segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

A Feira Nu Mucambo


Sandoval Ferreira*

Quinta-feira

5 da manhã, Aguazinha

Acorda, acorda, Maria

O carro de João já vem

Tá bem, tá bem

Eu já vou


Ainda nu levantou?

Tu quer que eu vá aí te puxar?

Homi deixe eu me arrumar

Vestir pelo o menos a roupa

Ou veio chato da gota

Que num para de gritar


Oh! Mia veia queria cuidar

Pra tu ir logo pra feira

Comprar lá umas besteira

Enquanto eu vou trabaiá

Né besteira não Zé

É as compra da semana


Duas dúzia de banana

Tripa de boi e de poico

Oia já é quase oito

E tu tá aí parada

Corre danada

Se não tu vai é a pé


Deixa de ser chato Zé

Quando ele vier eu corro

Oh! Mãe traga o gorro

E uma camisa do timão

O dinheiro num da não

Se eu trouxer pra tu João


Tenho que trazer pra Rita

Pru Pedinho e pra Luzia

Corre Maria

O carro tá buzinando

E Maria vai andando

Com o saco de feira na Mão


Sobe no carro de João

Pra fofoca começar

Vão conversando até lá

Os causo, mas variado

O carro já vai lotado

Uma tuia de gente irriba


Na feira o povo grita

Oia o bardo, oia o bardo

E outro grita, mas arto

Oia o picolé oia

E o curador de emorroia

Pumada da castanha atalaia


Esse garoto num faia

Cura dor no coração

Mal estar, constipação

A zoada é de motão

Na banca de CD

Oia o CD


Pra arranhar o seu DVD

É bonito de se ver

Dois cantador de embolada

Na rima improvisada

Fazendo verso na hora


"Vou contar vou contar

Eu num gosto de fuxico

Mas do pobre para o rico

Grande deferença há"

(Caju e Castanha)

E o cantador De toada

Que canta coisas da terra


"Lá no pé daquela serra

Tem um pé de umbuzeiro

É la que toda manhã

Uma sabiá verdadeiro

Canta sua melodia

Traduzindo alegria

"Pru coração do vaqueiro"

(Cara Veia e Perreca)


Cartela da loteria

Corre hoje ao meio dia

Grita moleque amarelo

Concorre a um pá de chinelo

E o relógio quase novo

Se perde no mei do povo


E o cabra grita oia o ovo

De codorna e de galinha

O vendedor de farinha

Grita pra se acabar

Quem vai querer comprar

Farinha, fina e da grossa


São coisas que vem da roça

Como o milho e o feijão

Chega alface e pimentão

Fresquinho de dentro da horta

um doido tange uma porca

Pra botar dentro do chiqueiro


Um camelô tranbiqueiro

Querendo trapacear

Com o jogo de azar

E o barai marcado no bolso

Pra querer pegar os tolos

Que perto dele chegar


Num posso deixar de falar

Nus bazin e nus buteco

O cabra enxe o caneco

Antes da feira acabar

Se esquece de comprar

As coisas da semana


Enche o rabo de cana

Começa dizer que é rico

Daqui a pouco tá liso

No bolso nenhum centavo

Pede pra comprar fiado

O vendedor inguinora


Manda ele ir se embora

Ela sai de porta a fora

Entre queda e trupicão

O saco seco na Mão

Pensando numa expricação

Mode inverntar pra muié


Pois não comprou o café

Nem a fuba nem o milho

E o que vai dar pros filhos

Na hora que anoitecer

Pois quando saiu de casa

nada deixou pra comer


No mercado pode ver

Muita carne e gritaria

No pingo do meio dia 

Se vende o que sobrou

Leva a carne doutor,

Carne de poico, e de bode


As tripas se sacode

Dentro duma bacia

Cheia de mocotó

Inda sobrou o mió

Grita o vendedor de xerel

Uma banca de pastel


A rodeada de gente

Batata cachorro quente

Cardo de cana na hora

Uma sabiá cantarola

Na feira do Passarim

Tem papagai e bemtevi


Preso numa gaiola

Um fiscal chega, olha

Denuncia ao IBAMA

Os vendedor vão pra cana

Os Passarim vão pra mata

Entusiasmo não farta

Em vê-los voar

Retornarem para o lar


E a feira continua

Zuada no mei da rua 

Um balai um caçoar

Um veio pega a gritar

rede nova e armador

Fugareiro, abanador


Tudo pra sua cozinha

Maria compra uma galinha

Dois quilo de mortadela

Dois ou três maço de vela

Uma bola prus meninos

Imagina eles surrindo

Quando ela chegar  em casa

Sardinha pra assar na brasa

E misturar no feijão

Sobe no carro de João

Se dispede da cidade

Agora são três da tarde


Faz o caminho de vorta

A cidade só importa

No dia de fazer a feira

Na estrada, na poeira

Em cima do pau de arara

Vai tudo que é bagaceira


O abridor de porteira

No carro vai pindurado

Desce abre a cancela

Rapidinho tá muntado

Num tem lugar pra sentar

Que o carro vai lotado


Os moleques se impidura

Atrás na Correcaria

Inrriba da lataria

No mei de bardo e bacia

Os sacos vão misturados

tem catabim nos buracos

pato, galinha, e guiné

Ela leva uma camisa pra Zé

Uma  boneca pra Luzia

Já escuta a gritaria

Dus meninos na porteira

Rodeado de poeira


O carro para do lado

Os menino aperriado

Com uma sacola de pão

Maria desce do carro de João

Zé traz o carro de Mão

Ela bota as coisas irriba


O povo do carro grita

Tchau Maria até quinta-feira

os meninos na carreira

Com a bola que ela trouxe

Abre uma lata de doce

E um pacote de bolacha


Zé se senta na calçada

E ela vai cuidar da junta

Luzia no quarto canta

Brincando de boneca


Parece a cinderela

Tão bonitinha e tão pobre

Mas se tivesse ouro e cobre

Talvez não fosse feliz

Pois o amor é quem diz

Como devemos viver

Maria trouxe o comer

Botou pra todos ceiar


Depois dos pratos lavar

Tomou banho Se perfumou

Perto de Zé deitou

O seu rosário rezou

Agradeceu ao Criador

E pode em fim descansar.

*Escritor, poeta e declamador.

Fotos: Feira de Iati - PE (antigo Mocambo). Créditos das fotos: Anchieta Gueiros | Julho de 2021.

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