quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

100 anos da Semana de Arte Moderna

Por João Marques*

De 13 a 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, aconteceu a Semana de Arte Moderna. Não foi  uma exposição como outra qualquer. Ela culminou com o primeiro movimento modernista no Brasil. Intelectuais e artistas de todas as  áreas, completados seus estudos na Europa, implementaram o movimento neste País. E coube a São Paulo o limiar desse mito que, verdadeiramente, deu novas feições às artes no Brasil.

O público não conhecia, ainda as manifestações diferentes, da Arte Moderna, e estranhou a nova modalidade. E foi o movimento recebido, com vaias, apupos, toda forma de protesto. Até o compositor Villa Lobos foi vaiado, por entrar no palco calçando chinelo em um pé. A imprensa levantou criticas, rejeitando o Modernismo. Contudo, a Academia Brasileira de Letras, e, pouco a pouco, as revistas se posicionaram a favor. E se tomou, para posterioridade, a Semana de Arte Moderna um marco de inteligência e de bravura. Cem anos depois, continua sendo reconhecido o movimento como ato de heroicidade e grandeza dos artistas da vanguarda de então.

O pernambucano Manuel Bandeira participou, com o poema Os Sapos em ridicularização ao Parnasianismo. Além de outras participações, ficou mais conhecido o Grupo dos Cindo - Mário de Andrade, Menotti Del Picchia, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Oswaldo Andrade.

Os Sapos

Manuel Bandeira

Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.


Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:

— "Meu pai foi à guerra!"

— "Não foi!" — "Foi!" — "Não foi!".


O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: — "Meu cancioneiro

É bem martelado.


Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos!


O meu verso é bom

Frumento sem joio

Faço rimas com

Consoantes de apoio.


Vai por cinqüenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A formas a forma.


Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia,

Mas há artes poéticas . . ."


Urra o sapo-boi:

— "Meu pai foi rei" — "Foi!"

— "Não foi!" — "Foi!" — "Não foi!"


Brada em um assomo

O sapo-tanoeiro:

— "A grande arte é como

Lavor de joalheiro.


Ou bem de estatuário.

Tudo quanto é belo,

Tudo quanto é vário,

Canta no martelo."


Outros, sapos-pipas

(Um mal em si cabe),

Falam pelas tripas:

— "Sei!" — "Não sabe!" — "Sabe!".


Longe dessa grita,

Lá onde mais densa

A noite infinita

Verte a sombra imensa;


Lá, fugindo ao mundo,

Sem glória, sem fé,

No perau profundo

E solitário, é


Que soluças tu,

Transido de frio,

Sapo-cururu

Da beira do rio.

*Escritor, poeta, cronista, jornalista, editor/redator do jornal O Século, autor do Hino de Garanhuns e ex-presidente da Academia de Letras de Garanhuns - ALG.

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