quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Volta ao Diocesano


João Marques |Garanhuns

Marcos de Safo, Eloim e amigos visitam o Ginásio onde estudaram.

Na passagem do dia, a Avenida entardece e  a vida estudantil fica longe. Iluminado pelo sol adulto, o grupo de amigos volta. É combinado na tarde reviver possivelmente a  manhã da adolescência. Assim, nós combinamos reencontro e quase todos atendem. Eloim é o mais entusiasta do grupo e lembra de tudo. No Ginásio, o diretor recebe-nos e deixa o grupo à vontade. Percorremos as salas, lembrando detalhes. As bancas escolares eram outras. O quadro negro. O crucifixo igual, com o Cristo agora magro, em madeira fina. Olhávamos para ele, ao fazer a oração do início da aula. Todos olhamos de novo, como se estivéssemos sendo recebidos de braços abertos. O campo detrás do Ginásio, com novas construções agora. Tonico, que continua magro e apressadinho, traz a velha bola de futebol. Bola de couro, remendada e meio ovalada, como foi sempre. Rimos e alisamos por cima da pelota, passando a mão leve sobre ela. Consideramos que ali estavam pedaços de nossas vidas. Quando nova,  corria mais, rolando na disputa esportiva entre amigos. E nunca foi substituída. Criou-se afeição, porque animava todos e tocava os nossos pés, ainda indecisos.

Lembranças a todo o instante. Os passos do padre em cima, sobre tábuas, no andar superior. As aulas eram silenciosas. O professor Valderedo, sentado à mesa da sala de aula, cochilava, enquanto íamos copiando desenhos de gregas, colocados com giz colorido no quadro negro. Uma vez entra na sala de aula um substituto do professor, Aloísio da secretaria. Manda que todos abram sobre as bancas o livro de Geografia. Pergunta a Álvaro o que é um cabo. O companheiro gagueja, coça a cabeça e arrisca a resposta: É uma porção de terra rodeada de água por todos os lados (definição de ilha). Agora, o professor, sério, indaga de Álvaro: E o estudante. O que é o estudante. Nada, nenhuma resposta. Quem sabe, insiste o professor. Nada. Ninguém sabe. E o mestre, no tom de sua seriedade, diz: O estudante é um bolo de carne, rodeado de preguiça por todos os lados.

As aparências dos amigos estão, agora, diferentes. Aparecem mais gordos, outros com a calvície chegando. Óculos em alguns, e modos de vestir mais elegantes. Os que eram vaidosos obviamente têm agora postura agradável e simplória. Há tentativa e até esforço para refazimento da manhã. Fortalecimento espiritual com a volta no tempo. Eloim faz pronunciamento ao pé da escada do principal acesso. A famosa escadaria. E diz, emocionado, que volta a sentir felicidade. Era feliz, embora tenha sido sofrível a adolescência que passou. Pede que  volte a acontecer o encontro. É aplaudido  e abraçado. Fala coisas de menino. de repente, lembra e acusa ali um companheiro por ele haver tomado seu lanche. Um pão com doce de goiaba. O outro se defende e chegam aos empurrões, como no passado. Mas rindo, se abraçam depois. Tinha sido, agora, encenação do passado.

Surge repentinamente D. Almira, ex-professora saudosa. O grupo a recebe com palmas. E ela, aposentada, diz que volta constantemente ao Ginásio, para visitar. Aperta a mão de cada um e diz que lembra de todos. D. Almira é querida, pelo fácil relacionamento que tem e bondade. As lições, as melhores, de desenho, de matemática, e de vida. Costumava dar boas orientações, por sermos então rapazes inexperientes. E, ensinando os números relativos em Matemática, fazia comparações, e dizia para facilitar a aprendizagem que o amigo do meu amigo é meu amigo. O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Coisas assim, para sabermos operar, somando ou subtraindo os números relativos. Aproxima-se a despedida. D. Almira é beijada no rosto e, ficando à porta, recomenda: Vocês agora são homens feitos. Lembrem-se do que aprenderam e serão felizes. A dispersão dá-se com abraços e as últimas brincadeiras. E, indo cada um em direção diferente, ainda gritam os apelidos que tinham: Boi Janeiro, Mamãe Gorda, Macarrão, Vaca Loura, Mocotó. E cada um vai levando a manhã reencontrada. (Jornal O Século - 08/2018 - Garanhuns/PE).

*João Marques dos Santos é escritor, poeta, editor/redator do jornal O Século, autor do Hino de Garanhuns e ex-presidente da Academia de Letras de Garanhuns.

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