segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

O ano de 1958

Neide de Oliveira Tavares*

Pegando carona no livro de Joaquim Ferreira dos  Santos, não vou ao extremo de dizer que 1958 foi "o ano que não deveria ter terminado", como ele disse, mas que, tranquilo, e tudo muito certinho, ah! Isso era.

Apesar da adolescência, quase meninice, posso dizer estava, no auge, os "anos dourados", da nossa geração. Foi em 1958, que ouvi falar pela primeira vez na Copa do Mundo, porque Pelé, um menino, estava dando um show de bola, e Bellini era um belo capitão. Foi também a época da construção de Brasília, quando até as casas residenciais mudaram de estilo na arquitetura, alterando as fachadas, assim como os móveis, seguiram a moda "funcional". Época áurea ainda do Rádio, cujas propagandas nos encantavam, e ainda hoje lembramos os jingles decorados, pela repetição contínua nas programações, de produtos como: Biotônico Fontoura, Pond's, Talco Pom Pom, La Rochel, Cashemire Bouquet, Talco Ross, e tantos outros. Anos dourados também para os cantores nas Rádios, que ainda não concorriam com a  televisão. Faziam sucesso, cantores como: Orlando Dias, Emilinha Borba, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Ivon Curi, e aqui no Nordeste, o famoso Luiz Gonzaga. Estava na moda ler revistas "O Cruzeiro", e "Seleções". E como preferidas da moçada, "Cinelândia", "Querida", "Grand Hotel", "Capricho", estas últimas com fotonovelas, das quais se  conhecia o nome de todos os artistas italianos, que faziam as vezes dos autores de televisão de hoje. A revista "O Cruzeiro", muito lida, famosa por seus repórteres como David Nasser, e as figuras do "Amigo da Onça", desenhadas por Péricles. A revista "Cinelândia", trazia os astros de Hollywood, que viviam a época de ouro do cinema. Debbie Reynolds, Sandra Dee, Dóris Day, inspiravam as mocinhas que copiavam os vestidos vistos nos filmes. Depois foi a vez de Brigitte Bardot, com roupas e poses mais ousadas, que nos chocavam. Se fosse enumerar os artistas daquela época, daria uma lista imensa. Época também dos desfiles de Miss Brasil, Universo e outras mais, com maiôs elegantes Catalina, e os vestidos de tecidos, se não me engano, Bangu. Época de ouro nos  colégios, cada um se esmerando mais do que o outro, com fardamentos impecáveis, oferecendo o que tinham de melhor aos seus  alunos. As matérias inúmeras, que nos concediam uma noção de tudo, e de onde saíamos prontos para a vida, com um vasto conhecimento de línguas estrangeiras, português e ciências. Época áurea de um ensino consciente, com professores bem remunerados, que exerciam com eficiência a sua profissão.

Sobretudo, época de paz, época de políticos crédulos, dos comícios que atraíam a juventude, interessada na luta democrática, que chegava a defender os seus partidos escolhidos, e brigava por eles, com os colegas no colégio. Os políticos eram os nossos heróis. Que fragilidade! (como diria o poeta Mário Quintana). E eu digo hoje: Quanta ingenuidade! Mas isso era bom. Retratava a mentalidade da  época, motivada pelos acontecimentos que nos envolviam.

Tempo como disse antes, tempo de paz! Quando somos meninos, nada nos perturba, nada nos atinge, a não ser a arguição do dia seguinte, com o professor exigente, e cuja matéria ainda não estudáramos.

É, 1958 era uma época bonita, com um Brasil mais  tranquilo e menos violento, com brincadeiras de rua, enquanto vizinhos conversavam sentados em cadeiras nas  calçadas. Medo nenhum rondava o nosso mundo infantil, mesmo porque estávamos em casa, ninguém dormia nas ruas, estávamos com os nossos pais, e a casa da gente era o lugar mais seguro do mundo, onde não cabiam fantasmas nem ladrões. Vivíamos felizes. "1958, o ano que não devia ter terminado", é o título do livro de Joaquim Ferreira dos  Santos, que está sendo aguardado nas livrarias. E eu estou aguardando para ler.

*Professora, escritora, cronista e jornalista | Texto transcrito do livro Lembranças de Garanhuns e outras mais | 2014.

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