Mota Valença estaria assistindo à alegria dos fiéis amigos e entoarem parabéns pela sua  bondade, pelas dignificantes obras aqui plantadas e pelos cem anos de vida.

Faz  muitos anos, o Ginásio do Arraial estava em início de construção, sob a profícua orientação de Padre Adelmar. Neide, minha esposa e filha de "seu Noraldinho e de Dona Odete Oliveira, morava defronte do santuário de fé e de saber que estava sendo edificado. As chaves de todos os  compartimentos do prédio em obras e da guarda do material lá existente eram entregues à Neide, para ternura e confiança e para júbilo da mocinha desejosa de ser uma das primeiras alunas da nova casa de educação da cidade. Ela se recorda afetuosamente que Padre Adelmar visitava quase diariamente o andamento dos serviços, pela manhã ou após as duas da tarde (mesmo com o Sol escaldante). Vinha a pé e apanhava as chaves das mãos de Neide que, com orgulho e pureza de menina-moça, já dizia ser uma das fundadoras do  santificado prédio. E isso aconteceu maravilhosamente: não foi uma das fundadoras mas uma das iluminadas primeiras alunas do Ginásio já concluído. Por benevolência do Padre (na condição de diretor da nova instituição)  e ante a fortíssima dedicação da jovem ao empreendimento - é bem verdade por reconhecimento e pela situação dos pais - passou a ter os  seus estudos gratuitos. Um dia, porém, o Padre dirigiu-se à  Neide: "Entenda. Não faço mais parte da direção do Ginásio. Por uma questão de ética, fale com as Irmãs e..." Plena de  esperança, obteve o beneplácito de continuar seus estudos sem arcar com qualquer despesa.

Outro louvável registro é o dos irmãos de Neide que  estudavam no Colégio Diocesano. Aflito por não poder honrar o pagamento das mensalidades dos filhos, portanto sem meios suficientes para manter a educação dos rapazes, "seu" Noraldino, com o pudor que lhe era característico, envergonhado até, solicitou à Dona Odete, sua esposa, que fosse falar com o Padre e contasse toda a verdade. Provavelmente, no mesmo dia, a mãe de Neide ouviu do sacerdote mais ou menos estas benditas palavras: "Olhe, isso não é problema, nem motivo para preocupação. Mande os  meninos virem às aulas". Pode-se imaginar o estado de alívio e felicidade em que ficou Dona Odete! Nelson, irmão de Neide, quando retornou do Canal de Suez (ele integrou o batalhão de Paz das Nações Unidas), foi ao Diocesano e presenteou o Padre com um belíssimo tapete Sírio simbolizando a Ceia Larga, notadamente como agradecimento pelos inesquecíveis favores que "Padre Demá" fez aos seus pais e para emoção do estimado e bondoso homem de Deus.

Agora uma passagem que chegou a deixar Garanhuns triste.

Mariano era funcionário da Coletoria Estadual e dedicado colaborador da Rádio Difusora, onde, mesmo sem nada receber por seu trabalho, chefiou o Departamento Esportivo da emissora e era seu comentarista principal. Certa tarde, soube-se do trágico acidente no qual Mariano havia falecido. Retornava de Petrolina, para onde tinha sido transferido. Velório e sepultamento e a cruel certeza de que Ivonete e os filhos iriam passar por momentos difíceis. Acredito que um raio divino me iluminou e rumei ao Colégio Diocesano para falar com Padre Adelmar (nunca me acostumei chamá-lo de Monsenhor) sobre a situação da viúva e das crianças. Com sentimento, emoção e ternura, o Padre doou à família enlutada suficientes roupinhas e uma parte em dinheiro. O mais puro é que os familiares de  Mariano era evangélicos. Após a grandiosa ação, com olhar firme e piedoso, indagou-me: "A viúva e os filhinhos estão bem"?

Assim era Padre Adelmar: austero, disciplinado, de  uma bondade sem limite e de generosas atitudes. Assim foi o Monsenhor Adelmar, cuja função eclesiástica obteve por merecimento e pelas graças divinas.

Pela voz de Cristo do Alto do Magano ecoando pela Praça da Bandeira (aqui é preciso que seja feita uma genuflexão!) e dirigindo-se à Avenida Júlio Brasileiro - onde  se acha imortalizado com a Paz e pelo amor de uma casa de Ensino - Garanhuns louva o centenário de Monsenhor Adelmar da Mota Valença, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

Fonte: Monsenhor Adelmar da Mota Valença - Vida e Obra. Centenário de Nascimento 1908 - 2008. Coordenação das Irmãs: Cândida Araújo Corrêa e Maria Mirtes de Araújo Corrêa.

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