segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Mãos de menino


Maurilo Campos Matos

Menino pobre, de pé no chão,

Dorme ao relento, não tem um tostão.


"Vá embora, moleque"!


Pediu cinco cruzeiros

Pra comprar um pão.


No vidro do carro,

Que a poeira embaçou,

A mão pequenina

Gravada ficou.


Menino ou menina?

.. Mão de criança.

branca... morena?

Pobre...granfina?


As mãos dos meninos,

Que mancham os vidros,

São todas iguais.

Depois, talvez fiquem

Gravadas com fogo,

Gravadas com lama, com sangue,

Nas crônicas, nos arquivos policiais.


Talvez tirem de um teclado

Uma doce melodia.

Talvez empunhem armas,

Num gesto de rebeldia.

Talvez assinem sentenças,

Atos do governo, versos banais.


Talvez calcem luvas

Ou se encham de calos

Ou tremam com os dados,

Que rolam no chão

Talvez, irreverentes,

Acariciem um corpo,

Por qualquer cinco cruzeiros

Para comprar um pão.


Oh, mão pequenina, que ficaste gravada,

No vidro do carro, que a poeira embaçou,

Que hás de fazer?


Ah! Se os homens soubessem onde podes ir.

Ah! Se os homens pensassem no que podes ser.

Garanhuns | Outubro de 1962.

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