quarta-feira, 2 de março de 2022

A Palavra


Alfredo Correia da Rocha

A palavra, no ser, é coisa viva,

gasta-se e morre, se não recriada.

É planta de um jardim que só dá flores

quando pacientemente cultivada.


Pode morrer no tempo quando nele

não mergulhar bem fundas as raízes

ou nem sequer deixar para o exemplo

do seu poder as suas cicatrizes.


A palavra é fruto de uma messe

que ao mau cultivador traz o castigo.

Torna-se um joio sobre a terra estéril,

do que a corrompe repudia abrigo.


A palavra é de ouro, se edifica,

mas é dano e miséria, se envilece.

Cavando o ódio é taça de veneno,

como é luz e amor de alma em prece.


Espada a cintilar de duplo fio,

ora é força brutal ora é justeza.

É gigante com um braço erguido ao céu

e outro indicando o abismo da torpeza.


É a ponte sobre a qual volitam anseios

projetando em espírito os ideais,

quando lançadas em bases duradouras

que a humanidade o não destrói, jamais.


Com ela a fulgir das luzes da Verdade,

Jesus de Nazaré remiu a terra.

Por ela, em tantas fases há história,

massacrara-se a vida em cada guerra.


A palavra é semente delicada,

nas mãos do mau ceifeiro se amesquinha;

quando das trevas nasce espalha a morte,

se vem da luz al Alto se encaminha.


Pode ser instrumento de grandeza

ou do indigno ferrete da opressão;

símbolo ser de honra e de nobreza,

ou descer, aviltada, à execração,


Dos lábios virginais de Joana D'arc

a palavra brotou como um luzeiro,

mas na boca dos monstros que a imolaram

em opróbrio aviltou o mundo inteiro,


A palavra arrastou-se na desonra

quando o mundo explorava a escravidão,

mas foi, no entanto, amor e sapiência

abolindo e aviltante servidão.


A palavra apoplética de fúria

de que se valem os líderes da terra,

gera a chacina horrenda em que se esmaga

a pobre humanidade em cada guerra.


Arma que o Eterno deu por dom aos homens,

a palavra é de paz ou de ódio cruel.

Nos montes de Judá tentou a Cristo,

e dos céus expulsou o anjo Lusbel.


A palavra exaltou a antiga Grécia

mas aviltou de Roma o imenso império.

Cobriu de glória os santos no martírio,

e as obras vãs tronou em cemitério.


Foi semente de amor sobre o Calvário,

foi com Caifás e Judas - perdição;

corrompida, degrada e envenena,

verdadeira, é ideal, sublimação.


Duas faces lhe dão força suprema, 

com imenso poder de idade em idade;

uma que cava o abismo da mentira,

outra que busca Deus pela verdade.

Garanhuns | 10 de Setembro de 1976.

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