sábado, 1 de janeiro de 2022

Zé Babão


Dr. José Francisco de Souza*

Tipo Popular de Garanhuns - Nascera na antiga rua da Palha, depois Alecrim. Hoje transformada em pitoresca alameda do Colégio 15 de Novembro. Jamais encontrou qualquer apoio aos seus propósitos. Sentiu na própria carne a crueldade do seu destino. A miséria foi sua única companheira. O ambiente em que vivera determinou os passos inseguros e vacilantes de seu ir e vir. Assim cresceu sem se multiplicar. De grande só conhecera a necessidade. 

Vendia jornal, talvez um dos primeiros gazeteiros da nossa terra. Recebia os matutinos e vespertinos da capital pelo condutor do carro correio do trem. Muito ativo e cuidadoso, possuía bom senso de responsabilidade. A sua honestidade foi prova de seu caráter natural. 

Moreno de pele bronzeada, estatura regular e compleição física magra. Gestos esquivos e bruscos. A gagueira tornava-lhe difícil claramente as coisas como se o veículo transmissor tivesse parado. O mundo girava com ele e que poderia se danar o resto. Era, ele mesmo e pronto. Seu nome de batismo era José por "alcunha José Babão". Jamais se molestava com alguém por causa disso. Quando falava fechava os olhos para não ver os efeitos das palavras. Andava sempre descalço sapatos sempre fora objeto de luxo que seus pés não conheciam. Trajava calça branca e  camisa lista bem limpa trescalando o cheiro ativo de sabão virgem. seus passos era rápidos e seu corpo lépido como quem vive se preparando para voar.

Bem cedinho, ainda tonto de sono, ouvíamos a sua voz dolente ressoar pelos recantos das nossas ruas: "Olho o fífífí de boi..." A tarde vendia pão sovado da padaria Amaral. Sr. Amaral era um jovem português genro do velho lusitano Vitorino Monteiro. "Olha o pão sovado tem ovos coco e manteiga". E bom, e especial... É da padaria Amaral. Muito zeloso, pelos princípios de higiene.

Quando falava cuspia o freguês, mas ninguém pegaria no pão sem o auxílio do garfo. Apanhar mercadoria de seu tabuleiro coberto de pano bem alvo, com a mão, sem o garfo. Era coisa que não se praticaria na presença de "Zé Babão". Os garotos se aproximavam do tabuleiro com vontade de saborear o pão sovado. Zé Babão dizia bruscamente quanto quer? Não pode pegar é bom tá quentinho e é da padaria Amaral. E da pá pá pá da daria Amaral. As vezes, também vendia jornal. Naquele tempo os gazeteiros recebiam os jornais, da capital, na gare da Estação Ferroviária "Zé Babão" sempre disposto, destacava-se pela rapidez com que distribuía o Diário de Pernambuco, A Província e o Jornal do Recife. Abraçado com um monte de jornal Zé Babão corria doidamente como se fosse ele a própria notícia que publicavam os jornais. Verdade é que  em pouco tempo vendia todos os jornais que lhe foram destinados. Vendia banana,  laranja e várias frutas. A última vez que o encontramos carregava pendurado dois balaios de frutas, bananas e laranjas, no ombro esquerdo: "Olha a Nana Madurinha".

Depois de muito tempo notamos a sua ausência, e nos informaram que "Zé Babão" havia pago o seu tributo à vida material. Morrera aqui na terra das madrugadas loiras. Da cidade hoje centenária que lhe servira de berço e também de sepultura. As pessoas de sua intimidade, seus vizinhos da rua do Alecrim, cantaram a noite toda no seu velório. Litanias religiosas dominaram o espaço. E a saudade em forma de lágrimas vinda do coração, deslizava por sobre o rosto triste de amigos que lhe prestavam a última homenagem, velando o seu  corpo.

*Advogado, jornalista e historiador / Garanhuns, 04 de setembro de 1982.

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