quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Rua do Recife

Neide Tavares*

Como está diferente a minha antiga Rua do Recife, hoje Dr. José Mariano! A outrora elegante rua, uma das principais de Garanhuns, onde um dia meu pai não permitiu que seus filhos se sentassem nos degraus da porta de  casa, porque "não ficava bem", não é mais uma das mais belas e refinadas da cidade. Perdeu a sua nobreza. Não é mais palco das bonitas serenatas, como já foi um dia. É palco de vândalos que perturbam a paz dos poucos moradores que restam na  rua, com gritos, pancadas nos portões, e arruaças. Isso mesmo durante o dia.

Gostaria que as pessoas que se interessam pela cidade, percorressem toda  a rua Dr. José Mariano com atenção. De  antemão aviso que tomem cuidado para não cair. Eu mesma me aventurei um dia desses, quase caí e ainda torci o pé. De  outra vez, mais prevenida, calcei um par de tênis. mesmo assim com cuidado, para evitar qualquer topada, uma que já sou meio estabanada. As calçadas pedem socorro. Solicitam uma restauração. Amigos meus, hospedados no Tavares Correia, vieram por essa rua outro dia, a pé. Felizmente estavam tão entusiasmados com a volta à cidade, que não comentaram as partes negativas. Não viram as calçadas fora de alinhamento, nem os tapumes dos prédios em construção, obstruindo toda a passagem dos pedestres, que disputam com os carros o asfalto, se quiserem continuar a caminhar. Ou se viram, foram delicados, ficando calados.

É, a culpa é mesmo do progresso, que fez a minha antiga rua perder o porte de princesa, porque rainha sempre foi a Avenida Santo Antônio com seus casarões antigos residenciais e  com ilustres famílias e habitá-los. Hoje, tudo é comércio, (nada contra) e a ex rua do Recife tornou-se até quintal de  estabelecimentos, que limpam os restos de suas mercadorias, como verduras, frutas, e até camarões, talvez com pouca água e desinfetante, deixando poças escuras e mal cheirosas, perturbando durante toda a semana, quem também tem  negócios na vizinhança. O preço do "progresso" é muito alto. E sobre isso eu conversava hoje com alguém, e ele dizia que  não adianta enfeitar a cidade apenas com flores, quando tanta coisa precisa de conserto. Não que se desprezem as flores, que  afinal estão dando um visual romântico à Cidade, e um quadro encantador aos nossos olhos. Elas fazem parte da personalidade de Garanhuns, do seu perfil, da sua gente, do  seu clima.

Ah! Mas a cidade cresce, dizem alguns, por isso está assim! Preferia vê-la menor, no entanto com mais estrutura,  com mais condições de vida, de trabalho, de educação, de saúde. Pequena cidade de interior sim, porém uma cidade limpa, agradável, sem maus odores, sem buracos, até mesmo sem asfalto, pois sofríamos menos quando tínhamos o calçamento de pedras, sem empecilho dos tapumes de  construções mal fiscalizadas, e destacando apenas o que ela tem de melhor. Oferecendo o aroma dos seus parques, dos  seus jardins, das suas praças, suas igrejas, seus belos templos, do seu clima, o encanto do seu pôr do sol, e tudo o mais que  Garanhuns tem de bom.

*Jornalista, escritora e professora |Texto transcrito do Livro Lembranças de Garanhuns e outras Mais | Garanhuns, 2014.

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