sábado, 5 de fevereiro de 2022

Waldemar de Oliveira e Garanhuns

Luiz Souto Dourado | Recife | 1979*

Procurei-o várias vezes. Quando da apresentação de um projeto de lei instituindo prêmios literários e artísticos, fui a sua casa a fim de colher subsídios. Além de aplaudir o nome de Samuel Campelo para o prêmio de Teatro, dizendo que  nenhum outro autor pernambucano produzira tanto no gênero, Waldemar de Oliveira lembrou o nome de Euclides Fonseca para o prêmio de Música. Citou a maior parte das suas composições, ressaltando o admirável apostolado desse mestre, que nem Carlos Gomes conseguiu tirar de Pernambuco. Sugeriu também o nome de Nestor Silva para o prêmio de Pintura recordando o êxito de uma exposição desse artista no Rio de Janeiro, principalmente dos quadros que representavam as nossas tradições, como maracatu, bumba-meu-boi e o frevo. Era assim Waldemar de Oliveira. Amava as cousas de Pernambuco e conhecia como ninguém, em cada setor, quem melhor podia representá-las. O projeto foi convertido em lei, mas a lei não foi cumprida até hoje.


Uma outra vez, tornei a procurá-lo. Fui convidar o Teatro de Amadores para inaugurar a Centro Cultural de Garanhuns. Companhias do Sul apareceriam depois, como apareceram várias, mas para inaugurar gostaria de levar o seu pessoal, o seu teatro resultante da sua vocação e sobretudo do seu amor à terra. Por coincidência, ao mesmo tempo que construía o Centro Cultural, construía-se no Recife o Nosso Teatro. Nossos encontros ficaram mais frequentes. A dificuldade de fazer teatro era a mesma em todo lugar. Vi Waldemar assumir pessoalmente enormes responsabilidades, como se fosse não o  idealista que era e sim o empresário que nunca quis ser.

Finalmente, o Centro Cultural de Garanhuns era inaugurado, com o teatro de Amadores e estou a ver Waldemar abrindo a cortina para falar à plateia. Homem de palavra fácil e elegante, lembrou Garanhuns de tempos passados, com o seu Grêmio Polimático, citando nominalmente Tranquilino Viana e Manoel Gouveia, seus companheiros, pois em Garanhuns ele também fazia teatro e amigos, incentivando a cultura local. Poucos dias depois estava Waldemar de Oliveira inaugurando o seu Nosso Teatro. Vim trazer-lhe o meu abraço de  congratulações e reconhecimento. Foram as duas últimas vezes que o vi. Ambas na ribalta. Ambas fazendo teatro. Ambas fazendo o que gostava de fazer.

Uma noite, telefonou-me. Queria saber de mim se o Centro Cultural, que inaugurara, iria fechar, como chegara ao seu conhecimento. Desmenti a notícia, mesmo assim denunciara o fato ao Conselho Estadual de Educação, pedindo providências. Era assim Waldemar de Oliveira; fazia teatro, construía teatro, mas sobretudo lutava pela sobrevivência do teatro. Por tudo quanto fez na vida, na cátedra e no jornalismo, é que  devemos agora conservar como ele deixou, vivos, atuantes, cumprindo a sua missão; o Centro Cultural de Garanhuns e o  Nosso Teatro. É a melhor homenagem que podemos fazer à sua memória.

*Advogado, jornalista, escritor, foi prefeito de Garanhuns, deputado estadual e secretário estadual no governo de Miguel Arraes. 

Waldemar Ferreira nasceu no dia 2 de março de 1900, na Rua da Imperatriz, n. 46, na cidade do Recife, filho de Bianor de Oliveira e de D. Maria da Penha. Faleceu no dia 18 de abril de 1977, no Hospital Geral de Urgência do Recife, em consequência de complicações renais agravadas após uma queda nos jardins de sua casa, ocorrida no dia 10 de fevereiro, na qual havia fraturado o ilíaco.

Créditos da foto de Waldemar de Oliveira: https://sis-medicos.fandom.com/pt-br/wiki/VALDEMAR_DE_OLIVEIRA

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