segunda-feira, 21 de março de 2022

História de Garanhuns

Depois da morte de suas irmãs e de renunciar à Direção do Colégio Diocesano, Mons. Adelmar passa a  residir num quartinho de uma janela e uma porta no prédio anexo da rua São Bento onde  funciona o curso primário. Momento em que ele sai dos seus humildes aposentos, no vaivém diário.

Manoel Neto Teixeira*

Monsenhor Adelmar da Mota Valença deixa a Direção do Colégio Diocesano de Garanhuns - Saber exatamente a hora do  adeus, da partida, do encerramento de uma jornada, mesmo coroada de todas as glórias, não é tarefa fácil nem decisão comum a qualquer mortal. Somente as grandes personalidades o sabem fazer, com precisão e sem vacilações. Foi o que aconteceu ao Mons. Adelmar, que vinha, reiterando vezes, solicitando à Diocese o seu afastamento da  Direção do Colégio Diocesano. Os bispos não o aceitavam. Até que chegou a hora em que sua intenção se tornou irrevogável e, por conseguinte, assimilada pela cúpula da Igreja.

Vida inteira caracterizada pela coerência no fazer e no proceder, sua renúncia, embora surpreendente para muitos, ratifica o desapego às glórias terranas, dos homens, ao próprio poder. O único título que o fortalece e do qual não abre mão é o de Ministro de Deus. Passou a Direção do Colégio para outras mãos, mas fez questão de permanecer morando pertinho da Capela, condição para o exercício do seu ministério, celebrando missas e fazendo sermões diariamente.

Quando chegamos ao Colégio, com o projeto deste livro debaixo do braço (O Diocesano de Garanhuns e Monsenhor Adelmar de Corpo e Alma), encontramos a Mons. descendo as escadarias do refeitório, sabia-o convalescente de uma avaria na sua saúde física, que levou por alguns dias ao  leito. Mas já mostrava sinais de franca recuperação e firmeza, dotado que é, também, de um vigor físico invejável.

Naquela ocasião, ficamos sabendo que, além de suas atividades religiosas, continua responsável pelo internato do Colégio, embora tenha sido este reduzido ao mínimo, conforme o projeto de sua extinção gradativa da atual Direção. A tarefa foi para que  o Mons. não ficasse de todo parado, sem encargos no dia-a-dia, o que seria até injusto e certamente nada bom para a sua saúde, ele  que sempre teve jornada diuturna de intensas atividades, ininterruptas atividades durante os seus quarenta e quatro anos à frente da instituição de ensino.

Hoje, o internato do Diocesano, de tantas vitórias na formação de milhares de jovens, de uma média de cento e sessenta alunos, está  reduzido a apenas doze. Num desses dias em que tive a alegria e a honra de almoçar ao seu  lado, juntamente com os doze pupilos internos, no Refeitório do Colégio , quebrou o costumeiro silêncio e fez o seguinte comentário: "Este refeitório sempre esteve cheio, de canto a canto, com mais de duzentos alunos internos fazendo suas refeições diariamente, na mais perfeita ordem. Hoje, vejo-o vazio...!"

Sem ter mais suas irmãs ao seu lado, esteio da obra administrativa e pedagógica da instituição, Mons. Adelmar vive, hoje, isolado, residindo num pequeno quarto anexo do prédio do curso primário, à rua São Bento. Ele acompanha todos os passos do pequeno número de adolescentes internos, cujo dormitório fica pertinho ao seu. Todas as noites, antes da dormida, faz a tradicional prelação cívica para os jovens, realçando a formação ética dos  mesmos, um dos pontos fortes de sua jornada de educador.

Sobre a rua renúncia à Direção do Colégio, o jornalista Waldimir Maia  Leite escreveu, com muita lucidez e firmeza de ex-aluno, que vivenciou e  bebeu a água daquela fonte, o seguinte artigo na edição de 05 de janeiro de 1982 do Diário de Pernambuco:

"Aos 74 anos de idade, cheios de serviços prestados à educação do Brasil, o Monsenhor Adelmar da Mota Valença resolveu, em decisão que precisa ser  respeitada, afastar-se da direção do Colégio Diocesano de Garanhuns.  Ele é  comparável aos gregos e romanos biografados por Plutarco..

Há precisamente quarenta e quatro anos vinha exercendo o árduo trabalho de educar. Suas mãos de artesão souberam,  a um só tempo, ministrar a hóstia no altar e abrir caminhos construtores a varias gerações de jovens, no  velho Ginásio Diocesano. Ele resolve parar e sua decisão deve ser - embora lamentada - acatada. Respeitada, até. Não o faz por fuga. Ele que, jamais, foi de fugir. Sempre um comandante da Educação que ficava, não nas trincheiras, mas nos primeiros escalões da luta.

O Padre, agora, está recolhido a um modestíssimo quarto onde apenas cabem sua cama simples, mesinha diminuta onde ficam sua Bíblia, uma  moringa e o copo. Este é o ambiente onde se recolhe o grande educador brasileiro. Ele e sua multicolorida alma.

Não admito que se torçam fatos a propósito da saída, efetivada neste começo de ano, do padre Adelmar da Direção do Colégio. Ele sentiu que sua hora estava chegando; e que cumprira sua missão. Isto é um fato absolutamente inconteste ao mais bisonho dos observadores. Respeitemos sua decisão. Há hora para tudo, diz o Eclesiastes.

Pobre ou rico, o padre Adelmar sempre acolheu, no Ginásio, os alunos. A partir de conhecimento efetivo de que um aluno não podia cumprir com as  obrigações financeiras do curso, o Padre contornava a situação: o pagamento viria um dia, depois. Por este país afora, quantos nomes ilustres pontificam agora, mas não tinham condições de estudar?

Deixa o padre Adelmar a direção do Colégio. Devemos todos nós respeitar sua decisão. Repito: não o fez por fuga, mas por ter cumprido sua missão. A esse varão de Plutarco, todas as homenagens devem ser imediatamente tributadas.

Devem começar, a partir de hoje, as articulações de homenagens ao padre Adelmar. Partidas de todos os setores. Tributo público a quem chega ao final  de sua missão sem derrotas, mas com louros à mão.

E que essas homenagens sejam prestadas imediatamente. Não se  cometa, em Garanhuns, o crime nefando de esperar que o padre Adelmar morra para depois ser reconhecido o seu imenso trabalho de educador. Deve ser agora, essa homenagem.

Agora, com o seu coração ainda pulsante, ele deve ser homenageado, embora, por temperamento, desautorize qualquer manifestação. Nesse caso, o padre Adelmar não se pertence. Ele é o patrimônio da história educacional brasileira".

A DESPEDIDA

Depois de colocar sua renúncia em caráter irrevogável, por isso mesmo aceita pela Diocese, fez o Mons. Adelmar a seguinte despedida:

"Termo nº 1336 - 31 de dezembro de 1981. Despedida. Tocam os  sinos, chamando os fiéis para missa da meia-noite, quando se encerra a minha missão de Diretor do Colégio Diocesano. Iniciando a 2 de fevereiro de 1938, como vice-diretor substituto, encerro, como diretor, os meus 44 anos letivos. A Deus peço perdão de tudo o que fiz e deveria ter feito e de tudo o que não fiz e deveria ter feito. A Ele, agradeço pelas coisas certas que, com a sua benção, consegui fazer. Ao Sr. Bispo, D. Tiago, agradeço toda a sua bondade para comigo, coroado, agora, com a aprovação de minha renúncia. Aos que me ajudaram - professores e funcionários - a minha gratidão. Aos ex-alunos e alunos o meu reconhecimento pela caridosa tolerância e, aos seus pais, pela confiança, durante 51 anos, se constituiu a maior benfeitoria de toda existência deste colégio. Peço a São José que seja o Cirineu do caro padre Ivo, na subida deste Calvário, tantas vezes disfarçado em Tabor.

Querido Ginásio, sit Deus in itinere tuo! Padre Adelmar Valença"

*Jornalista, advogado, escritor, professor e historiador | Garanhuns | Ano  1994).

Mons. Adelmar da Mota Valença faleceu no dia 08 de agosto de 2002.

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