domingo, 20 de fevereiro de 2022

O papagaio de papel

Não, não devo colocar os pés neste primeiro domingo de agosto. Prefiro transformar-me num papagaio de papel. Empinar a alma na direção onde - azulecido - sopra o vento no  meu irmão siamês, o mar de Candeias.

Quero ser um papagaio de papel, neste domingo que  inicia o desfile do sempre preocupante mês de agosto. Tenho grave urgência disso!

Subirei bem alto, compondo-me em múltiplos movimentos. Juntarei coisas assim, aparentemente díspares: um retrato de minha primeira comunhão, alguns poemas que entretanto ainda não escrevi, o nome escrito da inutilidade amada, a  música "Piano", de Bruno Carezza ("Jogo da Vida"), mais uma balada de Chopin e algumas folhas do meu tranquilo lambeiro. Coisas desse tipo, só na aparência loucamente díspares. Irreconciliáveis pedaços meus. Tudo isso acrescentarei à cauda do  improvisado papagaio de papel que, de repente, devo ser, nestes primeiros instantes de agosto. Até que chegue o dia 13 de  (sexta-feira), e haja uma implosão em orla marítima: um veleiro que afunda.

Me empinarei todo então, hoje, ao vento de Candeias. Perderei a condição de humano terrestre: serei alado. Quero, desesperadamente, seu um papagaio de papel. Não me  impeçam com inúteis súplicas de olhos!

Não, não me esperem, neste dia: serei apenas um papagaio de papel, meus braços e pernas transformados em varas de bambu, como imagens de Kafka. Flutuarei, irregular e dúbio, sobre o azul do céu para assim fugir ao cinzento dos meus controvertidos mundos interiores.

Serei, neste domingo que abre agosto, um papagaio de papel. Tentarei driblar o mês dos maus presságios, até que setembro venha, tépido de sol, para me cobrir o rosto e inscrever, em minha testa, uma palavra de esperança e fé.

(Alguém, em terra, controlará o carretel de linha que me  manterá no ar, em evoluções. A linha não se partirá, ah! nunca como uma frágil amizade! Suas mãos de unhas cor de rosa controlarão o meu oscilar de papel e, quando Candeias adormecer, me recolherão, com úmidos e lânguidos olhos de adolescida garça. Assim como quem recebe aquele que, cansado, retorna de ter flutuado no azulecido céu que hospedou a caminhante tarde).

Permitam-me  ó todos os incrédulos - que hoje seja eu simplesmente um papagaio de papel e que o vento assovie, aos meus ouvidos, o "Piano", de Bruno Carezza, e aquela balada de Chopin, que costuma preludiar o meu ato de adormecer e reconstruir os sonhos que o real da vida me estilhaçou!

*Waldimir Maia Leite | Jornalista, escritor e cronista | Recife 1985.

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