terça-feira, 29 de março de 2022

A antiga Rua do Recife

Neide de Oliveira Tavares*

Voltando a percorrer as ruas da cidade, eis que chego à Rua do Recife - (elegantemente chamada de Rua Dr. José Mariano), na década de 50, para ali residir com a minha família. Moramos na casa 507, permanecendo na mesma durante 14 anos. A Rua do Recife (assim apelidada por ser passagem de veículos que partiam para a Capital) é por antiguidade e merecimento, a rua do meu coração, pois já voltei a morar aqui por mais três  vezes e somando tudo, são mais de trinta anos.

Quando aqui chegamos, ainda não completara cinco anos de idade e fui estudar na escola particular de D. Albertina Moraes. Mestra famosa de tantos outros da minha idade e que ainda hoje moram em Garanhuns. A escolinha era localizada nessa rua, na esquina do Colégio Santa Sofia, posteriormente farmácia do Seu Severino, cidadão que receitava a todos que o procuravam especialmente os moradores dos sítios. Atualmente abriga loja de confecções. Pelas mãos de D. Albertina passaram naqueles tempos, os meninos Godoi, as meninas Machado (uma delas casada com um dos integrantes do Quinteto Violado), os meninos de Seu Campos: Elza, Roberto e Fernando, as meninas Vaz da Costa, as meninas de Seu Ezequiel e tantos mais que não lembro o nome.

Rua do Recife na década de 1930

A Rua do Recife não tinha o encanto das ruazinhas tinha atrações: Atrações que desfilavam de acordo com a  época e com o dia, diante dos nossos olhos curiosos, ávidos de  novidades. Era sempre uma festa. (sem querer parodiar Paris de Hemingway).

Na adolescência, ficávamos nas calçadas ou janelas até tarde, vendo todo um desfilar. Os amigos que passavam para  casa ou para o comércio sempre a pé, pois quase ninguém possuía carro. Os internos do Colégio XV, que iam ao cinema; as meninas do Santa Sofia aos domingos; os jovens Seminaristas que frequentavam a Catedral; o Tiro de Guerra com os seus soldados para as marchas; os internos do  Diocesano que iam passear no Parque Euclides Dourado; os frequentadores da Igreja Batista para os cultos e entre eles, nos chamava a atenção o par formado por Seu Frias e D. Ester, ele por seu porte elegante e ela pela vivacidade no andar; os  cavalos de Seu Sofonias, que iam correr no Prado, lustrosos e bonitos e que viviam no enorme quintal da sua casa. E que  dizer dos vendedores de frutas, geralmente habitantes do Castainho, que todo momento nos ofereciam o que havia de  melhor nas suas plantações? Ainda hoje parece que estou ouvindo os pregões de todos os tipos de produtos: "Tapioca de coco! É de coco mesmo!" "Sooorvete!" "Quer comprar goiaba?". À noite, as pessoas desciam para os cinemas Jardim e Glória e às vezes me deixavam com uma ponte de inveja, porque por uma razão ou outra, eu não podia ir àquela sessão e perdia o tão comentado filme da semana, programa por mim mais cobiçado.


Na época de carnaval, as casas se enchia de parentes que vinham presenciar de perto a festa, assistindo ao corso que  passava não sei quantas vezes em frente às nossas portas. Sem contar os foliões que saíam em grupos ou sozinhos fantasiados, e que ficavam sempre muito engraçados. Durante o São João ninguém podia fazer fogueiras para não estragar o calçamento de pedras e nas festas de natal que perduravam mais de oito dias, apreciávamos a elegância das pessoas que desciam das outras ruas e se dirigiam à Avenida Santo Antônio. Aquilo nos contagiava e queríamos ir também, correr nos carrosséis, ondas e rodas gigantes, que se movimentavam ao som das músicas oferecidas pelos rapazes às mocinhas.


Era uma rua cheia de agitação saudável, sem vandalismo, sem prejudicar ninguém. Quantas vezes nos acordamos, tarde da noite, ouvindo o canto das serenatas que  os rapazes românticos faziam pelas ruas da cidade. Quase todos os fins de semana era certo ouvir as belas  vozes ao som dos violões. Era agradável acordar. Depois se ouvia o apito dos guardas.

Muitos colegas do Colégio Santa Sofia eram nossas vizinhas e ainda lembro de: Sílvia Branco, Ângela Rodrigues, Mônica Romero e Marinalva Teixeira (na ruazinha que desce de Igreja Batista), Rosa e Vera Lúcia, filhas de D. Carmen e outras mais. Entre a vizinhança adulta estavam as famílias de Seu José Bento (que consertava os nossos sapatos); Dr. Urbano Vitalino advogado, Seu Sofonias com a venda de  farinha de trigo, Seu Taufik, comerciante; Seu Espiridião Falcão do Foto Art Stúdio, pai de Elvira que se tornou minha amiga quando passei a estudar no Colégio Quinze, fase de encanto maior da nossa existência; D. Luzinete Rodrigues e D. Helena Martorelli, que tanto nos ajudaram tão solidárias na madrugada fria e triste em que o meu pai faleceu. Também a família de Seu Cordeiro, Seu Cassiano, Mariinha Leite no seu casarão antigo, Seu Correia e D. Dorinha, muito amiga nossa. Vale ressaltar que a sua casa permanece inalterada, lembrando os velhos tempos em que foi construída. Bem pertinho à nossa casa residia Seu Bonzinho e D. Vicência, já bem idosos e ao lado deles Seu Pedro Lima. Gostava de apostar com meu irmão como passaria perto do casal e dizia: "com licença. D, Vicência". Só para ouvir soar a rima. Havia ainda as famílias de Dr. Celso Galvão, José Ovídio, Régis e Ismael Tinô, que faleceu no mesmo dia que o meu pai.


Conhecemos a Rua do Recife quando o terreno do Colégio Quinze chegava até em frente à nossa casa. A Avenida Agamenon Magalhães ainda não existia. Após a construção da casa pastoral, foi edificada a Vila Rejane, pelo Sr. Aloísio Cabral, que deu o nome à vila em homenagem a sua filha, pessoa da nossa maior estima. Vizinho à casa pastoral, na década de 60 surgiu o Cinema Veneza, fruto do esforço maior de Seu Manoel de França junto aos seus filhos. Cinema Veneza! Este sim, foi o presente inesperado para nós, que  assistimos a sua construção, espetáculo da força de vontade, como também às sessões cinematográficas, antecedidas pelas músicas orquestradas por Ray Conniff e cuja melodia invadia a nossa casa, atraindo-nos para a sala do cinema tão bem frequentada. Meus irmãos tinham cadeira cativa, gozavam de privilégios porque passavam o dia todo ajudando por lá. Pena que foi tão efêmero!

Apesar de gostar tanto da Rua do recife considero-a (perdoe-me) ingrata para com seus moradores. Hoje é uma rua descaracterizada, sem personalidade arquitetônica, pois foram destruídos os seus antigos casarões, dando lugar a prédios que nada dizem da época em que foram construídos. Ao mesmo tempo expulsa e oprime os seus moradores com a abertura de bares cheios de barulho, estabelecimentos comerciais aqui e acolá, tornando inconveniente aos  remanescentes que aqui permaneceram. Heroicamente vamos resistindo ao lado das famílias de Socorro Monteiro, Nair  Siqueira, José Bento, Isaura Medeiros, Seu Cordeiro e outros daquela época que teimosamente continuam amando esta rua cheia de história e de saudades. História que aqui não cabe, daria então um livro.

Em tempo:

O Dr. José Mariano, foi abolicionista da escravatura. Ao lado de Joaquim Nabuco e outros, fazia parte do Clube do Cupim, criado para defender os negros fugidos da mão dos  seus senhores. Foi também grande chefe político nos bairros de Areias, Barro e Tejipió. Na cidade do Recife foi homenageado dando nome ao Cais no bairro da Boa Vista.

*Neide de Oliveira Tavares é jornalista, escritora, historiadora, cronista e professora. Crônica transcrita do Livro "Lembranças de Garanhuns e outras mais". Ano 2014.

Clique aqui e saiba mais sobre o Dr. José Mariano.

Um comentário:

  1. LINDO COMENTÁRIO, PARTE DE MINHA INFÂNCIA FOI NA PRAÇA DOM MOURA,CONHECI BEM A RUA DO RECIFE E ALGUNS PERSONAGENS CITADOS. RESTA SAUDADES DAQUELA ÉPOCA!

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