sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Uma lágrima de saudade

Amaury de Medeiros*

Faleceu o padre Adelmar da Mota Valença, aos 94 anos de idade. Os romanos usavam um artifício semântico para aliviar a rudeza do golpear da morte e o agourento de seu sussurrar. Em vez de afirmarem morreu ou deixou de viver, diziam: ele viveu. O padre Adelmar - como o chamávamos carinhosamente apesar de superior na hierarquia eclesiástica -, viveu integralmente voltado à difícil arte de formar gerações, de plasmar caracteres. Nos meados do século próximo passado, jovens rebeldes perdidos nos meandros da vida, eram encaminhados ao internato do Ginásio Diocesano de Garanhuns.

A árdua tarefa do padre Adelmar era  amansar essas feras, domesticá-las, mostrando-lhes novos horizontes. Na maioria das vezes sua missão era bem sucedida com inacreditável presteza e eficácia. Ele não rezava pela cartilha daqueles que sempre exigem moral dos outros mesmo que dela sejam desprovidos. Sob os impulsos de severidade escondia-se um rico tesouro de benevolência. Quantas das figuras marcantes que hoje despontam no cenário político e social de nosso Estado não foram influenciados espiritualmente ou ajudados economicamente, com isenção de pagamentos, pelo padre Adelmar? Os princípios de honestidade, cada vez mais fragilizados nos dias que correm, constituíram-se num de seus estandartes de luta. Nas retinas de seus ex-alunos ficaram gravadas as  imagens de sisudez, sobrancelhas travadas, braços cruzados sobre o peito e que surgiram quando menos esperávamos, sobretudo nas eventuais badernas de dormitório. A maneira respeitosa de como se  conduzia, na sala de refeições. Preocupava-se com os mínimos detalhes comportamentais de seus meninos. Ferrenho antitabagista, antecipou-se às campanhas contra o nocivo vício que ainda faz  adoecer e mata grande  parte de nossa população. Sentíamos no mais íntimo do corpo a inclemência dos banhos gélidos nas madrugadas invernosas.

As privações das saídas dominicais quando vibrávamos com o seriado cinematográfico de O Vingador e Calunga, dos passeios pelo Parque Ruber van der Linden, das caminhadas entre os eucaliptos do Euclides Dourado respirando ar puro e revitalizante. Era só tirar nota baixa no comportamento da semana que lá se iam os sonhos das manhãs de domingo. Entrevejo-o fisionomia tensa, hirto na janela do Ginásio, na expectativa do desfile de 12 de outubro: o volutear das formações, o rufar dos tambores, o estridor das cornetas. Um vento quase outonal soprava brando fazendo que esvoaçassem de leve as flores que encobriam os  caramanchões da Praça da Bandeira. Ao longe, ressoava o apito nostálgico do trem que partia. O padre tudo vivenciava. Era a força motriz, a alma propulsora daqueles rapazes inseguros, vibrantes e tímidos que se angustiavam em busca de afirmação. Exercícios de disciplina caracterizavam a rotina de  todos nós, os internos. Repassam, como num filme em preto e branco, as lições de Moral e Cívica na capela anexa.

Naqueles instantes de recolhimento foram fincados os alicerces da cidadania. Aprendíamos do compromisso evangélico que tínhamos de respeitar e amar nossos semelhantes, e do direito sagrado que  tínhamos de ser, no mínimo, por eles respeitados. Como nos sentíamos envaidecidos transmudados em personagens históricos, ou do cotidiano, que se  movimentavam nos cenários teatrais de lado a timidez, e enchia o auditório onde exercitávamos os ensaios iniciais da oratória do professor Manoel Lustosa. O entusiasmo de que éramos dominados quando recitávamos as primeiras estrofes dos poetas românticos. Foi nossa iniciação no gosto pela boa leitura, hábito este substituído na juventude de agora pelas telas globais e dos computadores. Todos os passos eram seguidos de perto, numa atitude paternal, pelo padre Adelmar, no afã de bem conduzir, de bem orientar. Ele plantou sementes que vingaram com exuberância brotando flores e frutos que espargiram aromas e fizeram que proliferassem  outras sementes. Seremos eternamente agradecidos aos seus conselhos e ensinamentos que iluminaram nossos caminhos e foram importantes nos momentos de tomadas de decisões. A sua imagem, padre Adelmar, ficará sempre gravada em nossos corações. Sobre a sua sepultura, uma lágrima de saudade e as mais belas rosas colhidas nos jardins da cidade serrana onde você viveu.

*Amaury de Medeiros, é ex-aluno do Colégio Diocesano de Garanhuns, médico, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras.

*Artigo publicado originalmente no Jornal do Comercio do Recife, cinco dias depois da morte do Monsenhor Adelmar da Mota Valença.

Créditos da foto: Livro - Monsenhor Adelmar da Mota Valença - Vida e Obra - Centenário de Nascimento 1908-2008. Coordenação: Irmã Cândida Araújo Corrêa e a Irmã Maria Mirtes de Araújo Corrêa.

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