sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

História de Garanhuns

Foto: Alunos do Ginásio de Garanhuns em evolução em frente ao Paço Municipal de Garanhuns, na manhã de 7 de Setembro de 1922. Momento em que autoridades civis, eclesiásticas e militares passavam em revista ao Batalhão Infantil.

Costumes do final do século XIX início do Século XX - Observamos a partir de 1898, ano em que chegamos, não obstante a fácil comunicação com a capital do estado, pela via férrea já anteriormente, o que pouco a pouco foi contribuindo para o progresso em todos os setores inclusive a civilização, a família garanhuense ainda se mantinha dentro dos moldes de autoridades, rigidez e obediência patriarcais, e por isso, podemos concluir sobre os costumes de então.

A educação da mocidade era administrada com grande rigor, especialmente em relação aos deveres religiosos e aos de obediência aos pais e pessoas mais idosas. A instrução era quase que um privilégio das crianças do sexo masculino que revelavam tendência para as letras, mesmo assim eram raros os que iam as primeiras letras e das quatro operações fundamentais - as quatro tábuas de conta, como eram chamadas. Os demais, viviam, criavam-se em completa ignorância das letras e dos algarismos.

Era raríssimas as jovens que aprendiam, todavia muito se habilitavam no conhecimento das artes domésticas. Em exceção de classe social, quase todas aprendiam a cozinhar, fiar, cozer, bordar, fazer rendas, etc. Essa rigidez e  disciplina, entretanto, não evitavam que surgissem, embora com menos frequência que hoje, os filhos homens que se rebelavam contra os  pais, muitas vezes por questões de menos importância, ou moças que se  prostituíam, na maioria dos casos, devido a um casamento que não era de gosto da  família. O castigo para qualquer destes casos, nas famílias ricas, era sempre a  perda de direito aos bens, pois os pais os deserdavam, enquanto que nas famílias pobres, por falta de meios para maior castigo, era o desprezo. O certo é que a cadeia não deixava de ter seus "réus presos" ou "réus seguros", conforme a gravidade da falta cometida. A vida social era muito restrita. O dia começava cedo e com ele as atividades que cedo também terminavam, pois numa cidade de interior naquela época, quando ainda não existiam, cinema e  rádios ou quaisquer outras diversões, as famílias habituaram-se a um recolhimento aos seus aposentos, o qual raramente além das vinte e uma horas.

Durante o dia, eram servidas três refeições precedidas de ligeira prece proferida pelo chefe da família, de pé, em redor da mesa com todos os demais membros, agradecendo a Deus os alimentos conseguidos para aquele dia, assim como as energias por Ele concedidas para a luta pela subsistência. E com o "amém" de todos tinha início a refeição. À noite, após a última refeição, ainda o chefe da família instruía todos na doutrina cristã, depois do que os abençoava e, assim, recolhiam-se para dormir.

Nos domingos e dias santificados, toda a família ia à missa e nisso era tomada toda a manhã. As  tardes eram dedicadas a visitas a parentes e amigos, o que dava oportunidade às jovens para se mostrarem em público e verem os seus eleitos. Às vezes eram essas reuniões abrilhantadas por violeiros e cantadores, fato que estava muito a gosto na época, e vários desses elementos criavam fama regional. Outras vezes, para entretenimento dos visitantes, era convidado um "contador de histórias" que falava de fadas e palácios encantados, proporcionando a todos um divertimento diferente, principalmente as crianças. Igualmente, convida-se uma pessoa que soubesse ler, que a todos entertia lendo, em voz alta romances de cavalaria, especialmente a célebre "história do Imperador Carlos Magno" e "os doze pares de França". Os ouvintes se empolgavam e aplaudiam as aventuras daqueles heróis, principalmente do Roldão, que vencia, em torneios, os gigantes. O mesmo ocorrendo em relação a Oliveiras e o Gigante Ferrabraz, tudo em defesa do cristianismo.

Após a inauguração da estrada de ferro e, consequentemente a facilidade de transporte, verificou-se maior desenvolvimento em todos os setores da vida econômica do Município, com poderoso reflexo na cidade que também se desenvolvia. Em face do contato mais acentuado com os forasteiros, principalmente as famílias vindas da capital da província, afim de passarem dias e gozar das vantagens do clima, foram-se criando certos costumes novos e se modificando outros, chegando mesmo a se notar um certo afrouxamento nos rígidos métodos de educação até então adotados.

As visitas foram sendo pouco a pouco, substituídas por encontros em passeios, principalmente ao longo da estrada de ferro e pelos saraus que se realizavam em casas de amigos, quando das festas de aniversários, casamentos, batizados ou qualquer outro motivo. Os pais começaram a consentir que as suas famílias tomassem parte nas danças, do mesmo modo permitindo aos filhos rapazes organizarem serestas e nelas tomarem parte.

Os preparos para a realização das festas natalinas, começavam na véspera do seu início, quando então grande parte da população masculina da cidade se dirigia às matas do Sítio Mundaú, de onde era tirada uma haste de quinze ou mais metros de comprimento para ser fincada em frente à matriz, afim  de nela ser hasteada a bandeira da festa. Enquanto isto, moças zeladoras, sob a direção de Sales Vila Nova, encarregavam-se do adorno interno da matriz. A referida haste, depois de desgalhada, era conduzida nos ombros de muitos homens, cada qual mais desejoso de contribuir, através daquele modo de ajudar. Antes de entrar na cidade, no local em que a banda de música a aguardava, nela eram montados muitos meninos empunhando bandeirinhas e ramos de arbustos, e com grande acompanhamento de pessoas chegava ao adro principal da matriz. E, imediatamente, preparada por carpinteiro revelando contentamento pela oportunidade de ajudarem, era a haste ali fincada. Mais tarde a banda de música acompanhava a bandeira conduzida por meninas uniformemente trajadas  e empunhando lanternas até o adro da  matriz, onde era hasteada. Durante esse mesmo dia, na parte comercial da Avenida Santo Antônio, eram armados botequins cujos trabalhos terminavam sempre no dia seguinte com os seus revestimentos e coberturas feitos com palmas de ouricuri, e à noite, ficavam repletos de garrafas com cidras, capilés, gengibirras e outros refrigerantes e também bebidas alcoólicas. Além de genebra e vinho do porto, também se encontrava "giribita" ou "mamãe sacode", como era chamada a aguardente pelos seus  consumidores, naqueles tempos. Eram expostos à venda, em originais tabuleiros, cocadas, arroz doce e outras guloseimas. Havia também, as bancas de jogos de roletas, dados e baralhos. Em lugar separado era, por Sales Vila Nova, plantada uma  Árvore de Natal, que impressionava pelo seu tamanho, carregada de dádivas, por ele obtidas dos comerciantes, que a certa hora eram distribuídas entre as crianças pobres.

Com exceção de algumas lâmpadas a querosene, a iluminação de tudo isso era feita por garrafas de ferro cheias de querosene com torcidas de fios de  algodão e toros de bambu suspensos em posição horizontal, com um furo em cada gomo, por onde eram cheios de querosene e colocada a torcida de algodão, com bocal de lata. Durante o período das festas a fachada da matriz era  iluminada por muitas lanternas, como também assim eram as de quase todas as  casas das ruas principais. Para a organização das quermesses armava-se umas duas barracadas no adro da matriz e os leilões das respectivas prendas, quase sempre, eram apregadas,  revesadamente, por Antônio Rosa e Sales Vila Nova. No último dia realizava-se uma cavalhada dirigida quase sempre, pelo Capitão Luiz de Barros Correa Gordinho, composta de vinte e quatro cavaleiros elegantemente trajados com indumentária apropriada, cavalgando cavalos escolhidos, com os arreios  ajaezados com guizos, empunhando garbosamente cada um a sua lança, em coluna por dois ia a trote moderado, a cavalhada percorria as  principais ruas da cidade. Terminado o percurso, no local das corridas, este já se achava repleto de espectadores. Durante as corridas os cavaleiros que conseguissem, com a lança, tirar a argolinha ia assim oferecê-la à sua beldade que quase sempre correspondendo à amabilidade, enlaçava na lança a fita que ornava o cabelo. Terminadas as corridas, todos se dirigiam à matriz para acompanhar a procissão. Precedida de duas filas de senhorinhas e senhoras, componentes de associações religiosas, uniformemente trajadas, no centro das quais iam os estandartes conduzidos por associados de cada uma, e sob os repiques dos  sinos se movimentava a procissão. Após a fila, ia a imagem do santo padroeiro sobre artísticos andor conduzindo por cidadãos dos mais respeitáveis e ladeado por oficiais da Guarda Nacional trajando uniforme de gala, empunhando, em guarda de honra, as suas espadas desembainhadas. Em seguida precedido de coroinhas manejando turíbulos  conduzido por respeitáveis cidadãos, ia o pálio, sob o qual, um sacerdote em paramento adequado, e ladeado por outros dois sacerdotes, levava a custódia.

Logo após, ia a banda de música executando marchas próprias para essa solenidade, precedendo a multidão e por último a cavalhada em forma.

As ruas do itinerário a percorrer eram, pelos seus habitantes, enfeitadas com cordões embandeirados em galhos de árvores plantadas, as portas e janelas das casas ornamentadas com colchas, tapetes e jarros com flores naturais. Durante o trajeto, cada rua em que a procissão passavam, eram soltados inúmeros foguetes, em girandolas. Depois da procissão e depois dos ofícios religiosos e do término dos leilões, eram as festas finalizadas com a queima dos  "fogos de vistas", ao mesmo tempo que soltavam enormes balões que se perdiam no espaço, ambos fabricados pelo Major João da Silva - conhecido por João Fogueteiro - exímio na pirotecnia.

No domingo, primeiro dia da última semana da quaresma, era realizada uma procissão pela manhã com a multidão que a acompanhava, em duas filas conduzindo ramos de arbustos e palmas de ouricuri. Na quarta-feira e daí por diante até o rompimento da aleluia, no sábado, os sinos não replicavam, sendo as suas funções substituídas  por matraca. Logo ao escurecer se realizava a "Procissão do Encontro", que consistia em uma parte da multidão seguir acompanhando o andor com a imagem de Jesus Cristo, que percorrendo algumas ruas da cidade, ia encontrar-se nas imediações da matriz com a outra parte que, do mesmo modo, percorria outras ruas acompanhando a imagem de Nossa Senhora das Dores, e por ocasião do encontro, um sacerdote em sermão, explicava a finalidade daquela cerimônia, em seguida a procissão se recolhia. As altas horas da noite, desse mesmo dia, turmas de gaiatos, em ruas das imediações do centro da cidade, e em frente de residências de pessoas de idades avançadas, praticavam o "Serra Velho" - brincadeira por demais grosseira, que para evitar a sua continuação tornou-se necessário a intervenção da polícia. E não era  para menos, pois enquanto uns simulavam a abertura de uma sepultura, outros, imitando choros e lamentos, iam proferindo itens de imaginário testamento dos velhos que eram "serrados", que, por sua vez, levantavam os mais sérios protestos.

Na quinta-feira santa, era realizada uma procissão com as imagens de Jesus Cristo e Nossa Senhora das Dores. Durante todo o dia de sexta-feira da Paixão, os fieis redobravam as penitências a que vinha se submetendo, e se  abstinham de qualquer manifestação de prazer. As residências não se varriam e as mulheres não se penteavam. À tarde realizava-se a procissão com a imagem do senhor Morto, seguida de banda de música, notando-se um laço de fita preta em cada um dos instrumentos de metal, executando marchas fúnebres. Recolhido a procissão, a imagem, sob a sentinela de cidadãos eminentes, para ser  visitada pelos fieis, era conservada exposta como em câmara ardente, e ao seu lado havia uma bandeja em que eram depositados pequenos óbulos. Na noite desse dia, quase toda a população somente se recolhia aos seus aposentos, depois que se ouvisse o primeiro canto dos galos, ocasião em que se pedia alvíssaras a Nossa Senhora, pela ressureição do seu Filho.

Também, durante esse mesmo dia, muitas pessoas fabricavam grandes bonecos exóticos, simbolizando Judas e, à noite, os penduravam pelo pescoço em forcas improvisadas na frente das suas residências, ou nas imediações da matriz. No sábado, eram realizadas as cerimônias da Aleluia, pela manhã e logo que os sinos repicassem anunciando o seu término, os garotos munidos de cacetes, avidamente se encarregavam da destruição dos "Judas". Também, na manhã do dia seguinte era realizada a procissão com a imagem de Jesus Cristo, e poucas horas depois era celebrada a missa cantada, tudo isso, com grande assistência de fieis, e à tarde a banda de música efetuava retretas, no adro da matriz, diante de apreciável concorrência de famílias. (Fonte: História de Garanhuns | Alfredo Leite Cavalcanti | Volume II | Fevereiro de 1973).

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