domingo, 9 de janeiro de 2022

Vida e Morte


Dr. Aurélio Muniz Freire*

Tem-se nas vidas sucessivas um dos princípios fundamentais na sustentação da Doutrina Espírita. Aceitar a reencarnação é, por consequência, acolher igualmente um incontável número de mortes e de renascimentos. Como então entender a afirmação de Paulo de Tarso ao  dizer que só se morre uma vez?

Quando se fala sobre a morte, sempre nela  pensamos como sendo o resultado de uma vida que se foi. Algo morto é o fim de alguma coisa. Morrer é perecer. Finalizar-se. Acabar. Para muitos, o perecimento de objetos ou de pessoas é a transformação em coisa alguma. Seria a volta, o retorno ao nada. Estariam certos quantos assim entendem a morte? Einstein decretou a  morte do materialismo por lhe faltar objeto. E, como se sabe, o objeto a alimentar a doutrina materialista é a própria  matéria. Aquele famoso cientista tudo resumiu na energia, dizendo que está é matéria desprendida, e a matéria, energia concentrada. Diríamos que ele, na condição de renomado físico, para a própria ciência, teria espiritualizado a matéria e materializado a energia, numa total inversão de conceitos até então tidos e recebidos por verdadeiros.

Bem antes de Einstein haver dado seu tiro mortal,  assassinando a matéria ou, melhor dizendo, energizando-a, espiritualizando-a, bem antes dele, ainda no século XVIII, outro gigante da ciência no campo da química, Lavoisier, descobriu uma grande lei, conhecida por lei da conservação da matéria, segundo a qual, na natureza, "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma". Esse homem da ciência, nessa descoberta científica, também aceitava a energia como alma das coisas. Essa transformação, renascimento constante de todas as formas, ora na condição de matéria condensada, ora qual matéria volatizada, seria como ter encontrado a eternidade dentro de todos os corpos. Sem o haverem expressamente declarado, esses dois astros do conhecimento descobriram a própria imortalidade e a reencarnação de todos os  corpos físicos, pois tudo se renova.

Vimos assim que, até mesmo entre os corpos  ditos inanimados, existe apenas uma morte aparente.  Mesmo para eles, há somente transformação. Nada se acaba. Somente perecem as formas, para renascerem transformadas em número astronômico de outras formas. Se isso acontece a natureza das coisas, como a dizer que até mesmo não morrem (no sentido de perecimento) nossos corpos físicos, quer dizer ou pensar da natureza humana, sabido sermos um composto de matéria e espírito? Devemos, então, discernir com inteligência, com maturidade, os preceitos ou as mensagens que os testos sagrados nos oferecem. Em verdade, Paulo afirmou que  "[...] aos homens está ordenado morrerem uma só vez  [...]" (Hb, 9:27). Por outro lado, ele também disse: "[...] Tragada foi a morte pela vitória. - Onde está, ó morte, o teu aguilhão da morte é o pecado [...] (I Co, 15:54-56). Ainda assentou que "[...] o salário do  pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm, 6:23). Dizia mais: "Desventura homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" (Rm, 7:24).

Em se analisando essas passagens de Paulo, deprende-se, com facilidade, que o apóstolo nelas não se  atinha à morte física ou corporal. Ele se referia àquela outra morte, cujo sentido vamos alcançar, com precisão, nas seguintes palavras de João: "Nós sabemos que  já passamos da morte para a vida, porque amamos os  irmãos; aquele que não ama permanece na morte" (I Jo, 3:14). Essas afirmações do evangelista encontram respaldo no quanto ele mesmo traz de Jesus, nestas palavras: "Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida" (Jo, 5:24). Mais: "[...] se alguém guardar a minha palavra, não verá morte" (Jo, 8:51). Então, estaremos aparentemente vivos enquanto não amarmos e estaremos mortos para as coisas que passam quando aprendermos o real significado do que seja viver espiritualmente. Amor é vida. Desamor é morte.

Nesse sentido, tanto Paulo quanto João, embora vivos fisicamente, desejavam ou vivenciavam a morte para as coisas temporais. E quando isso se opera, dá-se  uma transformação profunda e permanente na vida de  qualquer um. Essa transformação, que na verdade se  processa somente uma vez para todos nós, é a morte das coisas transitórias. É a vida espiritual. A humanidade, na sua pseudossabedoria, tudo complica, tudo embaraça, dificultando para muitos o entendimento de tais verdades, muitas vezes assim procedendo por interesses inconfessáveis, desonestos. Já o Antigo Testamento trazia incontáveis lições para todos nós, nesta parte, assim enfatizando: "Na vereda da justiça está a vida, e no caminho da sua carreira não há morte" (Pv, 12:28). Continua falando a sabedoria de Salomão: "O ensino do sábio é fonte da vida, para que se evitem os laços morte" (Pv, 13:14). As letras sagradas constituem imenso oceano de ensinos, buscando orientar-se em direção a essa morte das negatividades, o que verdadeiramente só acontece uma vez, pois quando se entroniza na criatura outro modo de pensar, sentir e agir espiritualmente, começa ela a experimentar a eternidade da vida, mesmo continuando a existir entre os mortais.

As orientações vindas do Alto, para o bem da humanidade, sempre devem ser interpretadas à luz do espírito que vivifica, nunca pela  letra que mata. Elas se dirigem ao nosso espírito, à eternidade do que somos, e não ao nosso corpo, forma transitória onde se  abriga a perenidade da vida. "O corpo, estando morto, não sente mais nada, porque já não possui Espírito nem perispírito" (Livro dos Espíritos:  Questão 257). Essa morte corporal é bem diferente. "Pode comparar-se a morte à cessação do movimento numa máquina desarranjada? - Sim, pois se a máquina estiver mal montada, a sua mola se quebra; se o corpo estiver doente, a vida se esvai" (Livro dos Espíritos; Questão 68, a). Morre-se para renascer, pois "Toda morte é ressureição na verdade" (Francisco Xavier, Cartas ao Coração), consoante doutrina a Espiritualidade Maior.

*Jurista e escritor / Garanhuns, PE - 2011.

Créditos da foto: Anchieta Gueiros.

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