terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Terra Molhada

Waldimir Maia Leite*

Como terra molhada, o cheiro do corpo teu, fruto estival no meu outono. A superfície de tua face, irrigada de suor. Caminho assim minhas mãos sobre as tuas; e há sempre um retorno: voltarei sempre.

Deus prometeu a terra de Canaã a Abraão e à sua descendência. Nada me prometes, a não ser o tépido e fugaz instante de mútuo e desesperado estar. Depois nos separamos. Sinto no corpo teu, plantado como árvore sobre o lençol branco do leito, o cheiro de jovem terra molhada. Cheiro puro, de fruto estival. E o incessante cerco dos teus cabelos, claras ervas que alimentam o gesto angustiado e solitário das  minhas erradias mãos.

Amanheço como um dia de verão dentro dos teus fechados e, entretanto, insones olhos de quase menina, no embora estado teu de adulta.

Com cheiro de terra molhada, teu corpo, em posição horizontal, à espera da invasão do meu ato exploratório de amar. Cresço sobre ele como um visitante vegetal que, na aparência, quer dar sombra à tua carência, quando na verdade minimiza é a minha.

Somos - de repente - dois separados em busca de recomposição. (Planto uma súbita canção nos meus lábios, letra composta de somente teu nome).

Como terra molhada, o cheiro do corpo teu. Cheiro forte como seiva que jorra do fruto partido.

Retornamos sempre ao que não temos sido; e isto tem um sabor de humano desespero que pede paz e harmonia. (Os uivos do mundo lá fora, que sofre, não nos atingem!).

Como terra molhada, umedecem-se tuas pupilas, onde  costuma amanhecer a minha face composta de inquietude.

De repente somos, de modo irreversível, dois. Há um  impossível ato: sermos um só. Indivisíveis. Mútua e desesperadamente somos apenas isto: um homme et une femme. Bipartidos.

Retorno às tuas mãos, êxodo de mim mesmo, e logo sinto, nesse gesto, o incontido prelúdio de despedida. Temos tempo bastante para isto. Só não nos sobra instante para unidade.

Caminho a superfície do corpo teu, para cuja umidade contribuo com o meu irrigar semental.

Aguardo que despertes em nosso limitado tempo. Abras os olhos diante dos meus, já acordados. Liberte-me assim de tuas pupilas umedecidas, na íris há passagem de raios luminosos, eles chegam ao cristalino, depois à retina. Como um sol, iluminam a noite, de onde procede, cansado do meu êxodo.

Como terra molhada, a extensão de seda do corpo teu, onde caminho a superfície de Canaã que me cabe, no rápido instante que temos. Depois cessamos, embora logo plantemos a semente de outra necessidade: um amanhã eterno.

Não somos, desesperadamente jamais seremos um só. Ou somos isto: estilhaços do impossível.

Como terra molhada, o cheiro do corpo teu. Urge que  despertes, descerrem-se teus olhos como portas por onde eu  escape e recupere a liberdade de quem - súbito - amanheceu menino diante da adolescência dos teus seios.

(De repente grito, como Teilhard de Chardin, em  sua "A Missa sobre o Mundo": "Senhor, fazeios UM!").

Recife | 1984

*Jornalista e poeta, Waldimir Maia Leite nasceu em Garanhuns, em 24 de dezembro de 1925, de onde veio para o Recife desenvolver carreira jornalística. No Diario de Pernambuco, atuou como repórter, editor e cronista, durante cinco décadas.

Foi, também, assessor de imprensa da Sudene e tem vários livros publicados, poesia e crônicas. Membro da Academia Pernambucana de Letras, autor, entre outros, dos livros "Terra Molhada", "O Ofício da Busca" e "O Viajante das palavras". Faleceu no Recife em 30 de junho de 2010.

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