sábado, 8 de janeiro de 2022

Zé Francisco - Advogado culto e brilhante


Otimro Odeveza*

José Francisco de Souza, ou simplesmente  Zé Francisco, como era mais conhecido, possuía uma humilde barbearia na Rua 15 de Novembro.  As tardes, quando passávamos naquelas imediações o víamos na calçada ou na chamada terceira Praça Dom Moura, sempre passeando lentamente com um livro à mão. Éramos ainda bem jovem, todavia o gesto rotineiro daquele cidadão sempre nos despertou a atenção.

Naquela época, era advogado dos "presos pobres" aqui em Garanhuns, o Sr. Ladislau Porto. O fato é que o Sr. Ladislau (não nos recordamos) faleceu ou saiu da cidade, então nosso pai, Lito de Azevedo e Silva Filho, juiz de Direito desta Comarca, indicou o Sr. José Francisco de Souza para a Defensoria dos presos pobres. Acertada escolha! Zé  Francisco entregou-se aos livros de direito, principalmente Direito Penal, tornando-se notável causídico e marcando época no Fórum, não só garanhuense, mas regional.

Dois fatos dizem bem das qualidades excepcionais do então ex-barbeiro, transformado em brilhante advogado. O primeiro ocorreu durante um Júri em que, como é lógico, o advogado dos presos pobres defendia o réu, e um dos renomados criminalistas Brito Alves, atuava como auxiliar de acusação. A certa altura do debate, o Dr. Antônio foi contraditado pela defesa e, não concordando com as colocações feitas, meio vaidosamente, dando a entender, indiretamente, ser Zé Francisco um Rábula (advogado sem diploma), largou: eu frequentei a Casa de Tobias Barreto e alisei as bancas da Faculdade de Direito do recife. Serenamente, Zé Francisco, com sua eloquência e bonito timbre de voz, pediu um aparte e indagou: Eu quero apenas que Vossa Excelência me responda se saber é privilégio de doutor? Não houve resposta!

Outro fato relevante ocorreu quando  o nome de Zé Francisco já havia ultrapassado fronteiras. Indo nosso pai ao Tribunal de Justiça, o Presidente desse órgão perguntou quem era um Zé Francisco, advogado dos presos pobres, a quem sempre eram feitas referências elogiosas. Então, papai deu a seguinte resposta: Eu não tenho receio de levar Zé Francisco para defender a mais intrincada causa criminal em qualquer Comarca do Brasil. Era este o autodidata, culto e extraordinário "advogado" que não alisou bancas de Faculdade. (Texto transcrito do jornal O Monitor).

*Jornalista e historiador.

Foto: Inauguração do Parque Municipal Ruber van der Linden pelo prefeito Amílcar da Mota Valença. Na foto são vistos ainda a primeira dama do Município e o famoso advogado José Francisco de Souza. Créditos da Imagem: Jornal O Século.

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