sábado, 5 de fevereiro de 2022

Prefácio do Livro "Terra Molhada" de Waldimir Maia Leite

Gilberto Freyre | Setembro de 1984

Em Waldimir Maia Leite o que particularmente me encanta é o seu a-vontade na expressão jornalística conciliado igual a-vontade na expressão criativamente literária. Conciliação nem sempre atingida por candidatos a se realizarem como anfíbios intelectuais dessa espécie. Dessa rara e difícil espécie.

Publicado em livro, o jornalista admirável que foi Costa Rego, não deu certo. O leitor não encontrou no livro do jornalista o calor, a vibração, o gosto imediato de atualidade, que  se acostumara a admirar nos seus artigos de jornal. Talvez pressentisse que lhe sucederia o mesmo, Assis Chateaubriand quando permitiu que os amigos, admiradores devotados, reunissem em livro seus artigos impressionantes como expressão jornalística. Já sucedera com seu livro, o de sua mocidade, Na Alemanha, não ter correspondido ao êxito dos seus  primeiros e sensacionais artigos de jornal.

Livro é livro e jornal é jornal. Raros os anfíbios que têm triunfado num e noutro.

É o caso de Waldimir. Domina as duas formas de expressão e tanto encanta quem o lê em livro como quem o saboreia matinalmente em jornal.

Em sua expressão jornalística deixa, por vezes, entrever que é ensaísta literário. Mas a sua afirmação como ensaísta literário é especificamente literária.

O caso como que clássico do inglês Gilbert K. Chesterton. Nenhum triunfo maior, no jornalismo do seu tempo. Mas a esse triunfo juntou o de ensaísta literário em temas, até,  de sabor filosófico. A sua biografia de Browning - o mais complexo, denso, filosófico, sem deixar de ser lírico, dos grandes poetas de língua inglesa - que o diga. O mesmo carisma do jornalista em expressão de modo algum jornalística: especificamente literária. Mas especificamente literária sem que o carismático Chesterton deixasse de ser o carismático Chesterton. O inconfundível Chesterton. O mestre de uma simplicidade de  palavra que não resvalava nunca em simplismo.

O caso atual de Jean d'Ormesson em língua francesa. O de Julián Marías em língua espanhola. Julián Marías, como continuador de uma tradição espanhola que teve em Miguel de Unamuno uma de suas expressões máximas de conciliador de expressão jornalística com expressão literária. Atualmente, no Brasil, o caso de Josué Montello, depois de ter sido, de modo inesquecível, o de João do Rio.

Waldimir Maia Leite vem se revelando anfíbio dessa rara espécie. Em livro é de palavra tão sugestiva como em jornal. Em jornal, entretanto, essa palavra é jornalística e nunca aliteratada. Em livro é literária: sem a mínima tendência para subordinar-se a um atualismo tal que a ditasse de todo.

O escritor literário precisa de não condescender com essa espécie de atualismo à procura de popularidade. A popularidade procurada é sempre precária. Tanto o jornalista como o escritor literário precisam de não resvalar no popularesco com o fim de se tornarem populares.

Em Waldimir Maia Leite, o gosto pela palavra magicamente simples é um gosto que não se confunde com vulgaridade. Há nele um quase instintivo repúdio à vulgaridade. Seu  gosto pela palavra magicamente simples é uma afirmação de  vocação artística. Superiormente artística. Sua arte está no  seu escrever anfíbio: tanto no jornalístico como no literário. A artista sempre a comandar a palavra.

Mais: Waldimir Mai Leite é anfíbio de uma outra espécie: em combinar, como brasileiro, duas perspectivas. A perspectiva urbana e a perspectiva rural. Deixou-se recifensizar sem repudiar sua origem de brasileiro do interior: da mesma Garanhuns de que é filho um dos maiores escritores literários do Brasil de hoje. Esse outro brasileiro de Garanhuns, Luís Jardim. Escritor e pintor. Luís Jardim e Waldimir Maia Leite, são afins. Um e outro, juntando no que neles é superiormente criativo, à inteligência, a sensibilidade.

Note-se de Waldimir que, ao recifensizar-se, adotou como filha uma das mais lindas praias do Recife. Filha pela qual vem revelando uma espécie de amor de pai incestuoso. Adotando e amando esse encantador pedaço do Recife, é como se encontrasse, nesse amor, uma ligação com o mar, que lhe faltara à meninice em Garanhuns. Uma ligação com o mar, hoje, tão sua, como tivesse nascido na própria praia de sua adoção.

Este um dos característicos da personalidade de Waldimir presente tanto no escritor literário como no jornalista: o seu raro poder empático. O de por empatia assimilar o que, estando fora dele, pode, e tem se tornado, parte de sua própria pessoa física. De sua sensibilidade vibrátil e de sua inteligência agudamente sintetizadora de assimilações.

O Brasil - e não apenas Pernambuco ou o Nordeste - tem, hoje, em Waldimir Maia Leite, um dos seus mais valorosos intelectuais, dos que, ainda jovens, já são afirmações daquele expressivo talento capaz de contribuir notavelmente para o crescente realce de uma cultura nacional. No seu caso, que através do que escreve em jornal, quer do que produz através de livro.

Fotos: (1) - Gilberto Freyre (2) Waldimir Maia Leite (3) - Capa do livro Terra Molhada.

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