domingo, 20 de fevereiro de 2022

Cidadania garanhuense

Manoel Neto Teixeira*

Quando Duarte Coelho Pereira, Donatário da Capitania de Pernambuco, escreveu para o Rei de Portugal, em 1548, informando sobre a criação da Câmara da Vila de Olinda e os primeiros atos aprovados pelos vereadores da época, estava registrando para a história  dois Fatos relevantes: o pioneirismo do solo pernambucano na instalação da primeira casa legislativa do Brasil colônia e, ao mesmo tempo, confirmando a sua participação na discussão, aprovação e consequentemente legitimação dos atos  e ações político-administrativos na vida das comunidades.

Faço este registro, de natureza histórica, para realçar a importância do Poder Legislativo, que tem a corresponsabilidade, ao lado do Poder Executivo, na condução do processo político-administrativo de cada uma das três unidades que formam a nossa Federação. As Câmaras de Vereadores surgiram assim desde os primórdios - Brasil Colônia, Brasil República - e se  consolidam até hoje como casas de ressonância das expectativas e aspirações de povo.

Em nenhum momento, até mesmo nos períodos mais obscuros, conhecidos como regimes de exceção, autocráticos - e foram os mais longos da nossa história -, o município jamais  perdeu sua força e importância para o conjunto da sociedade. Constitui geografia sentimental, dimensão espaço/tempo onde exercitamos os sentidos da natureza humana, desde os primeiros anos de vida, nas relações familiares, sociais, culturais, políticas e profissionais de cada cidadão.

O território brasileiro, esse continente, está dividido em cerca de cinco mil e quinhentos municípios, os quais formam os vinte e sete Estados, além do Distrito Federal, sede do Governo Central. O município é uma das três unidades que formam a Federação brasileira, gozando de autonomia político-administrativa, conforme  o mandamento constitucional.

Para o homem, ideal seria muito ter necessidade de sair da terra natal para assegurar, não raro a própria sobrevivência, como foi o caso do nosso presidente recém-eleito Luiz Inácio Lula da Silva, impelido pelas circunstâncias socioeconômicas, ele  e sua família, tendo que deixar, anos 50, para sobreviver nas terras do sul, fenômeno político assimilado nos versos "A Triste Partida", de Patativa do Assaré, com música e interpretação do genial Gonzagão; outros migram, em condições menos traumáticas, como é  o nosso caso, graças ao apoio e às condições familiares, em busca de oportunidade para desenvolver suas potencialidade profissionais, levados, quase sempre, por fatores alheios à própria vontade.

Nessa dimensão, o migrar e emigrar são fenômenos que se projetam na vida humana, desde a pré-história, quando ainda, sem a delimitação geofísica, política e econômica do planeta terra, o homem circulava de forma nômade, sem a cultura da fixação definitiva em dado espaço, O que só veio concretizar-se milênio depois, com a conquista do território e, este por sua  vez, dividido em unidades, onde o município, no caso brasileiro, foi a primeira célula, numa histórica antecipação ao próprio surgimento do Estado nacional.

Tive, contudo, a felicidade de migrar, aos sete anos de idade, de Itaíba, sertão pernambucano, para Garanhuns, cidade polo do Agreste Meridional, tangido pela visão dos meus queridos pais, Alzira Alves Teixeira e Henrique Jacinto da Silva, e  de outros familiares, minhas queridas tias Luiza Moreira e Ercide Barros, estas, já residindo aqui, nesta maravilhosa terra, era início dos anos 50. A todas elas, minha eterna gratidão.

Aqui, depois de alguns meses de instrução informal com a professora Nair Moreira, da saudosa memória, e a quem rendo minhas homenagens, subi a ladeira a matriculei-me no Colégio Diocesano, onde conclui o curso Clássico em 1965, ano do Cinquentenário dessa querida e amada instituição. Garanhuns, à época, não tinha ensino de terceiro grau, o que levou-me a migrar novamente, desta feita, para a capital pernambucana, onde  fiz minha carreira acadêmico-profissional, inicialmente como repórter do Diario de Pernambuco, onde laborei e aprendi nessa grande escola, durante 20 anos ininterruptos, ao lado de outros garanhuenses, amigos e contemporâneos, Marcílio Viana Luna, Gladistone Vieira Belo, Zenaide Barbosa, Ronildo e Waldimir Maia Leite. Mas foi daqui que levei a bagagem que me  credenciou a palmilhar esses caminhos, bagagem colhida sobretudo no Gigante da Praça da Bandeira, com eminentes mestres, Luzinette Laporte, Isaura Medeiros, Lenice Falcão, Levino Epaminondas de França, Manoel Lustosa, Maria José Miranda, Maria José Ferreira, Erasmo Bernardino Vilela, Hilton Rodrigues, Almira e Arlinda Valença, Elzira Pernambuco, Lourdinha Moraes, entre outros, sob a liderança do mestre de sempre, Mons. Adelmar da Mota Valença, muitos dos quais, já em outra dimensão, e aos quais, minha eterna gratidão.

Senhor Presidente, senhores vereadores, senhor Prefeito: migrei para o Recife, naquele ano, de muitas dificuldades  políticas, pois estávamos no limiar do golpe de 64, para o qual, a imprensa e a universidade eram dois segmentos perigosos e ameaçadores, posto que são canais de reflexão, assimilação e transmissão de informações e conhecimentos. Parti mas  não deixei Garanhuns, levei-a comigo, no meu coração, no consciente e inconsciente, ela, palco insubstituível e inesquecível da minha infância e adolescência, onde sonhei os sonhos próprios dessa idade, de um jovem que desde cedo incutira a ideia do  dever ser, assumindo posição cívica-profissionais capazes de  contribuir para a sociedade, carregando em mim, simultaneamente, a consciência individual e a coletiva, condição inerente à natureza humana, conforme aprendemos com os eminentes mestres Cláudio Souto, Pinto Ferreira e Durkheim. Garanhuns continua sendo, para mim, município, pátrio e universo, pois sempre me considerei e autoproclamei, orgulhosa e sentimentalmente, cidadão desta terra.

Se já era fato, agora, com esta formalização, passo a ser Cidadão Honorário, portanto de direito, o que me desvanece. Menos por méritos próprios e muito mais pela delicadeza e  bondade dos senhores vereadores, entre os quais destaco o autor do Projeto de Resolução 896/2000, o ex-vereador Pedro Leite Cavalcanti, homem simples e atualizado, de braços com a cultura desta terra, ex-aluno que honra o Colégio Diocesano de Garanhuns, pela sua conduta ilibada e exemplar de cidadão e homem público.

Foi com esse sentimento que, trinta anos depois de haver migrado, voltei com um projeto elaborado e, após despachar com o Mons. Adelmar e o Professor Albérico Fernandes, atual diretor, numa manhã de abril de 1994, juntamente com minha querida companheira e amiga, Wânia Nóbrega, tive a felicidade de produzir O Diocesano de Garanhuns e Mons. Adelmar, de Corpo e Alma, agora na segunda edição. Durante três meses, hospedado no Hotel Petrópolis, despachei diariamente com o Mons. Adelmar, colhendo dele orientação, documentos e tendo acesso ao seu arquivo particular, para elaboração do livro. Foram  momentos de muita felicidade, inesquecíveis, para mim, sem o que, não teríamos elaborado a pesquisa. Momentos compartilhados com a eminente mestra Maria José Ferreira, assessora de todas as horas do Mons. Adelmar, principalmente nos  últimos anos de sua profícua existência entre nós, bem como de  outros professores e funcionários do Colégio. Sabia do meu  compromisso e responsabilidade, pois estava a pesquisar e escrever não apenas a história da mais importante instituição de ensino do interior de Pernambuco, mas ao mesmo tempo, parte significativa da própria história deste município, pois esta não estará completa se não reservar páginas de ouro à vida e obra do Mons. Adelmar, à frente do Colégio Diocesano, na maior parte do século XX.

Agradeço, por fim, a todos, poderes constituídos, aos amigos e contemporâneos, com os quais tenho a felicidade de conviver e aprender, todas as vezes que volto a esta terra, Humberto Alves de Moraes, Ulisses Pinto, Almir Alves, Roberto Almeida, Paulo Gervais, João Marques, Osman Holanda, Nivaldo Tenório, Luzinette Laporte, Rossini Mouta, Ivo Tinô do Amaral, Marcio Quirino, para citar apenas os mais próximos. Com esta formalização sinto-me desafiado a redobrar esforços para retribuir um pouco do muito que de Garanhuns recebi. Faço minhas, aqui, as palavras do Mestre de sempre e de  todos nós, o inexcedível Mons. Adelmar, quando recebia, ao lado também do Mons. Anchieta Callou, os dois primeiros títulos de Cidadãos Honoríficos de Garanhuns, em sessão solene e memorável desta mesma Câmara de Vereadores, sempre atenta e vigilante como a casa do povo,  numa noite fria e invernosa de 19 de  de março de 1958: "Garanhuns nada me deve; ao contrário, devo tudo a Garanhuns".

Muito obrigado.

Discurso de agradecimento ao título de "Cidadão Honorário de Garanhuns", concedido pela Câmara de Vereadores, sessão de 29 de novembro de 2002.

Fotos: (1) - Manoel Neto Teixeira; (2) - D. Alzira Alves Teixeira, mãe de Manoel Neto Teixeira; (3) - Sr. Henrique Jacinto da Silva, pai de Manoel Neto Teixeira; (4) - Ex-vereador Pedro Leite Cavalcanti, autor do Projeto que concedeu a o Título de Cidadão; (5) - Monsenhores José de Anchieta Callou e Adelmar da Mota Valença recebem Título de Cidadão  de Garanhuns em 19 de março de 1958; (6) - Resolução e o Projeto de Resolução.

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