quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Um ensaio fotográfico no olho de Massillon Falcão


Crônica de Rossini Moura*

O inverno de Garanhuns tem nuances encantadoras. Os olhos curiosos de Massillon, filho de 'seu' Esperidião, velho fotógrafo que repassou, em vida, a soberana arte de captar imagens ao seu rebento, ressaltam-se neste ensaio fotográfico sobre o nosso inverno. As fotos em Cépia expressam um realismo de esmagadora beleza. O nobre manto do nevoeiro serve como fundo infinito que delicia a lente da Leika de Massillon, reproduzindo com a maior fidelidade os tempos de inverno no Parque Euclides Dourado. A luz da iluminação pública abre tímidas frestas no delicado  xale da cerração.

À direita, a expressão de um artista que não consegue prender e muito menos, disciplinar a sua ansiedade. Era preciso 'pegar' esse momento de surpresa, sem que fosse pressentido o sorrateirismo de um 'ladrão' de imagens. E a Fonte Luminosa, bruxuleante, foi violada no seu próprio habitat, na sua sacra inocência, pela lente estupradora de um fotógrafo incorrigível, verdadeiro caçador de imagens inéditas. A Fonte Luminosa da Praça Souto Filho é tudo isso ao lado, com os termômetros marcando 10º C. É quando Garanhuns vira Europa, se auto apelidando de Suíça. O véu do nevoeiro revela no topo do guincho d'água as corcovas de muitos dromedários, que só existem no mundo, no inverno de Garanhuns.

O insaciável caçador de imagens adentra a noite; esconde-se nos arbustos do nevoeiro para encurralar sua presa. E queda-se extasiado! Mas não se basta. Arma o equipamento, busca uma posição ousada para melhorar o ângulo... Os filtros  estão respondendo bem. No visor da LEIKA, o embaçamento... Limpa-o com uma flanela nova, mas já umedecida pela friagem. E a presa? Estática, como há quase um século. Molhada pela umidade! Não é suor de medo. Está pronta para o golpe do 'flash'. Esse chalé ao lado é uma parte encantadora da nossa história. No verão saboreia os raios do Sol e no inverno suas biqueiras gotejam poesia. E um 'click' intemorato fere o ventre da neve, para deixar o chalé perpetuado no tempo. A posteridade agradece e aplaude.

E o caçador de imagens, fotógrafo, filho de 'seu' Esperidião, mergulha o corpo franzino na selva de nevoeiros e vai 'giboiar' as caças que fez, para amanhã voltar a fazer tudo de novo.

*Jornalista, radialista, cronista e historiador / Transcrito do Jornal O Monitor de 30 de Junho de 2001.

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