segunda-feira, 28 de março de 2022

Casa de farinha, farinhada

Por João Marques*

Das lembranças de menino, muitas, a que faz a festa da saudade é a casa de farinha. Farinhada, convenha-se, é sinônimo de animação. Lembro da tulha de mandioca no meio da casa de farinha. À noite, na véspera do primeiro dia de serviço, um candeeiro equilibrado em cima, iluminando como podia em volta. Mulheres, na maioria raspando as raízes ou tubérculos da mandioca. O processo consistia em retirar a casca fina e escura. E, ao atrito da faca, um som característico, que não esqueço. Com essa primeira etapa do serviço, já se conseguia deixar branca a mandioca, da cor da farinha.

Diversas etapas seguiam-se depois. Uma roda de madeira, de uns 2 metros de diâmetro, montada verticalmente em base segura, era rodada, através dos dois veios laterais, por 2 homens de força. E um cordão grosso, partindo da roda, ia ligar-se ao caititu, para ser cevada a mandioca, no contato com as serras metálicas da peça cilíndrica  e giratória. Isso há uns 5 metros de distância, entre a roda e o caititu. Um som alto fazia, com o atrito das serras. Barulho um tanto diferente do feito pela serraria de madeira. A massa, agora, vai para prensagem. A prensa é um capítulo à parte na casa de farinha.

Maquete de casa de farinha, em versão moderna, exibida no museu Casa das Doze Janelas, em Maniçoba, Capoeiras-PE. Crédito da foto: Robson Silva

A geringonça se compõe de diversas partes. Por cima da prensa a "vara", que é um pau lavrado, com cerca de 4 metros de comprimento, volumoso e pesado. Horizontalmente, sobe e desce, com movimento comandado pelo fuso, também de madeira, localizado em uma das extremidades da "vara". Abaixo, a prensa, que era um grande e profundo cocho, e que recebia a massa úmida, para ser prensada. A massa era acomodada em "paneiros" -  palhas verdes, de coqueiro, devidamente dobradas - e colocada no cocho. Sobre a massa, protegida já pelas palhas, a amassadeira, de madeira, cobrindo a extensão da massa a ser prensada, e sobre ela o briquete, um toro de pau, cilíndrico, de pouco mais de 1 metro, que recebia o peso da "vara", impulsionada para baixo ou para cima, através do fuso. Prensada, a massa soltava um caldo, chamado manipueira, que era aparada por baixo e assentada no fundo a goma de fazer tapioca e outros produtos comestíveis.

Prensada e enxuta a massa, era colocada aos bolos em outro cocho, onde era quebrada à mão, e peneirada. Massa fina, agora, extraídas as crueiras, chegava finalmente ao forno quente de mexer a farinha. Muita lenha inflamada embaixo, e acima o forno, de mais de 3 ou 4 metros de diâmetro. Um homem em pé, em uma das extremidades, segurava na vara do rodo e a impulsionava para lá e para cá, até a farinha ficar seca, e pronta.

Tudo isso, da arranca da mandioca no roçado, até a conclusão, no forno quente, era feito, com a maior alegria. Os trabalhadores cantavam, davam gritos, formando, com a zuada normal da casa de farinha, uma orquestração à parte. Não posso esquecer dessa saga cultural de minha vida. Hoje, gosto de comer farinha de mandioca, e fico a mastigar as saudades. A lembrança dignifica até, por haver participado da casa de farinha, raspando mandioca ou quebrando com as mãos os bolos de massa no cocho, ao sacolejar da peneira.

*João Marques dos Santos é escritor, poeta, cronista, jornalista, editor/redator da Revista Cultural O Século, autor do Hino de Garanhuns, ex-presidente do Grêmio Cultural Ruber van der Linden e Academia de Letras de Garanhuns ALG.

Texto transcrito da Revista Cultural O Século | Abril de 2022.

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